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Número 868,

Internacional

Reino Unido

Corbyn, a reviravolta

por Gianni Carta publicado 21/09/2015 06h23
A nova liderança do Partido Trabalhista coloca um fim na Terceira Via de Tony Blair, a saber o pseudoesquerdismo neoliberal britânico
Peter Dejong/AP
Jeremy-Corbyn

Vegetariano. Abstêmio. Não anda de carro, só de bicicleta. Interessado no destino da América Latina

eleição do deputado Jeremy Corbyn, “O Vermelho”, à liderança do Partido Trabalhista no sábado 12 teve o efeito de uma explosão no tablado político do Reino Unido. O estouro já reverbera também no Velho Continente. E mundo afora. De saída, Londres, e sua praça financeira, a City, é a capital do neoliberalismo europeu. E uma das principais forças motrizes da chamada globalização. Ademais, Corbyn, deputado de 66 anos de Islington North, em Londres, acredita em socialismo democrático. Por tabela, o novo líder trabalhista, jamais em um cargo ministerial, é contra programas econômicos de austeridade.

Qual será o rumo do Partido Trabalhista, ou Labour Party, que o ex-premier Tony Blair, ao assumir a liderança da legenda em 1994, empurrou para o centro-direita ao sabor de um eufemismo chamado Terceira Via, ao assumir a liderança da legenda em 1994? Ainda haverá sessões parlamentares em que fica difícil distinguir quem é labour e quem é tory? As próximas eleições gerais só acontecerão em 2020. No entanto, desde já percebe-se que a política britânica atravessa uma transição. O debate será no mínimo intenso.

Alguns costumes não mudam, ainda mais no tradicional Reino Unido. Como dita a diplomacia, o premier conservador David Cameron telefonou para o pacifista Corbyn para felicitá-lo. No entanto, e eis outro hábito político, o ministro da Defesa, Michael Fallon, parece ter transmitido o recado oficial de Cameron ao público: “O Partido Trabalhista será agora um sério risco para a segurança da nossa nação, a segurança da nossa economia, e a segurança de suas famílias”. Palavras semelhantes àquelas de um Pinochet, com o detalhe de o Reino Unido ser uma monarquia constitucional parlamentar. Digressão necessária: a ex-premier Margaret Thatcher era muito próxima do ditador chileno.

Tony-Blair
Blair foi líder com 57% dos votos. Corbyn, com 60% / Crédito: Peter Nicholls/Reuters/Latinstock
Jornalões direitistas, ditos de qualidade, mas quase todos dotados da verve de tabloides sensacionalistas, especialidade britânica, seguiram a mesma linha de caça às bruxas. E até canais de televisão ditos “factuais”, como a BBC, foram atrás de respostas saborosas que Corbyn poderia oferecer. Para esses repórteres, motivos para ir atrás do líder trabalhista não escasseiam. Trata-se de um homem diferente do arquétipo do político britânico, nas últimas décadas semelhante ao banqueiro.

Por exemplo, em vez de um terno risca de giz, Corbyn usa paletós surrados. Evita gravatas. É modesto. O ex-sindicalista e atual deputado, desde 1983, não tem a postura de quem estudou em Oxford ou Cambridge, como por exemplo, Cameron. Suas ideias também contrastam com as dos colegas da ala direita do Labour. Além de se ter oposto à invasão do Iraque em 2003, o socialista Corbyn usa barba desde os 19 anos. A barba era vermelha, antes de se tornar branca, donde o apelido com duplo sentido: “O Vermelho”.

Corbyn é republicano: organizou uma visita do líder separatista norte-irlandês Gerry Adams, do Sinn Fein, ao Parlamento, em Westminster, em 1983. Ele crê em uma Irlanda unida. Pretende abolir a monarquia. Mais: lutará por uma União Europeia social, não neoliberal. Faz campanha contra a ocupação de Gaza. Para chegar a acordos, diz Corbyn, ele dialoga com grupos como o Hamas e o Hezbollah. É a favor do desarmamento nuclear. Contra a Otan. Mantém certa distância de Washington. Defende os direitos LGBT. Tenciona acolher refugiados. Evita a mídia oficial, que considera superestimada. Inclusive a BBC.

