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Número 869,

Internacional

Grécia

Tsipras, a vitória do conformismo

por Gianni Carta publicado 28/09/2015 06h27, última modificação 28/09/2015 08h43
O carisma do líder sobrevive, mas quem manda é a Troika
Milos Bicanski/ Getty Images/ AFP
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Weber diria que Tsipras tem "um certo não sei o quê", um dom de nascença

De Paris

Vencedor nas eleições gerais de domingo 20, Alexis Tsipras foi premiado pela sua carismática personalidade. E nada mais. O futuro da Grécia, e mesmo da União Europeia, com um mar de refugiados a bater às portas, é uma incógnita. Os voláteis mercados financeiros, por ora, sorriem. Mas não levam em conta, jamais, o destino da Grécia, e da humanidade. Nunca. Por sua vez, a chanceler alemã, Angela Merkel, rainha da implementação de programas de austeridade na Europa, senhora que evoluiu na República Democrática Alemã, comunista, suspira. Aliviada. Talvez, é claro, por acreditar no livre-mercado, sonho de sua infância, como uma religião. Sua crença, ou Bíblia, parece ser a Troika, formada pelo Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional. O comunismo falhou. No entanto, Merkel também parece não ter aprendido coisa alguma sobre solidariedade.

Tsipras, líder do Syriza, legenda de extrema-esquerda, assinou um acordo, em agosto, segundo o qual aceita drásticos cortes orçamentários e reformas austeras. Objetivo: a Grécia receberá um terceiro resgate de 86 bilhões de euros neste verão (Hemisfério Norte). E continuará, oxalá, na Zona do Euro. Em suma, Tsipras, eleito premier, em janeiro, em campanha contra a austeridade, e vencedor de um referendo, em julho, novamente contra a receita de mais austeridade por parte da Troika, foi reeleito neste mês de setembro – com um programa, acreditem, a favor da austeridade. Ou seja, Tsipras usou outro uniforme: o do bom aluno neoliberal. Mérito seu: o povo o elegeu. O premier radical grego, transformado em centrista, ou vira-casaca, parece ter aprendido a respeitar as regras da União Europeia. Formação em perfeita sintonia com a chamada globalização do planeta. E da senhora Merkel, excelente professora. Tsipras, por sua vez, provou ser um camaleão... Ou não? Deixemos uma análise profunda para psicobiógrafos.

A UE, é óbvio, ficou aliviada com o fato de Tsipras ter conseguido, em setembro, uma vitória similar àquela das eleições gerais, de janeiro último. Tsipras representava a estabilidade política. Mais: Tsipras, sejamos claros, é a personificação da política mundial. O povo confia na personagem, não na política. Mesmo porque o público raramente entende pouco de política. E, quem sabe, Tsipras poderá, em um sonho, realizar algo concreto. De qualquer forma, os gregos o preferem a outros políticos, como a seu adversário-mor, o direitista Evangelos Meimarakis, ex-presidente do Parlamento e líder da Nova Democracia. Tsipras é popular e, de fato, carismático.

No entanto, no momento, é difícil decifrar o eleitorado grego. Os gregos pensam na sua sobrevivência, não em ideologias. O clima não é para festividades. Nada mais natural em época de vacas magras. Desde 2010, a economia grega está em recessão. O Produto Interno Bruto caiu 25% nos últimos cinco anos. Mais: 25% dos gregos não têm emprego. Um terço da população está abaixo da faixa de pobreza. É preciso ir a Atenas para ver o horror. Mendigos por todas as partes. Cachorros abandonados como gatos nos portos. Um economista islandês me disse que, quando fazia seu diário jogging em Atenas, pela manhã, tentava evitar as inúmeras tendas de desabrigados para não acordá-los. 

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Quem se rendeu recebe o abraço do povo e encontra no seu ex-ministro Varoufakis o seu atual mais aguerrido opositor. Créditos: Jean- Paul Pelissier/Reuters/Latinstock

Tsipras fez o que pôde, ao ser eleito, em janeiro. Bom orador, seu projeto antiausteridade o reelegeu, em janeiro. Inspirou outros movimentos antiausteridade no resto da União Europeia. Tsipras, contudo, não cumpriu sequer uma de suas promessas para combater os programas de austeridade impostos pela Troika. Pouco a pouco, deu-se conta (se é que ele já não sabia) de que a UE de Merkel é demasiado poderosa. E, por tabela, esta situação causa tragédias. De fato, na própria Grécia, a Aurora Dourada, legenda de extrema-direita investigada pela morte do rapper Nykos Fyssas, foi a terceira colocada no pleito geral de setembro. Com deputados no Parlamento, a Aurora Dourada, não é diferente de grupos extremistas na Hungria e na França. E extremistas também não escasseiam na Alemanha da senhora Merkel.

Em suma, Alexis Tsipras, 42 anos, líder do partido de extrema-esquerda Syriza, prometia ser o político realmente esquerdista por excelência para mudar o rumo de programas falidos de austeridade como única solução para tirar a Europa da crise econômica. Parecia ser uma revolução capaz, inclusive,  de influenciar a vitória do Podemos na Espanha e, até certo ponto, do britânico Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn, eleito na semana passada. Tsipras, é verdade, ainda tem credibilidade. Em uma época em que o partido político é dominado pela personalidade de seu líder, ele prova ter condições de ficar no topo. Max Weber diria que Tsipras tem um “não sei o quê”, característica com a qual certas pessoas nascem e conquistam a admiração de terceiros. Ele diz, por exemplo, lutar contra o “velho sistema”.  No entanto, a esta altura, até que ponto suas promessas são realizáveis?

Como escreveu no diário britânico The Guardian, Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças de Tsipras, que se opunha realmente ao programa de austeridade da UE na Grécia: “O maior vencedor foi a Troika”. De saída, Tsipras assinou o acordo com a Troika em agosto. Portanto, ele não tem poderes para negociar a dívida grega. Varoufakis lembra que a mídia grega está do lado da direita.

Portanto, como no Brasil, toda a campanha dará credibilidade a projetos neoliberais. Interessa cortar pensões e na área da educação fundamental. O Syriza, legenda que prometia um novo rumo para a Grécia, não parece ser a exceção em relação ao resto da Europa. O novo ministro das Finanças, Euclide Taakaloutus, é esquerdista, mas a favor da UE.Tsipras rapidamente formou o governo e tem maioria para governar. Conta, porém, com uma oposição considerável. Sem levar em conta que 45% dos eleitores em um país, como o Brasil, onde o voto é obrigatório, não foram às urnas. Apatia compreensível, pois nos últimos cinco anos de crise econômica houve cinco eleições. No final, a grande vitória de Tsipras foi contra o Partido Popular, a ala esquerda do Syriza, fora do novo governo. Incluindo seu ex-aliado, o ministro Varoufakis.