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Número 866,

Internacional

Nosso Mundo

Os brutos também votam (em Donald Trump)

Com Trump, a xenofobia populista cruzou o Oceano. É modismo ou chegou para ficar?
por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 15/09/2015 06h20
Mark Wallheiser/ Getty Images/ AFP
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Donald Trump. Ele tem poucas chances de ser o candidato republicano, mas pode influenciar perigosamente o Partido Republicano

Há quem ouça no discurso de Donald Trump mais consonância com a direita populista europeia do que com as tradições dos Estados Unidos. Os desaforos a políticos de carreira lembram Beppe Grillo e o foco na xenofobia, Marine Le Pen ou Nigel Farage. Embora admirado por evangélicos, é tão laico na prática quanto os conservadores do outro lado do Atlântico: “Por que tenho de me arrepender ou pedir perdão, se não cometo erros? Eu trabalho duro, sou uma pessoa honrada”, quando lhe perguntaram se alguma vez pediu perdão a Deus. 

Suas propostas mais concretas são construir uma muralha na fronteira do México, deportar todos os 11 milhões de imigrantes sem documentos e revogar o direito à cidadania de seus filhos nascidos no país. Ao questionar como isso seria feito, o jornalista Jorge Ramos, âncora mexicano-americano da Univisión, principal rede hispânica dos EUA, foi expulso de uma coletiva pelos seguranças de Trump, sob o aplauso de boa parte da mídia conservadora. 

A pergunta é pertinente. O FBI vai deter 55 milhões de moradores hispânicos ou invadir suas casas para averiguar documentos, reunir milhões em campos de concentração e dividir famílias, ou banir residentes legais juntamente com parentes irregulares? Não é à toa a rejeição dos hispânicos, inclusive ídolos como Ricky Martin, Marc Anthony e Shakira, nem o boicote a Trump de empresas que os respeitam, como a NBC, Univisión, a Televisa e a rede varejista Macy’s. É uma agenda contrária ao próprio mito de origem dos EUA como país de imigrantes. A acusação aos mexicanos de serem estupradores, criminosos e racistas é o discurso público mais racista desde a vitória dos direitos civis em 1968.

Que, mesmo assim, Trump esteja à frente da pré-campanha republicana, com mais que o dobro das preferências dos rivais mais próximos, é um sintoma da globalização de ódios e preconceitos? Talvez ainda não. A disposição de afrontar rivais, mulheres e minorias lhe deu atenção desproporcional da mídia, 55% do espaço dedicado à campanha republicana. Essa tática de choque, análoga, guardadas as proporções, à do Estado Islâmico, pode ter eco no coração do cidadão inculto, frustrado menos pelo crescimento brutal da desigualdade do que pela ameaça a seus privilégios informais de homem branco ante mulheres, negros e latinos pobres. Mas é uma radicalização consequente, ou mero modismo?

Não seria o primeiro republicano a liderar a pré-campanha com perto de 30% das preferências antes de ser esquecido. Aconteceu com Pat Buchanan em 1996, Steve Forbes, em 2000, Mike Huckabee, em 2008, e Rick Santorum, em 2012. A 14 meses da eleição real, a disputa ainda é um reality show. A partir de novembro espera-se mais seriedade e menos ambiguidade, e quando começarem as primárias, em fevereiro de 2016, será preciso capacidade de organização e resistência a más notícias e derrotas pontuais. 

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Mesmo se Trump se sair bem nessa fase, dificilmente terá maioria absoluta. Créditos: Markralston/ AFP

Mesmo se Trump se sair bem nessa fase, dificilmente terá maioria absoluta. Na convenção partidária, em julho, será preciso negociar com líderes republicanos que agrediu impiedosamente. Para ele, Jeb Bush é “sem nenhuma energia”, os Bush “a última coisa de que precisamos”,  Mitt Romney uma “água-viva congelada”, Marco Rubio, “fraco em imigração”, Carly Fiorina “perdeu tanto dinheiro que carrega as próprias sacolas”, Scott Walker “endividou seu estado”, John McCain “só é herói por ter sido capturado, prefiro quem não se deixou apanhar” e até o falecido Ronald Reagan “não tinha nada por trás do sorriso”. 

O estatístico Nate Silver estima suas chances de ser candidato em 2%. A disputa real deve ser entre Jeb Bush, terceiro colocado e representante da máquina partidária, e quem os bilionários liderados pelos irmãos Koch decidirem patrocinar como mais viável à sua direita, provavelmente uma escolha entre Scott Walker, Ted Cruz, Marco Rubio e Carly Fiorina. O segundo colocado é Ben Carson, neurocirurgião negro conservador e criacionista, famoso por um procedimento pioneiro de separação de siameses e por livros promovidos pela Igreja Adventista, mas sem experiência política e visto apenas como possível companheiro de chapa para afastar do partido a pecha de racismo.

Ainda assim, se Trump tiver um desempenho convincente nas primárias, pode chantagear os republicanos com a ameaça de uma candidatura independente. Seria oferecer a Presidência a Hillary Clinton em uma bandeja: em 1992 e 1996, o também bilionário Ross Perot fez o mesmo, dividiu o voto conservador e deu a vitória a Bill Clinton. Por outro lado, se os republicanos lhe fizerem concessões e incorporarem a xenofobia a seu discurso oficial, perderão jovens e minorias e amarrarão seu futuro a um setor relativamente privilegiado e barulhento, mas envelhecido e destinado a decair em importância demográfica. 

Do lado democrata, o senador Bernie Sanders conseguiu certa atenção e 20% das preferências, mas como socialista declarado, está demasiado à esquerda para conquistar a massa, quanto mais a convenção partidária. E mesmo assim enfrenta a desconfiança de minorias e feministas que o acusam de subordinar suas causas à igualdade econômica. Para tirar a candidatura de Hillary, seria preciso um escândalo bem maior que o de usar o e-mail pessoal para assuntos da Secretaria de Estado. Ironicamente, ela poderia facilmente ser responsabilizada por boa parte do caos em Honduras, na Ucrânia e no Oriente Médio e pela tragédia dos refugiados do Mediterrâneo. Os maiores sucessos de Obama, o acordo com o Irã e o reatamento com Cuba, foram obtidos muito depois de ela deixar o cargo. Mas os republicanos que apoiam o mesmo intervencionismo e condenam as iniciativas pacifistas não estão em posição de criticá-la. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 866 com o título "Os brutos também votam"