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Número 870,

Cultura

Música

O bandolim de Hamilton de Holanda

por Ana Ferraz publicado 09/10/2015 03h14
Em plenitude criativa, o virtuose do bandolim faz turnê por 12 estados com repertório autoral inédito e ingressos a preço baixo
Marcos Portinari
Hamilton-de-Holanda

"Fico em êxtase quando alguém vem me dizer que a música lhe fez bem, fez feliz”

No telão, um garoto toca bandolim ao lado do pai, que dedilha o violão. A imagem do pequeno instrumentista sério e compenetrado emociona o público. A atitude profissional e o talento precoce impressionam. Aos 8 anos o músico mirim acumula três anos de prática e dois de palco. Aprendeu a tocar antes mesmo de ser alfabetizado. Na contagem oficial, Hamilton de Holanda tem 18 anos de profissão e 28 trabalhos lançados, entre vídeos e CDs.

Na contabilidade afetiva, do primeiro instrumento aos 5 anos, presente de Natal do avô, aos atuais 39, são 34 anos de bandolim. “Não imaginei que ele me levasse tão longe em reconhecimento e carinho do público. Para ser sincero, me sinto começando, pois se não for assim paro de tocar”, diz o artista, reverenciado nos Estados Unidos como “o Jimi Hendrix do bandolim” e conhecido na França como “príncipe do bandolim”.

Filho, neto, sobrinho e irmão de músicos, Holanda até que tentou fugir do destino aparentemente traçado ao nascer numa casa onde diversos instrumentos ficavam sempre na sala, ao alcance de quem desejasse tocar, tão integrados ao ambiente quanto o sofá e as almofadas. Prestou vestibular e frequentou a faculdade de ciências contábeis até o terceiro semestre, quando a cerveja com os amigos no bar da esquina tornou-se inapelavelmente mais atraente. “Larguei tudo e fui estudar Composição na Universidade de Brasília.”

Jacob-do-Bandolim
Jacob do Bandolim, uma das inspirações eternas de um músico com lastro no choro. Créditos: Conteúdo Expresso

Estava nos genes, estava na alma. “Tocar era tão natural que não dava para perceber se era ruim ou bom. Quase um vício, só que sem causar nenhum mal”, diverte-se o artista nascido no Rio de Janeiro e criado a partir dos 11 meses na capital do País, onde o pai frequentava com assiduidade o Clube do Choro. “O choro é meu lastro, sou um chorão até hoje”, conta o músico, admirador ardoroso de Pixinguinha, homenageado por ele no CD Mundo de Pixinguinha (2013), e de Jacob do Bandolim, entre outros grandes.

Crescer em Brasília, “onde tem gaúcho, mineiro, gente de todo lugar”, ser filho de pernambucanos, viajar pelo Brasil e ter contato com culturas diversificadas há tempos lhe açularam a vontade de levar adiante um projeto voltado para a  cultura popular. A materialização do desejo é Pelo Brasil, um périplo de 15 shows em 12 estados com repertório autoral inédito e ingressos a preço baixo.

“Sempre quis fazer algo assim. Compus 14 músicas inspiradas em diversos ritmos e criamos um espetáculo multimídia. No palco, o bandolim solo, ao fundo, um cenário com projeções. Para cada música se conta uma história sobre o País, os gêneros musicais e um pouco da minha biografia. É íntimo e universal. Emoção e diversão.” Entre os ritmos escolhidos para representar o Brasil estão choro, maracatu, bumba meu boi, moda de viola, chamamé, “que é multinacional, tem no Uruguai, na Argentina, no Paraguai e no Brasil”, e macaxeira.

“É um projeto grande, de dois anos, contemplado pelo programa Petrobras Cultural. A primeira fase foi de experimentação do formato, de amadurecimento. Na pré-produção revivi muita coisa, tenho coleções de pesquisa de ritmos brasileiros. O público se reconhece nas escolhas musicais. Depois do show muitas vezes alguém se aproxima para me dizer ‘puxa, lembrei do meu pai, de quando era pequeno e ouvia isso’. Para mim, essa é a parte fundamental, chegar ao coração dos espectadores”, afirma o premiado instrumentista.

