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Número 867,

Internacional

Oriente Médio

Na Síria, só vimos o começo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 18/09/2015 06h25
Ruim com Assad, pior sem ele: avanço do Estado Islâmico pode dobrar o número de refugiados no exterior
Yasin Akgul/ AFP
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A destruição do País pôs 4 milhões em fuga

Depois de mais de quatro anos de guerra civil, o governo de Bashar al-Assad dá mostras de perder fôlego. Na quarta-feira 9, a Frente Al- -Nusra, Al-Qaeda na Síria, tomou a última base militar do governo na província de Idlib. Depois de consolidar o controle da histórica Palmira, executar seus arqueólogos e dinamitar seus tesouros arqueológicos, o Estado Islâmico invadiu nas vizinhanças, em 6 de setembro, o último campo de petróleo controlado pelo governo de Damasco. No mesmo dia, também tomou a cidade cristã de Qaryatain, na província de Homs. Com isso, além de pôr habitantes em fuga e destruir um monastério de 1,5 mil anos, posicionou-se a menos de 35 quilômetros da estrada que liga a capital ao norte e oeste (litoral) do país. Se esta for cortada, será difícil conter o colapso do regime. É o que os EUA e seus aliados desejavam desde 2011. Mas, como prevenira Oscar Wilde, quando os deuses querem nos punir, respondem às nossas preces.

“A maioria dos refugiados sai da Síria por causa de Assad e não do Estado Islâmico, ele é o problema”, insistem analistas ouvidos pelo Ocidente. É uma meia verdade: muitos dos 4 milhões de sírios hoje refugiados no exterior, na maioria em acampamentos no Líbano, Jordânia e Turquia, fugiram de áreas bombardeadas por Assad no combate aos rebeldes. Mas os pais de Aylan Kurdi, o menino afogado na costa turca, eram curdos de Kobane, cidade do norte da Síria sitiada e semidestruída pelas forças de Al-Baghdadi e vários entrevistados por jornalistas no périplo das ilhas gregas à Alemanha fogem de Raqqa, a capital do Estado Islâmico. 

Se os refugiados do Estado Islâmico ainda não são a regra, passarão a sê-lo se Assad capitular e os 17 milhões nas áreas ainda relativamente seguras hoje controladas pelo governo ficarem à mercê dos fundamentalistas. Os 2,6 milhões de alauítas, 2 milhões de cristãos e 650 mil drusos não podem esperar clemência dos militantes de Al-Baghdadi e Al-Zawahiri. Nem sequer os 2,2 milhões de curdos sunitas, mas associados à resistência laica (e em boa parte marxista) da guerrilha, muito menos os milhões de árabes sunitas que apoiaram o governo de Damasco. Se isso acontecer, a Europa e os países vizinhos podem contar um êxodo de refugiados no mínimo dobrado e desistir de qualquer expectativa de vê-los retornar à pátria. A não ser os sunitas que, rejeitados pela sociedade ocidental, se vinguem alistando-se entre os jihadistas.

Quando o Ocidente decidiu tirar proveito da Primavera Árabe para depor Assad, visava, em benefício da Otan e de Israel, privar a Rússia de suas bases no Mediterrâneo, anular a influência do Irã no Oriente Médio e isolar o Hezbollah. Encorajaram o levante e o fornecimento de dinheiro e armas aos rebeldes fundamentalistas pelas monarquias árabes. Teriam desembarcado na Síria em 2013 se Moscou não respaldasse com sua Marinha o veto à tentativa de repetir o roteiro da Líbia e organizasse o desmantelamento das armas químicas, pretexto para o plano de intervenção. A obsessão com Assad levou o Pentágono a superestimar os “rebeldes moderados”, empresários e políticos com pouca disposição de arriscar a pele, e fechar os olhos à ascensão dos fundamentalistas, inicialmente a Al-Nusra e depois o Estado Islâmico, hoje no controle da metade da Síria e de um terço do Iraque. No fim de agosto, o inspetor-geral do Pentágono investigava a suspeita de que os militares do CentCom, o comando dos EUA no Oriente Médio, distorceram os relatórios para sustentar sua agenda e pintar a falsa  imagem de um Estado Islâmico frágil e à beira da derrota. 

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A obsessão com Assad levou o Pentágono a superestimar os "rebeldes modernos". Créditos: Ho/ Sana/ AFP

Os bombardeios pelos EUA e aliados, repetidos desde agosto de 2014, não contiveram os fundamentalistas e ampliá-los é a única proposta de François Hollande e David Cameron. A Turquia, embora tenha oficialmente se unido à luta contra o Estado Islâmico, parece mais interessada em usá-la como pretexto para bombardear os rebeldes curdos, vistos como ameaça à sua integridade territorial. Sua proposta de ocupar uma “zona tampão” na Síria, supostamente para abrigar refugiados, também parece priorizar o controle dos curdos.

Enquanto isso, na segunda-feira 7, a Bulgária fechou seu espaço aéreo a aviões russos destinados à Síria e a Grécia disse ter recebido e indeferido solicitação de Washington para fazer o mesmo. Faz pouco sentido, pois a ajuda militar de Moscou a Damasco nunca foi segredo e continua a chegar pelo mar, assim como pelo Cáucaso, Irã e Turquia. A ação dos EUA ao denunciar o fornecimento de mais aviões, tanques e armas e a presença de assessores russos na guerra parece mais uma forma de pressionar Vladimir Putin a negociar a renúncia de Assad. 

Um governo de transição com partilha de poder entre parte dos rebeldes e o governo Assad foi sugerida pela Rússia, enquanto os ocidentais e seus protegidos insistem na renúncia prévia do líder sírio. Moscou resistirá a qualquer arranjo que não contemple seus interesses, assim como Teerã. Barack Obama superou a oposição israelense e republicana, conseguiu um acordo nuclear com o Irã e parece ter o apoio da Arábia Saudita e de um número de senadores suficiente para evitar sua rejeição no Congresso, mas o aiatolá Khamenei avisou não se dispor a mais negociações com Washington. O recado, aparentemente, é que não abandonará Assad e o Hezbollah. O acordo que poderia deter o agravamento da tragédia síria continua tão distante quanto antes. Enquanto todos os lados continuarem a priorizar seus jogos estratégicos sobre a vida dos sírios, a única dúvida é quão rapidamente as coisas vão piorar. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 867 de CartaCapital, com o título "Só vimos o começo"