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Número 867,

Cultura

Literatura

Relatos do praça Boris Schnaiderman

por Rosane Pavam publicado 18/09/2015 10h06, última modificação 19/09/2015 08h54
Escritor narra novos fatos sobre o Brasil na Segunda Guerra e escreve livro sobre a infância
Carol Carquejeiro
praça-plural

O professor em sua residência, pelo reconhecimento da luta brasileira

Ao anoitecer, a subida a Santa Teresa era só deslumbramento. Dentro do bondinho, Boris Schnaiderman avistava a Baía de Guanabara e o casarão da encosta, enquanto as luzes abaixo, naquele sul do Rio de Janeiro onde morava, pareciam-lhe sempre mais distantes. Nascido na Ucrânia que todos entendiam russa, migrado ao Brasil com a família quase duas décadas antes, ele reconhecia o privilégio de fazer esse percurso rumo à casa de Diná, com quem levava um namoro incerto. Não entendia por que a carioca o afastava dos amigos com a inteligência nos pés, mas talvez desconfiasse das razões. 

Recém-formado em Agronomia, naturalizado brasileiro e convocado à Segunda Guerra Mundial, o jovem preferia bailar dentro de suas convicções existenciais e da imaginação literária. Naquele 1944, a melhor parte do mundo parecia guardada em sua própria cabeça, a alguns quilômetros das pistas de dança de cristal.

Uma noite, ao chegar à casa de Diná, viu que dois irmãos, morenos e bem novos, alegravam os dançarinos. O caçula alto e bonito chamava-se Cilênio, quiçá uma corruptela de Sileno, a entidade que, segundo a mitologia grega, embriagava-se ao lado de Dionísio. O outro irmão, mais baixo e de traços belamente regulares, atendia por Farnésio, quem sabe a evocar o deus para quem o sexo constituía um dom. Evidentemente, pensou, foram batizados no período da grande voga dos nomes gregos, sob o impacto do parnasianismo.

Mas agora haviam se tornado respectivamente Cyll Farney e Dick Farney, o segundo a soçobrar um violão enquanto cantava de modo admirável. Contudo, como aceitar a recusa dos dois artistas a uma guerra necessária? Eles advogavam lutar contra o fascismo “aqui mesmo”, expressão que rimavam com “a esmo”. Passados 70 anos desde o final do conflito, o professor, romancista, ensaísta e tradutor ainda não consegue entender por que pareceu natural aos Farney, como a grande parte dos brasileiros, exercer uma neutralidade pessoal no conflito, enquanto a bravura dos combatentes, na direção contrária, viu-se tão duramente contestada. 

Caderno Italiano (Boris Schneaiderman, Editora Perspectiva.190 págs., R$45)  é o livro em que o professor se manifesta mais firmemente em favor da luta brasileira. Aos 98 anos, ele enfileira casos como esse a envolver os artistas e a evidenciar, com alguma ironia, a perspectiva da elite brasileira diante das causas democráticas. Sua participação como integrante da artilharia na Força Expedicionária Brasileira na Itália havia sido em parte descrita no romance Guerra em Surdina, concluído 19 anos após o final do conflito, em 1964.

Mas o livro, um dos mais belos relatos literários ocidentais sobre a guerra, embaralhava fatos e personagens envolvidos. “Havia certas limitações na época”, argumenta Schnaiderman, a memória intacta, saudável após o câncer de intestino detectado há cinco anos. “Certas pessoas ficariam muito ofendidas com o que eu tinha a dizer.” Eis por que vir a público lhe pareceu inadiável. “Principalmente, porque está tudo muito esquecido. Demais, demais.”

Ele acredita que Diná, sete anos mais nova do que ele, não esteja viva para se ofender com suas impressões. E os Farney, sabe-se, partiram também. Schnaiderman tem a alma empenhada. Neste novo livro, cujos capítulos mesclam o tom do ensaio e do relato, os personagens envolvidos no conflito, especialmente os soldados brasileiros, vindos em sua maioria das classes desfavorecidas, surgem grandes demais. Nem sempre, contudo, seus comandantes têm a mesma sorte.

