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Número 869,

Cultura

Belle Époque

O outro Proust

por Nirlando Beirão publicado 02/10/2015 17h58
Um cronista frívolo, deslumbrado com as cintilações mundanas da belle époque
LEEMAGE/AFP
Marcel-Proust

O escritor, antes da fama (1900): a asma era a redoma

Aquele que disputa, com superior dignidade, a primazia de romance-símbolo do século XX, peregrinou de mesa em mesa dos editores antes de ter a publicação de seu primeiro volume bancada pelo próprio e resignado autor. André Gide, a éminence grise da literatura francesa da belle époque, nem sequer folheou o manuscrito de quase 700 páginas que lhe chegou às mãos, descartando sumariamente os argumentos de um amigo em comum: “Não é aquele que escreve artigos no Le Figaro? Um amador!”

De fato, custou caro a Marcel Proust desvincular-se do cronista mundano dos salons nobiliárquicos, o da princesa Mathilde, os pátios de lilases e do ateliê de rosas de Madame Madeleine Lemaire, os saraus musicais da princesa de Polignac, as digressões pseudofilosóficas chez condessa d’Haussonville, os fricotes artísticos sob o patrocínio da condessa de Guerne – enfim, distinguir o narrador condescendente, deslumbrado com o frufru da alta-roda parisiense, do magnífico autor de um futuro roman fleuve de sete volumes capaz de escarafunchar, por debaixo do verniz superficial dessa mesma nobreza de sangue ou de dinheiro, a densidade psicológica e as contradições profundas inerentes à condição humana. 

Sim, Proust foi jornalista, com espaço reservado no diário Le Figaro, eventualmente na Revue d’Art Dramatique e na Revue Blanche, e também na efêmera  Le Mensuel. Assim como Machado de Assis aqui no Brasil, cujos textos para a imprensa o Bruxo do Cosme Velho desdenhava como ofício de um “triste escriba de coisas miúdas”, Proust não se orgulhava exatamente daquilo que publicava em jornais e revistas para salvar uns trocadinhos, tanto que frequentemente se amoitava em pseudônimos (femininos, como “Dominique”, ou de sonoridades latinas, tipo “Horatio” ou “Echo”).

André-Gide
Gide, que o descartou: “Aquele do Figaro? Não passa de um amador” . Créditos: AFP

Mas percorrer essas 21 crônicas selecionadas em Salões de Paris (Editora Carambaia, apresentação de Guilherme Ignácio da Silva, 208 págs., R$ 75,90) é tomar contato com um redator que começava a exercitar sua musculatura literária, em aquecimento ainda prematuro, é verdade, antes de subir ao patamar da obra-prima que seria À La Recherche du Temps Perdu (em português,  Em Busca do Tempo Perdido).

 Walter Benjamin irritou-se com aquela postura de bajulador (flatteur) do Proust de jornal, “incansável no adestramento necessário para circular nos círculos feudais”. De fato, o jovem cronista, originário de uma burguesia enriquecida, orgulhava-se de ser acolhido entre os de bom pedigree, de ter reconhecido seu talento promissor de dândi e causeur, no regaço feérico e elegante de um grand monde sempre imune às turbulências da realidade exterior. 

Contradição: de um jornalista se haveria de esperar, em princípio, certa inquietação com a conjuntura política e social, haja vista que Proust, que nasceu menos de dois meses depois de a Comuna de Paris ser trucidada a ferro e fogo, foi contemporâneo, por exemplo, do escândalo da construção do Canal do Panamá, por Ferdinand de Lesseps, e do affair Dreyfus, o intrincado julgamento de um oficial acusado de espionagem para os alemães – erro judicial carregado de falsos testemunhos e de antissemitismo que dividiu a França em duas facções alimentadas a ódio.

Capitão-Dreyfus
O capitão Dreyfus, em 1900, depois da remissão. Créditos: AFP

E mais ainda: do rumoroso roubo da Mona Lisa no Louvre, em 1912, e do eclodir da carnificina que seria a Primeira Guerra Mundial. Mas nada disso frequentou os artigos do jornalista nem iria frequentar, a não ser como vagos espectros subentendidos, a sua futura obra-prima. 

 O Proust do Le Figaro, enfatiotado em luvas brancas, peliças com golas de pele, polainas imaculadas e bengala com castão de ouro, esmerava-se no culto aos brilharecos de salão e à frivolidade dos costumes, seduzido que estava pelas descrições em minúcias, e abertamente embevecidas, das recepções, dos banquetes, das fêtes galantes, do décor, das indumentárias, da prataria, da criadagem. Nisso precedeu a superficialidade fútil dos colunistas sociais de agora – com a importante ressalva de que aquele Proust, mesmo o do pré-romance, já sabia dominar o vernáculo.

Seja como for, um Ibrahim Sued nunca chegaria aos pés de Marcel Proust, ainda que gostasse de citá-lo, e as soirées do Country carioca, mesmo as mais habillées, se sentiriam humilhadas diante dos bals masqués da condessa Greffulhe – travestida, na Recherche, em “princesa de Guermantes”. 

De todo modo, Gide tinha alguma razão ao desprezar o estilo nada brilhante de um croniquer que, ao retratar seu amigo, o príncipe Antonie Bibesco, deixava-se levar pelo entusiasmo de “um aspecto mitológico” que “lembra Aquiles ou Teseu”. 

