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Número 868,

Internacional

The Observer

A culpa das potências ocidentais na Síria

por The Observer — publicado 29/09/2015 06h24
Como o Ocidente poderia ter evitado milhares de mortes no país árabe
UNRWA 30/01/2014
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Mais de 11 milhões de sírios foram obrigados a deixar suas casas.

Por Julian Borger e Bastien Inzaurralde

A Rússia propôs há mais de três anos a renúncia do presidente da Síria, Bashar al-Assad, como parte de um acordo de paz. Segundo o ex-presidente da Finlândia Martti Ahtisaari, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, as potências ocidentais deixaram de aproveitar a proposta. Desde aquele momento, em 2012, dezenas de milhares de civis foram mortos e milhões, desalojados, o que causou a mais grave crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.

Ahtisaari teve encontros com enviados dos cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança da ONU em fevereiro de 2012. Durante as conversas, afirma, o embaixador russo Vitaly Churkin apresentou um plano de três pontos que incluía uma proposta para Al-Assad deixar o poder em algum momento depois de iniciadas as negociações de paz entre o regime e a oposição. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França estariam, no entanto, tão convencidos de que o ditador sírio estava prestes a cair que ignoraram a proposta.

Oficialmente, a Rússia apoiou Al-Assad com firmeza durante os quatro anos e meio de guerra na Síria. O presidente sírio disse que a Rússia nunca o abandonará. Moscou começou recentemente a enviar tropas, tanques e aviões em um esforço para estabilizar o regime do aliado e a combater os extremistas do Estado Islâmico.

Ahtisaari ganhou o Prêmio Nobel em 2008 “por seus esforços em vários continentes e durante mais de três décadas para resolver conflitos internacionais”, entre outros, na Namíbia, Indonésia, Kosovo e Iraque. Em 22 de fevereiro de 2012 ele foi enviado para se reunir com as missões dos cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança (EUA, Rússia, Reino Unido, França e China) na sede da ONU em Nova York, pelos Anciães, um grupo de antigos líderes mundiais que defendem a paz e os direitos humanos e que teve em seus quadros Nelson Mandela, Jimmy Carter e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan.

“O mais intrigante foi a reunião que eu tive com Vitaly Churkin, pois eu conheço esse homem”, lembrou Ahtisaari. “Não concordamos necessariamente em muitas questões, mas podemos conversar amigavelmente. Expliquei o que eu estava fazendo lá, e ele disse: ‘Martti, sente-se e eu lhe direi o que devemos fazer’ ”.

“Ele disse três coisas. Uma: não deveríamos dar armas à oposição. Duas: deveríamos conseguir um diálogo entre a oposição e Al-Assad imediatamente. Três: deveríamos encontrar uma maneira elegante de Assad deixar o governo.”

Churkin não quis comentar o que, segundo ele, tinha sido uma “conversa privada” com Ahtisaari. O ex-presidente finlandês foi, porém, incisivo sobre a natureza da conversa.

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Quem narra os fatos é Ahtissari, Nobel da Paz. Créditos: Sergei Karpukhin/ AFP

Não houve questão porque eu voltei e perguntei a ele uma segunda vez”, disse ele, ao notar que Churkin tinha acabado de voltar de uma viagem a Moscou e parecia haver pouca dúvida sobre a origem da proposta, o Kremlin.

Ahtisaari disse ter transmitido a mensagem às missões americana, britânica e francesa na ONU, mas disse: “Nada aconteceu porque eu acho que todos esses, e muitos outros, estavam convencidos de que Assad seria derrubado do cargo em algumas semanas, por isso não havia necessidade de fazer nada”.

Enquanto Ahtisaari ainda estava em Nova York, Annan tornou-se enviado especial para a Síria da ONU e da Liga Árabe. Ahtisaari disse: “Kofi foi obrigado a assumir a tarefa como representante especial. Eu digo obrigado, pois não acho que ele estivesse especialmente ansioso por isso. Ele viu muito rapidamente que ninguém apoiava nada”.

Em junho de 2012 Annan presidiu negociações internacionais em Genebra, que concordaram com um plano de paz segundo o qual um governo de transição seria formado por “consenso mútuo” entre o regime e a oposição. Entretanto, o plano logo se desfez por causa de diferenças sobre se Al-Assad deveria sair. Annan renunciou como enviado pouco mais de um mês depois e o destino pessoal de Al-Assad foi o principal empecilho a todas as iniciativas de paz desde então.

Diplomatas ocidentais na ONU se recusaram a falar abertamente sobre a afirmação de Ahtisaari, mas indicaram que depois de um ano de conflito na Síria as forças de Al-Assad haviam efetuado diversos massacres, e os principais grupos de oposição se recusavam a aceitar uma proposta que o mantivesse no poder. Alguns dias depois da visita de Ahtisaari a Nova York, Hillary Clinton, então secretária de Estado dos EUA, chamou o líder sírio de criminoso de guerra.

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O Ocidente acreditava ser capaz de derrubar Assad sem Putin. Créditos: Aleksey Nikolskyi/ Ria Novostia/ AFP

Um diplomata europeu baseado na região em 2012 lembrou: “Na época, o Ocidente estava fixado na saída de Assad. Como se isso fosse o início e o fim da estratégia e então tudo o mais se encaixaria... A Rússia afirmou constantemente não se tratar de Assad, mas sinceramente eles queriam a falar a respeito.” 

O diplomata acrescenta: “Duvido muito que EUA, Reino Unido e França se recusaram ou rejeitaram qualquer oferta estratégica na época. As questões tinham mais a ver com sequenciamento, o início ou fim do processo, e com a capacidade da Rússia de entregar, fazer Al-Assad se demitir”.

Na época da visita de Ahtisaari a Nova York, o número de mortos no conflito sírio era estimado em cerca de 7,5 mil. A ONU acredita que esse número passou de 220 mil no início deste ano e continua a subir. O caos levou à ascensão do Estado Islâmico. Mais de 11 milhões de sírios foram obrigados a deixar suas casas.

“Devíamos ter evitado, pois é um desastre causado por nós mesmos, esse fluxo de refugiados para nossos países na Europa”, disse Ahtisaari. “Não vejo outra opção além de cuidar bem dessas pobres pessoas... Pagamos a conta do que nós mesmos causamos.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 868 de CartaCapital, com o título "Inocentes no altar"