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Número 867,

Sociedade

Brasiliana

Solidariedade à flor da pele

por Rodrigo Casarin — publicado 21/09/2015 06h23
Tatuadora de Curitiba usa suas habilidades para amenizar a vergonha de mulheres vítimas de violência física
Joel Rocha
tatuagem - flávia

O serviço é gratuito. Basta escolher o desenho e ir ao estúdio de Flávia Carvalho

Ela não estava interessada. Depois de recusar um beijo, foi surpreendida pela navalha fria do canivete em seu abdome. Da festa na casa noturna levou um trauma e uma cicatriz. Para disfarçar a marca, ao menos, decidiu fazer uma tatuagem

A decisão não melhoraria apenas sua autoimagem. Mudaria a vida de Flávia Carvalho, a tatuadora: “Quando eu vi como ela ficou feliz ao cobrir a cicatriz, como isso foi transformador para ela, consegui enxergar que a tatuagem poderia ser utilizada como uma ferramenta de ‘empoderamento’ e resgate do amor-próprio de mulheres que sofrem agressão. Elas ficam com a autoestima muito abalada, pois, além da agressão física, são humilhadas e depreciadas. Quando toda essa violência resulta numa cicatriz em seu corpo, a situação fica ainda pior”.

Da primeira tatuagem nasceu o projeto A Pele da Flor. A iniciativa, começada neste ano, rapidamente obteve o apoio da Secretaria Municipal da Mulher de Curitiba e visibilidade depois de ser divulgada na página do Facebook da prefeitura. 

“Começamos de forma meio atropelada, mas eficiente. As mulheres começaram a se encorajar e vir ao estúdio contar suas histórias, mostrar suas cicatrizes, determinadas a apagar as lembranças da violência”, diz a tatuadora, que tem sido procurada por interessadas de todo o Brasil. O serviço é gratuito. A própria Flávia cobre os custos. “A única coisa a fazer é escolher o desenho e vir até aqui tatuar. Elas sempre me mostram Boletins de Ocorrência e afins para explicar a violência sofrida, mas não é uma exigência minha.”

A cada conversa com as clientes, a tatuadora entende melhor a fragilidade que as cerca. Muitas quase morreram. Quatro anos atrás, quando tinha 16 anos, uma delas sobreviveu a uma tentativa de assassinato. Além das facadas, o ex-namorado a violentou, o que a obrigou a se submeter a uma cirurgia de reparação. “Foi doloroso ver uma menina tão nova ficar com o corpo marcado pela violência.”

Quase sempre, constata a tatuadora, o agressor é um parceiro ciumento, controlador, possessivo e chantagista, que, por problemas no relacionamento, agride a companheira com armas frias, embora em alguns casos recorra a revólver ou até mesmo a mordidas. As regiões mais visadas são a barriga, pernas, braços e mãos, evidências da luta corporal. Para cobrir essas cicatrizes, as vítimas normalmente optam por desenhos coloridos e alegres, entre eles flores, pássaros e borboletas.

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No lugar das cictrizes, desenhos coloridos. Créditos: Joel Rocha

Segundo Flávia, a violência resulta de um conjunto de fatores que vão da cultura machista, que enxerga a mulher como ‘posse’ e submissa ao homem, à omissão de quem poderia evitar o pior. “Quem nunca ouviu ‘em briga de marido e mulher ninguém se mete’? Tem também a cultura de culpar a vítima, com frases como ‘se apanhou é porque deu motivo’, e até o padrão de relacionamento abusivo que faz com que essas mulheres sejam controladas pelos seus companheiros a ponto de ficar dependentes financeira e até emocionalmente. Muitas param de trabalhar por ordem do marido, sentem-se culpadas e até ‘merecedoras’ das agressões. Acreditam que o ciúme doentio é uma forma de ‘amor’.”

A própria tatuadora foi vítima de violência sexual. Na adolescência teve um namorado que a atacava física e psicologicamente. Seu primeiro casamento, relembra, também foi “tóxico”, com humilhações, chantagens e manipulações que minaram sua autoestima. A muito custo começou a superar os traumas. Depois, aproximou-se do movimento feminista, passou a acompanhar casos semelhantes e a usar seu histórico de superação para amenizar o sofrimento de outras vítimas.

Flávia Carvalho diz ficar triste e revoltada quando ouve mulheres envergonhadas ao contarem seus suplícios. Ao mesmo tempo, concluída a tatuagem, adora constatar o resultado positivo de seu trabalho. “Antes, elas escondem o corpo. Depois, passam a usar vestidos, vão à praia, colocam biquínis, ficam à vontade e felizes consigo mesmas. É gratificante”, diz. “Esse projeto é um grão de areia em um mar de coisas que precisam ser feitas e discutidas em relação à violência contra a mulher. Não fico com um sentimento de ‘dever cumprido’, mas é a arma com a qual eu posso lutar para ajudá-las.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 867 de CartaCapital, com o título "À flor da pele"