A mitologia comparece igualmente na descrição do jardinzinho da princesa Potocka: “Jamais uma área de iniciação fora mais fecunda para se percorrer antes de se aproximar de uma deusa”. Ganha foro de monumentalidade o mero monóculo de um dos convidados da princesa Mathilde, monóculo que passeia pelas páginas da Revue Britannique “em uma posição inabalável, testemunhando naquele que o usa a firme vontade de tomar conhecimento de um artigo antes que a festa comece?” 

Les-Ballets-Russes
Les Ballets Russes: todo mundo se escandalizou, mas o cronista passou batido. Créditos: AFP

A redoma que protegia Proust da realidade mais incômoda, a dos jogos do poder e a das notícias da rua, blindava uma misantropia quase fóbica, que se escondia atrás da escusa de sua natureza enfermiça e de suas intermitentes crises de asma. Tão introvertido era nosso escriba que o recinto solitário de seu quarto no Boulevard Haussmann era forrado de cortiça – para escudá-lo do som da rua.

Nem mesmo das cintilações trepidantes de uma ilusória belle époque pôde o cronista-escritor se aproveitar, daquela boemia regada a absinto (a “fada verde” dos poetas e pintores), da ferveção dos cafés-concertos e dos music halls, da alucinação do cancã, da sedução das melindrosas – nunca se viu o reservado Proust no cenário das noitadas plebeias tipicamente retratadas por Toulouse-Lautrec. Numa época de transformações vertiginosas, iluminadas real e simbolicamente pela novidade chamada électricité, Proust protegia-se no escuro de sua alcova. Fugia, ensimesmado, de um estilo de vida que – a definição é dele – exigia mais nervos do que músculos.

Toulouse-Lautrec
Cancã "fada verde"no Moulin Rouge (Toulouse-Lautrec, 1890). Créditos: AFP

Seria muito esperar que Proust se aventurasse por uma experiência estética e arrebatadora como aquela estreia, a 29 de maio de 1913, no Théâtre des Champs-Élysées, do Sacre du Printemps, de Igor Stravinski, protagonizado por Vaslav Nijinski à frente dos Ballets Russes do exuberante  Serguei Diaghilev – um espetáculo de atmosfera provocativamente pagã que dividiu a plateia entre júbilo e vaias (o estardalhaço que a Semana de Arte Moderna provocaria na São Paulo provinciana de 1922 nem de longe se compara ao que se testemunhou em Paris naquela noite).

Os amigos do escritor ficaram, no entanto, atônitos ao surpreendê-lo, a ele que tanto pânico tinha de multidões, na excitada plateia do concorrido julgamento de Marguerite Steinheil, para a imprensa Meg, acusada pela morte da mãe e do marido. Tratava-se de um desses crimes do qual irradiava um inconfundível glamour social, uma vez que Meg, ainda que casada, administrava um belo cartel de amantes ilustres.

Um deles ninguém menos que o presidente da República, Félix Faure, o qual, comentava-se em surdina, morrera em 1899 “em meio a estertores de paixão tão intensos que foi quase impossível tirar seus dedos presos aos cabelos da jovem nua”. Ou seja, da fogosa Meg. Do tribunal presenciado por Proust, a cortesã saiu absolvida.

Salão-Musical
Salon musical, fin du siécle: uma congestão de sobrenomes brazonados. Créditos: AFP

 Participou também daquele que foi certamente o jantar de maior iluminação intelectual de todo o século XX, em 18 de maio de 1922, no Hotel Majestic, em Paris. Na distinta vizinhança do 16ème arrondissement, não distante do Arco do Triunfo. Ambiente de veludos e tafetás, tapetes persas e toalhas de linho. Os convivas: um punhado de gênios atormentados e reticentes que jamais se cruzariam novamente na mesma mesa.

E francamente amorais, como recomendava a vanguarda (“a moralidade é a invenção dos feios”). Eram eles: com seu bigodinho aparado, o empresário do show biz  Serge Diaghilev; com seus óculos de aro, o compositor Igor Stravinski, parceiro de Diaghilev nas heresias polifônicas dos Ballets Russes; e o energético Pablo Picasso. Anfitrionava o jantar e a ilustre mesa Sydney Schiff, escritor inglês, e a mulher dele, Violet. 

James-Joyce
Joyce: mudo e bêbado,no improvável encontro do Hotel Majestic. Créditos: AFP

Já estavam no café quando se achegou ao grupo elegantemente enfarpelado “um homem malvestido, confuso e trôpego”, que não comeu, sentou-se diante de uma taça de champanhe e ali ficou, sem falar. Era James Joyce. Entre 2 e 3 da manhã, como um espectro da madrugada, apareceu, de surpresa, uma figura pequena e bem-posta, “vestida de magnífico preto e com luvas brancas de pelica” (reconstruiu o historiador Richard Davenport-Hines).

Era ele, o retardatário janota: Marcel Proust. Um encontro único. Paradoxalmente lacônico – num recinto ocupado por dois dos maiores lapidadores de palavras da belle époque.  Talvez, naquele estrépito de glamour e mondanité, a arte maior tivesse de ser mesmo o silêncio.

Proust morreria seis meses depois. Num resgate afetuoso do cronista que precedeu o romancista, há críticos que ainda se perguntam: o que é Em Busca do Tempo Perdido se não a descrição profunda de um mundo profundamente frívolo, uma história fin de siècle do fin de siècle, a sagração profana do mundanismo? “Um narrador que busca recuperar e compreender sentimentos e experiências, figuras e vidas passadas, perdidos para o tempo”, sintetizou um deles, “num livro que forneça um elo entre o presente e o passado”. As lembranças se apagam, mas a literatura que as registra, como a de Proust, terá sempre o mérito de sobreviver.