Como pôde o tenente coronel Carlos Cairoli, por exemplo, aquele que lhe dera as primeiras noções sobre o pensamento de Antonio Gramsci, ter aceitado a chefia da Delegacia Estadual de Ordem Política e Social em São Paulo, nos anos 1960? E, principalmente, por que o escritor Rubem Braga, que ele tanto admirou pelo humanismo de seus relatos de guerra, jamais denunciou o intolerável racismo presente nas hostes norte-americanas, ao lado das quais Schnaiderman combateu?

A guerra parece não sair dele. No romance de 1964, era como se tivesse encontrado até mesmo dificuldade em defini-la, travada que foi, igualmente, em campo íntimo. Seu conflito pessoal permanece nítido em Caderno Italiano. No capítulo Trancos e Barrancos, ele descreve as “máquinas infernais” dos Aliados que, ao imitar o voo das cegonhas durante os combates, “vão destruir cidades alemãs com eficiência impecável”. Diz revoltar-se contra aquela barbaridade cujo alcance ainda não pode avaliar. “Mas, ao mesmo tempo, uma vozinha dentro de mim insiste em que eu não posso me eximir”, escreve. “Sim, eu tenho horror à violência (como se meu cálculo de tiro fizesse parte de jogos florais), mas tenho de prosseguir no caminho.” 

No início, temeu pela participação brasileira. “Fiquei perplexo porque esperava um desastre completo”, diz. “Os soldados não tinham motivação para lutar, no entanto lutaram. Uma coisa estranhíssima terem se desempenhado tão bem.” Eis por que o livro As Duas Faces da Glória, de William Waack, tanto o exaspera. Ele não nega as qualidades literárias do jornalista, especialmente ao reconstruir a personalidade do barão Von Gablenz, o comandante alemão oponente. Mas não entende por que Waack se rendeu à “monótona cantilena oficial” dos americanos que condenaram “a preparação psicológica” dos brasileiros na Itália, onde o próprio Schnaiderman, por 48 horas sem dormir, calculou tiros ininterruptamente. “Como exigir de um soldado que lute numa guerra que ele não entende e se o seu chefe máximo, poucos meses antes de enviá-lo para lutar contra os alemães, parecia querer alinhar-se com estes?”, argumenta. “Testemunha direta dos fatos, posso dizer que os brasileiros lutaram de verdade, com ímpeto e muitas vezes real competência, adquirida no campo de luta.”

Como qualquer soldado submetido a conflitos dessa extensão, Schnaiderman admite ainda sofrer os traumas decorrentes. Apesar disso, reside sozinho em um prédio do bairro paulistano de Higienópolis no qual também habita, em um apartamento só seu, a segunda esposa, a ensaísta e pesquisadora das tradições orais Jerusa Pires Ferreira. O professor lê todos os dias, refaz suas traduções antigas, escreve diariamente em sua Olivetti, caminha pela rua, abaixa para pegar a correspondência debaixo da porta e ainda bebe eventualmente uma cachaça, não importa se mineira ou paulista. E agora quer rememorar a infância, naquele formato de Caderno Italiano em que possivelmente mesclará ensaio e relato, talvez porque teime em não se considerar um romancista.

Sempre quis fazer ficção, mas não sou ficcionista, minha autobiografia me arrasta mais”, diz, desinteressado da voga que determina a reelaboração da própria vida como digna de grandeza literária. “Estou tentando escrever sobre minha infância, mas é muito difícil, porque aparece o problema, não é? Mostrar o podre das pessoas ou não mostrar?” Um dos capítulos deverá girar em torno de sua experiência única em Odessa. Na cidade ucraniana onde morava, os carros particulares eram raros, pois um bloqueio econômico fora imposto aos soviéticos. Assim, seria possível a um menino de 8 anos, como ele, percorrê-la sozinho inteiramente todos os dias. Seus passeios culminavam na escadaria em cujo topo se tornavam visíveis o porto e as praias. Naquele dia de 1925, contudo, partido dos degraus, ele percebeu um movimento estranho. “De repente, aqueles homens atiraram os chapéus para o alto. E aquelas mulheres passaram diante de mim com umas toaletes que não se usavam mais. Não me lembro bem, mas devo ter visto o próprio diretor Eisenstein e seu cinegrafista, Tisse. Todo mundo morre. As pessoas foram morrendo e eu, sobrevivendo. Acho que sou o único sobrevivente das filmagens de O Encouraçado Potemkin.”  

*Reportagem publicada originalmente na edição 867 de CartaCapital, com o título "Relatos de um praça"