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Número 870,

Cultura

Quadrinhos

A ilusão revolucionária de William Burroughs

por Rosane Pavam publicado 11/10/2015 05h25
João Pinheiro e a busca filosófica do escritor norte-americano
Burroughs

Equilíbrio gráfico, domínio narrativo, expressão poética e apoio na imagética kafkiana fazem de Burroughs uma pequena-grande história

Um pouco de filosofia talvez ajude a explicar esta pequena-grande história em quadrinhos (Burroughs, Veneta, 128 págs., R$ 39,90) em torno da obra e, portanto, dos tormentos de William Burroughs. Morto em 1997, aos 83 anos, o escritor norte-americano presenciou a aventura beatnik até seu aprofundamento.

Em 1951, matou com um disparo acidental de revólver a esposa Joan, fato que ligou ao verdadeiro início de sua carreira como escritor. Principalmente, e tantas vezes por meio de drogas alucinógenas, procurou, em tudo o que estivesse à margem seu centro, uma realidade superior à oficial, burguesa e consumista, esta com a qual ele não imaginava ser possível compactuar.

A revolução de Burroughs como artista foi a de principalmente destinar à palavra um papel construtor, como se a linguagem criasse tudo o que somos e vemos, e só ela pudesse nos salvar. 

Era seu modo de ver as coisas, apoiado em tempos diversos por filósofos como Richard Rorty, mas negado por artistas populares à moda do cineasta Woody Allen, para quem a realidade ainda seria o único lugar possível onde comer um bom bife. Burroughs teria preferido, ao contrário, conferir ao real o status revolucionário de ilusão.

João Pinheiro, autor de Kerouac, em 2011, pela Devir, e cujo trabalho se viu publicado na Argentina e nos Estados Unidos, sintetizou com inventividade os passos e a busca daquele que às vezes assinava William Lee. Na história em quadrinhos Burroughs, está descrito o modo pelo qual a escrita libertou seu autor.  

Com equilíbrio gráfico, domínio narrativo e expressão poética, esse desenhista brasileiro buscou auxílio na imagética ficcional kafkiana e representou sem temor a grande barata como companheira de reflexão de seu personagem. É ela o ser inconsciente, engrandecido e ambíguo que lhe confidencia a existência de um universo alternativo a ser perseguido, tanto quanto dos meios para controlá-lo. Se a realidade é de quem a vê, os olhos de Pinheiro são muito bons.