A troca afetiva com a plateia é um dos pilares sobre os quais Holanda solidifica a carreira. “A sensação de que você faz uma coisa que transmite alegria me dá mais motivação para viver. Dois momentos me deixam em êxtase, quando acabo de compor uma música e sai aquela verdade pura e a partir daquele instante ela não é mais minha, e quando estou tocando e alguém vem e me diz ‘obrigado, me fez bem, me fez feliz’. No fundo, a gente quer ser querido, embora na condição de artista busque coisas sem ter a obrigatoriedade de agradar.”

Em ótima fase produtiva, embasada em equilíbrio emocional e amadurecimento profissional, as composições lhe vêm a qualquer momento. “Componho a toda hora, gravo no celular, escrevo no computador. Ontem mesmo fiz duas músicas. As ideias estão fluindo muito bem e me sinto melhor hoje do que há dez anos”, conta, jeito tranquilo e prosa sem afetação.

Pixinguinha
Pixinguinha, ídolo admirado e homenageado pelo instrumentista. Créditos: D.A Press

A vida profissional apoia-se no tripé compor, interpretar e improvisar. Engana-se quem atribui a produção caudalosa somente a uma entidade intangível conhecida por dom. Há muito trabalho por trás de cada melodia caprichosamente construída. “Há dias em que só treino improviso. Existe uma cultura equivocada que é a exaltação do autodidatismo. O aprimoramento tem de ser constante. Quanto mais busco, mais tenho a aprender. E quando você encara a composição como ofício vem mais fácil.” No seu caso, a disciplina que burila o talento não é sacrifício, é fruição.

A marca da precocidade associada a Holanda por vezes oculta a realidade sob um falso véu. “Comecei bem cedo e entre ser considerado um garoto prodígio e me tornar um profissional houve uma caminhada diária, uma construção. O percurso é difícil para todos.” O virtuose toca violino, baixo e cavaquinho. “Mas meu instrumento é o bandolim.” Por ser pequeno, sua execução é difícil e exige grande habilidade, a afinação é demorada e efêmera e a literatura é menor que a dedicada ao violino.

Considerado um revolucionário do bandolim, Holanda notabilizou-se ao acrescentar duas cordas ao instrumento tradicionalmente construído com oito. “Há 13 anos fiquei com vontade que ele fosse maior para poder expressar ideias polifônicas. As oito cordas me limitavam. Encomendei ao luthier um bandolim com dez cordas, feito com madeira barata, pois se não ficasse bom não teríamos prejuízo. Mas ficou muito bom.” 

O bandolinista investe no aumento do público de música instrumental. “Quero tocar em lugares onde nunca estive, é uma proposta de minha carreira, abrir portas. Nesta turnê, gostaria de me apresentar ao menos em uma cidade de cada região. O mercado da música instrumental cresce, percebo interesse maior de plateias mais jovens, que querem conhecer e tocar.”

Em giros pela Europa e Estados Unidos, percebe uma curiosidade mais aguçada em relação a músicas consideradas diferentes, um aplauso mais demorado. Por aqui, o sangue ferve. “A vibração no Brasil é mais calorosa, o público fica de pé.”

Se na turnê anterior dividiu os holofotes com Diogo Nogueira no show Bossa Nova, que passou por 12 países, desta vez  sobe ao palco sozinho. Ou quase, pois entabula conversas com a plateia. Em Cuiabá, brincou com o gênero lambadão e arrancou participação animada do público.

O balão de ensaio para este périplo se deu na primeira fase de Pelo Brasil, em 2014, quando fez 12 apresentações abertas em Brasília, Ceilândia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e na fluminense Campos dos Goytacazes. Foi o tempo certo para refinar as propostas de unir imagens e textos e testar a reação do público.

A segunda e definitiva etapa chega com o lançamento de Pelo Brasil, com delícias como Carimbobó, O Jumento e a Capivara, Sambaíba, O Amor é a Canção, A Escola e a Bola, Chama Lá e Frevinho. A programação prevê apresentações até 13 de outubro. Mas os pedidos para estender a temporada têm chegado e o bandolinista não sabe quando será o último show.

Entre as surpresas de Pelo Brasil está o momento em que Holanda compõe uma música ao vivo. Jeito tranquilo, atribui a serenidade criativa a corridas periódicas e ao que galhofeiramente define como “meditação bandolinal”. “No dia do show em Belo Horizonte, achei um passarinho caído no chão e recolhi com cuidado na esperança de que se recupere. No palco, fiz uma valsa inspirada no canto imaginado dele.” As coisas estão no mundo, é só preciso aprender. 

 

* Reportagem publicada originalmente na edição 870 de CartaCapital com o título "...aonde o povo está"