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Número 867,

Política

Rosa dos Ventos

O discurso da culpa

por Mauricio Dias publicado 15/09/2015 12h08
Presidenta Dilma Rousseff: não fale em erros para justificar o ataque aos avanços sociais
Alex Silva/Estadão Conteúdo
Michel-Temer

E se o cavalo passar arreado?

A decisão de incluir no discurso de 7 de Setembro o dissimulado pedido de desculpas assumido pela presidenta Dilma Rousseff pelos supostos erros cometidos na condução da política econômica durante o primeiro governo dela foi mais um tropeço político desfavorável, obviamente, a quem já anda pelas tabelas.

O mentor dessa inclusão na fala da presidenta pode não ser o mesmo, mas tem a mesma percepção daquele assessor que, em agosto de 2005, sugeriu ao então presidente Lula ir a público e se desculpar pelas trapalhadas do PT e de aliados, chamadas de “mensalão”. Guardadas as diferenças circunstanciais, as coisas se parecem.

Em ambos os casos, o tema desculpa e arrependimento circulou pela imprensa antes de ser adotado oficialmente por Lula e por Dilma. De nada adiantou a ele, nem adiantará a ela. A soma de dois erros nunca resultará em acerto. Ao contrário, o erro do passado é acumulado ao erro do presente.

Dilma, titubeante no discurso difundido pelas redes sociais, afirmou com uma convicção estranha a ela: “Se cometemos erros, e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente”. Em seguida, alertou todos os que viam e ouviam: “Quero dizer a vocês: alguns remédios para essa situação, é verdade, são amargos, mas são indispensáveis”.

Ela fez um disparo. O remédio amargo foi um tiro no próprio pé. Na pauta de possibilidades, o projétil pode ricochetear na população já bastante sacrificada pela inflação e o desempregoEssa solução econômica traduzida em efeito político significa o aumento no risco de uma queda ainda maior na aprovação (Ótimo/Bom) da presidenta Dilma, hoje entre 7% e 8%.

Sempre alerta, a oposição simbolizada em carne e osso por Aécio Neves, está à espreita. Após uma fase de calmaria, renasceu nos últimos dias no Congresso a retomada do tema “impeachment ” embora, nas circunstâncias atuais, pareça um sonho impossível. 

Após um giro por esse circuito, em São Paulo, com a presença de empresários influentes na formação do PIB, Michel Temer, um aliado ladino, entrou em oposição ao essencial no discurso de Dilma. “Eu tenho sustentado o corte de despesas (...) As pessoas não querem no geral qualquer aumento de tributo (...) Nós temos que evitar remédios amargos.” Os mais ricos, além do fôlego natural, parecem blindados contra o aumento de impostos.

Depois de um longo tempo, precisamente quatro anos, em silêncio carrancudo, o vice-presidente não sossega mais. Rega o próprio canteiro contando com a decisão do PMDB de apresentar candidatura própria em 2018. E só conta com ele. É a explicação mais consistente para o distanciamento dele da presidenta e, principalmente, do PT.

Em caso de emergência, Temer estará pronto. Se o cavalo passar arreado, ele monta. Por tais razões Dilma não pode tomar uma dose forte do remédio amargo. Não pode promover a exclusão social demolindo os programas de inclusão do governo Lula. Esses novos cidadãos entraram pela porta da frente. Agora correm o risco de sair pela porta dos fundos. E podem voltar a sair de cena.