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Número 867,

Política

Análise/ Vladimir Safatle

A casta contra o povo

por Vladimir Safatle publicado 18/09/2015 10h29, última modificação 19/09/2015 08h54
A verdadeira raiz da crise política está na maneira como a classe política se coloca acima de seus representados
Tânia Rêgo/ Agência Brasil
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Em 2013, com as grandes manifestações de junho, ficou evidente o deslocamento entre os dirigentes e as demandas populares

Brasil deve ser o único país do mundo no qual até viadutos e calçadas são batizados com nomes de figuras pretensamente notáveis. Difícil achar 1 metro de concreto que não tenha a alcunha de algum grande brasileiro a ornar sua existência. Se você começa a se perguntar, porém, sobre quem são esses que os brasileiros celebram em suas construções, ficará claro não se tratar, em sua esmagadora maioria, de escritores, músicos, professores, cidadãos de grande bravura. São em geral políticos. Antigos deputados, prefeitos, vice-prefeitos, secretários, presidentes, ministros, mulher de ministro, correligionário, governador, filho de governador, mãe de prefeito (esta é uma contribuição da cidade de São Paulo). Bem, a lista não termina. 

Pode-se ter a impressão, com toda essa profusão de homenagens, que os brasileiros amam seus políticos com todo o coração. Ou se pode perceber claramente como a classe política vive para celebrar a si mesma, em um comportamento de casta que mistura vínculos de sangue, tradição e pilhagem do espaço público. 

É difícil não pensar a esse respeito depois do término da votação do projeto de reforma política. Em 2013, com as grandes manifestações de junho, ficou evidente o descolamento entre os dirigentes e as demandas populares. O slogan “Não me representa” era uma das senhas das manifestações por expressar a consciência de que o Brasil estava travado devido à incapacidade de aproximar a política dos processos populares. Por expor a incapacidade da nação de se livrar de uma “partidocracia” corrupta e precocemente envelhecida, a fim de abrir espaço para a participação popular mais efetiva e direta. Ninguém precisa ser representado para existir politicamente. Esta é a lição fundamental que devemos aprender daqui para a frente.

Diante do trauma representado por junho de 2013, haveria duas coisas a fazer: levar em conta tais demandas ou procurar fazer de tudo para que nada do que ela poderia produzir alcançasse a esfera da política. Não impressiona que a escolha tenha recaído na segunda alternativa. A partir de então, embalou-se uma reforma cujo único objetivo era afastar ainda mais a casta política da pressão das ruas. 

Assim, o País acorda com um projeto que visa, entre outras coisas, perpetuar os partidos majoritários e impedir ao máximo a constituição de novas legendas, por meio da limitação do acesso das menores a fundos, tempo de mídia e condições para campanha. Dessa forma, não há risco de que o poder saia da mão do consórcio miserável de agremiações hegemônicas às quais o Brasil está submetido. O jogo consiste em limitar ao máximo a escolha real dos eleitores, criar condições completamente desiguais para aqueles que não fazem parte da casta e impor cláusulas de barreira que devem vigorar o mais rápido possível, para impedir alguma escolha que possa sair do controle.  

O projeto visa ainda garantir o financiamento escuso por meio de doações empresariais e reduzir o tempo de campanha para afastar de vez os políticos da vidraça das ruas. Ele não traz uma mísera linha sobre o aprofundamento da participação popular direta, pois se trata de reduzir a política a uma discussão de bastidores, na qual lobistas e operadores se entendem. Mesmo a proposta de reforçar a Lei da Ficha Limpa, ao exigir que os políticos comprovem, no momento do registro de candidatura, não possuírem condenações por improbidade administrativa, acabou rejeitada na Câmara dos Deputados. Razão para tal decisão não há, mas, na política gangsterizada em que vivemos, razão não é necessária. 

Por trás de toda crise econômica há um impasse político. A crise brasileira tende a se perpetuar por não sermos capazes de nos voltarmos contra o que perpetua nossa miséria, a saber, não um partido ou outro no poder, mas algo bem pior, a consolidação da classe política brasileira como casta. Esta crise é a verdadeira matriz da debacle econômica. Não foi para tal república de casta que lutamos desde a redemocratização. Por isso, que não coloquem o peso dessa monstruosidade em nossas costas. Não temos nenhuma obrigação de defender um regime que funciona mal e bloqueia nossa criatividade.