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Número 867,

Cultura

Papinho Gourmet

Tapa na branca

por Márcio Alemão publicado 22/09/2015 06h25
Entre o linguajar e a cachaça, o artesanato.
Prefeitura de Salinas
cachaça-paipinho

O que você precisa saber é o seguinte: o Dr. Eduardo é o maior colecionador de cachaças do mundo.

-André, tá vendo aquele mais que distinto senhor saindo do Bentley?

– E quem não tá? Com um carro desses pelas ruas da cidade, o que o camarada não deseja é passar despercebido, certo?

– O que ele deseja fora desse restaurante não me interessa minimamente. O que você precisa saber é o seguinte: o Dr. Eduardo é o maior colecionador de cachaças do mundo. 

– Só coleciona ou manda uns tapas na cana?

– Eu gostaria que você melhorasse o seu vocabulário. Este é um restaurante aclamado pela crítica e festejado pelo público classe AAA.

– Eu melhoro desde que você me conte se o Dudu abraça o canavial e manda pera na “marvada” ou fica só olhando.

– Ele aprecia.

– Entendi. Cai de boca na branca.

– Continuo não gostando do seu linguajar.

– Fica frio que esse lero eu tô levando só consigo. Com o Dudu eu serei até quase parnasiano. Invocarei as musas para conseguir descrever a cachoeira de aromas e sabores que sinto e que me fazem a alma saltitar de júbilo sincero quando provo o nobre destilado de cana sei lá qual.

– Perfeito. Assim está perfeito.

– E quanto é que eu levo?

– Como assim? Que conversa é essa?

– Vamos combinar o seguinte: vossa sem-vergonhice andou comprando um monte de pingas de quinta categoria feitas no quintal de um monte de mané, que eu vi e provei.

– Que absurdo! Que ofensa! Todas são cachaças artesanais e orgânicas.

– Vamos esclarecer definitivamente o maior e o mais espetacular equívoco desses novos tempos gourmet: ARTESANAL NÃO É SINÔNIMO DE QUALIDADE. Tem muito artesão ruim, péssimo, tentando e conseguindo pegar trouxa no mundo inteiro. Manezinho que faz abajur com casco de garrafa de cerveja, cinzeiro com latinha reciclada, vaso com garrafa PET... faz favor, meu caro! Que tristeza infinita é o mundo artesanal. No tempo em que faziam catedrais o artesão tinha um valor. Hoje estão na esquina da Paulista com a Augusta; no Embu das Artes. E muitos, é fato, estão produzindo cervejas e cachaças.

 – Temos várias e excelentes, meu caro André. E você como sommelier da casa deveria saber!

– Excelentes sob o ponto de vista do lucro. Tartufo bianco tem um custo-benefício infinitamente melhor que a cerveja artesanal. E até acredito que o lucro do tartufo seja menor.

– Muito bem, você entendeu tudo: artesanal e orgânico. Duas palavrinhas que fizeram meu lucro aumentar 50%. Se presta, se é um engodo, se serve apenas pra pegar trouxa, como dizem os americanos, I don’t care. O que eu quero: trate bem o Dr. Eduardo.

Dr. Eduardo e seguranças adentram o recinto. Jair, o dono, o conduz até a mesa reservadíssima e apresenta André, o novo sommelier, que também se apresenta.

– E aí, Dudu? Vamu cair de boca na branquinha artesanal e vestir a pantufinha de jaca?