Prefere o contato humano e as redes sociais. Vegetariano. Não toma álcool. Meio de transporte: bicicleta. Não tem automóvel. Casou-se três vezes: as duas últimas mulheres são latino-americanas, a segunda chilena e a terceira, com a qual permanece unido, mexicana. Donde o seu fluente espanhol e o interesse pelos países latino-americanos.   

Segundo o Daily Telegraph, Corbyn seria um Fidel Castro londrino. Uma editora da BBC não conseguiu obter, a despeito de sua insistência, certas respostas de Corbyn. Por exemplo, um dos atos tradicionais, ao assumir o posto de premier, é o de se ajoelhar diante da rainha. “O senhor se ajoelhará diante da rainha?” A resposta, no início, foi a mesma: “Eu não sabia que era preciso”. A certa altura, Corbyn retrucou: “Vou falar com meus colegas e veremos como agirei”. Eis outra questão da editora da BBC: por que Corbyn não entoou o hino nacional (God Save the Queen) em um recente evento? Corbyn mudou de assunto. 

Por sua vez, o Times fala em “guerra civil” no seio do Partido Trabalhista. Guerra civil seria exagero. Corbyn logo formou um governo “sombra”, como se diz no Reino Unido, com ministros “sombra” para debater as pautas entregues aos ministros de Cameron. Por exemplo, o ministro sombra das Finanças, segundo maior posto na hierarquia do gabinete, coube a John McDonnell, comparado ao ex-ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis. McDonnell quer aumentar a alíquota fiscal para os mais endinheirados de 45% a 60%, uma medida para evitar mais austeridade. A dupla Corbyn-McDonnell tem sido comparada a Alex Tsipras-Varoufakis, do Syriza. Detalhe importante: Corbyn e McDonnell se entendem muito bem.

De todo modo, como disse o Times, houve, de fato, reações pouco receptivas à vitória de Corbyn por parte de trabalhistas de renome.  Por exemplo, o ex-ministro David Blunkett disse estar “profundamente temeroso” quanto à direção que Corbyn tomará. O perigo, emendou Blunkett, é o Labour continuar na oposição. Já perdeu as duas últimas eleições gerais. Mas sob Blair venceu, a partir de 1997 três legislativas consecutivas. Outro ex-ministro, Peter Mandelson, escreveu no The Sunday Times: “Estamos voltando para aquela esquerda dos anos 80”. Em um artigo no The Guardian intitulado “O blairismo está morto e enterrado”, Len McCluskey, secretário-geral do sindicato Unite, retruca que remeter a vitória de Corbyn aos anos 80 “é um equívoco”. 

Para começar, os tempos são outros e idem o eleitorado. Se em 1994 Tony Blair obteve 57% dos votos para liderar o seu New Labour, desta feita Jeremy Corbyn, tido como um obscuro deputado rebelde (votou mais de 500 vezes contra legislações propostas pelo Labour), angariou 250 mil votos, ou 60% dos eleitores. A maioria dos eleitores era de jovens. Houve, é claro, o apoio de sindicalistas, militantes e idosos. Evoca McCluskey a Guerra do Iraque e a crise econômica de 2008, “causada pelos banqueiros e instituições da City” apoiadas pelo New Labour.

Escreve o sindicalista: “Tornou-se quase democraticamente inadmissível apresentar ideias que possam ser obstáculos para o livre-mercado, a desregulamentação, mais privatizações e o consenso da austeridade”. Para McCluskey, votaram em Corbyn aqueles que não entendem por que os menos favorecidos devem pagar pelos erros dos banqueiros. Eles acreditam em uma distribuição de renda e em uma economia menos dependente dos serviços financeiros. Como diz Corbyn, austeridade não é o único meio para combater a crise econômica.