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Número 869,

Sociedade

Brasiliana

Rio, 40 graus em clima de guerra

por Chico Alves — publicado 02/10/2015 17h10, última modificação 04/10/2015 10h08
A capital carioca vive um clima de guerra civil: a minoria da zona sul contra os subúrbios
Marcelo Carnaval/Ag. O Globo
Ataque-a-ônibus-no-RJ

Almofadinhas valentões atacam os ônibus

Já foram bem mais cordiais os convites para aproveitar os fins de semana ensolarados na orla carioca. “Tacos de beisebol, soco-inglês, cassetete, porrete, armas de choque, spray de pimenta, tudo será bem chegado, vamos limpar a zona sul”, conclamava um texto publicado no Facebook dias atrás. O tom agressivo predomina desde o domingo 20, quando um grupo de “justiceiros”, moradores de Copacabana, Ipanema e Leblon decidiu reagir a seu modo à interminável sequência de arrastões nas areias.

Contra os jovens, a maioria negros e pobres, que chegam das zonas norte, oeste e Baixada, rapazes marombados da zona sul, quase todos brancos, resolveram aplicar a lei da selva. Cercavam os coletivos em busca de “suspeitos” dos roubos, para retirá-los à força e agredi-los. É a nova modalidade de barbárie aos pés do Cristo Redentor.

A ação fez emergir um surpreendente tsunami de ódio e ganhou apoio imediato de muitos moradores da zona sul. As mensagens mais explícitas surgiram, como de costume, nas redes sociais. “Só há uma solução, nós temos de nos defender e expulsar esses marginais”, escreveu um internauta.

“Creio que muito em breve teremos equipes de moradores fazendo segurança nos bairros”, acrescentou outro. A previsão se concretizou rapidamente: os tais “justiceiros” marcaram para o fim de semana seguinte uma nova investida. Prometeram suar seus corpos malhados em academias caríssimas para atacar quem quer que julguem suspeito de roubos.

Esse clima de radicalização chegou ao ápice depois que a Defensoria Pública conseguiu liminar para impedir a polícia de abordar de maneira ilegal jovens que saem do subúrbio para ir à praia. Com o pretexto de tentar prevenir arrastões, policiais militares passaram a retirar dos ônibus a caminho da zona sul todos os “suspeitos”, mesmo sem qualquer indício ou flagrante. Os “suspeitos” são os de sempre: negros e pardos. 

Polícia-Militar
A PM promete agora tratar todos igualmente. A ver / Crédito: Marcelo Carnaval/Ag. O Globo

Foi exatamente a discriminação que a Justiça decidiu proibir. Defensor da ação para barrar o direito de ir e vir dos garotos pobres, o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, atribuiu à decisão judicial o caos do fim de semana. “A polícia é constrangida. Se ela atua, abusou de poder. Se não atua, prevaricou.” Autora da liminar acatada pela Justiça, a defensora Eufrásia das Virgens discorda: “Essa decisão não cria qualquer impedimento à atuação policial. Apenas reforça o que está na lei”.

Integrante do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o sociólogo Ignacio Cano se diz preocupado com a postura do secretário. “Quando ele contesta essa decisão judicial, admite uma das duas hipóteses: ou a polícia não consegue fazer prevenção dentro da lei, ou só consegue prevenir quando é de forma ilegal.”

Presidente da Associação de Moradores do Morro do Gambá, uma das comunidades da zona norte de onde saem centenas de jovens nos fins de semana em busca de lazer nas praias, Adaílton Silva não nega o grave problema da violência, mas ressalva: “Precisamos investir mais nessa garotada, a evasão escolar é muito grande aqui”.

Ele critica a abordagem policial. “Por que moradores da zona sul que fazem bagunça não são tratados da mesma forma? Quando a polícia aborda assim os jovens saídos das comunidades, indiretamente avaliza a ação dos ‘justiceiros’, que tratam a todos os que saem do subúrbio como bandidos.”

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Beltrame defende a política de segregação / Crédito: Marcelo Camargo/ABr

A ação dos brigões da zona sul, apresentados ao Brasil pela mídia nesse episódio, era ensaiada há muito tempo. Desde o ano passado, quando muitos arrastões aconteceram durante o verão, jovens anunciavam a intenção de reagir violentamente contra aquele considerados “invasores”.

A estreia do grupo de forma tão organizada se deu no sábado à tarde, quando ônibus foram parados na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No dia seguinte, um vídeo com a agressão de ao menos dez “pessoas de bem” a um dos jovens retirados do ônibus foi assistido centenas de vezes na tevê e na internet.

Com a violência à flor da pele, muitos cariocas tomaram a decisão de não ir às praias nos próximos fins de semana, apesar de a temperatura ter ultrapassado a marca dos 30 graus. Silva, o líder comunitário, teme que o confronto entre jovens da zona sul e do subúrbio descambe para uma “guerra civil”.

Cano espera que a escalada de ódio seja contida. Cobrado, Beltrame anunciou que a polícia vai agir com rigor para dar segurança aos banhistas e evitar linchamentos. Espera-se que as forças de segurança tenham em mente um princípio elementar da democracia: a lei vale para todos.