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Número 870,

Política

Opinião

A undécima hora

por Delfim Netto publicado 07/10/2015 03h01
Os votos de rejeição aos vetos da presidenta frustram a sociedade e diminuem a dignidade da atividade política
Ichiro Guerra/PR
Dilma-Rousseff

Ao rejeitar os vetos que Dilma aplicou, o PSDB diminui a dignidade da atividade política

As votações dos deputados nas sessões da Câmara nas últimas semanas foram aulas práticas sobre psicologia humana. Confirmaram a velha tese de Mencken (H.L. Mencken – The Smart Set, 1919): “Ninguém merece ilimitada confiança. Na melhor das hipóteses, a traição depende da tentação suficiente”.

É evidente que o alicerce de sustentação das nossas crenças no comportamento de qualquer grupo político é um fato histórico. A observação do seu passado determina o que esperar dele no presente, pois se supõe que ele seja consequência de princípios e valores que o distinguem e fazem sua diferença específica.

O comportamento da bancada do PSDB que, com uma única exceção, votou pela rejeição dos vetos que Dilma Rousseff aplicou, corajosamente, às maluquices aprovadas pelos deputados, foi uma enorme frustração para a sociedade brasileira e diminuiu a dignidade da atividade política!

A quem atendeu, afinal? À mesma plateia de sempre: uma minoria fortemente organizada instalada em Brasília, que tem arrancado, sistematicamente, privilégios imorais do ponto de vista republicano, pagos pela maioria difusa e impotente. Juntou o cinismo ao seu oportunismo.

O trágico, até as emas do Alvorada sabem, é que se tratava de eleitores do PT, pois ele é o “verdadeiro” sindicato dos funcionários públicos. Na melhor das hipóteses, portanto, os votos foram dados por covardia. Na pior, por um indecente instinto “golpista”.

O custo para o País do comportamento insensato foi enorme. Aumentaram as incertezas, pioraram as expectativas de desemprego, o dólar e os juros foram aos píncaros, o que exigiu forte e competente intervenção da autoridade monetária. Aumentou o chamado “risco Brasil”, perdeu-se o grau de investimento, prosseguiu a destruição do valor das empresas privadas e acentuou-se a descrença nas empresas públicas. Mas tudo isso é passado...

É mais do que evidente que a rejeição desses vetos seria uma tragédia nacional de proporções inimagináveis. Seria a anomia, pois destruiria a crença da sociedade também nos poderes Legislativo e Judiciário.

Será, entretanto, grande o equívoco do Executivo supor que tal resultado é equivalente à sua opinião. A maioria daqueles votos foi para dar-lhe algum tempo para encontrar a melhor saída para o problema financeiro crônico, implícito em alguns dispositivos da Constituição de 1988, e com a qual convivemos de 1988 a 2011.

Ele revelou o seu caráter “estrutural” a partir do exagerado intervencionismo voluntarista do governo, de 2012 a 2014. A maioria deu um aparente voto de confiança à presidente para evitar o mal maior: uma desintegração fiscal que levaria o País ao caos econômico e social.

Mas nada obsta que ela aproveite o novo instante de oportunidade para recuperar o seu protagonismo. Que formule e apresente ao Congresso um programa sério, enxuto e bem focado, apenas quatro ou cinco medidas, certeiras e profundas.

Talvez: 1. Idade mínima para aposentadoria. 2. Eliminação das vinculações, que retiram poder também do Legislativo e destroem a boa governança. 3. Fim dos vestígios de todas as indexações. 4. Envio da proposta da CUT sobre a livre negociação salarial sob o controle dos sindicatos. 5. Remessa do projeto do novo ICMS. E, fundamental, que vá à rua enfrentar o seu panelaço para demonstrar que está apenas reduzindo extravagantes benefícios “conquistados” por minorias organizadas.

Explique que precisa de um aumento provisório de impostos. Use a imaginação para escolhê-los: eles precisam harmonizar o estímulo ao consumo e ao investimento e tornar mais equânime a tributação do trabalho e a do capital, para ter algum tempo até as medidas sugeridas serem, com cuidado e inteligência, aperfeiçoadas no Congresso.

Com isso, deve acender-se uma pequena luz no horizonte. Ajudada pela substituição das importações industriais, e depois pelas exportações, talvez ilumine o “espírito animal” dos empresários, sem o qual o “ajuste” fiscal pode arrastar-se por anos...

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