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Número 866,

Cultura

Papinho Gourmet

O tedioso peixinho do dia

por Márcio Alemão publicado 13/09/2015 07h09
Campeão disparado da preguiça, da mesmice e do tédio profundo: peixe do dia com legumes
Shutterstock e Istockphoto
peixe-gourmet

– Pode crer. Um peixinho. Mas, francamente, esse peixinho não vale quanto pesa.

 Comi fora na semana passada. Três vezes.

– Ganhou na loteria?

– Convidado. Mas vi todas as contas e o assunto é quase pra esse tanto que você falou. Pro meu tamanho, infelizmente já deu.

– Dá pra sinalizar um culpado desse descarrilhamento?

– Antes disso a gente precisa definir o que foi que descarrilhou. Você conversa com o agricultor e ele vai se lamentar. Passa por supermercadista, por distribuidor, eles vão chorar mais um pouco. O dono do restaurante vai reclamar dos outros dois e, principalmente, do locador.

– Tem gente trabalhando mais de meio mês pra pagar o aluguel.

– Fato é: não consigo mais e posso ir além?

– Manda.

– Não vale a pena, o gasto. Ponto comum notado nesses três dias de folia: que gigantesca preguiça nos cardápios.

– Isso eu tenho reparado.

– Fazia muito tempo que não ia a esses restaurantes e a sensação é de que eu havia passado por lá no dia anterior. E nada a ver com clássicos da gastronomia. Era o de sempre sem criatividade, sem imaginação. Campeão disparado da preguiça, da mesmice, do tédio profundo: peixe do dia com legumes.

– O que dizem ser grelhado e vem lambuzadão de manteiga.

– Indefectíveis saint peter, linguado e robalo. Postinhas tolas muito bem arrumadas, é verdade, sobre legumes sem graça.

– É o PF do bacana que faz questão de ter uma alimentação equilibrada.

– Pode crer. Um peixinho. Mas, francamente, esse peixinho não vale quanto pesa.

– Já foi no tal de Modi? O preço é bom.

– Bom. De fato, é bom na categoria value for money. Estão bombando por conta disso. E a sacada é boa: atendimento feito por jovens, que te atendem de maneira precária, mas que você desconta por serem jovens, tatuados e não usam farda de garçom e podem estar na próxima temporada do Master Chef.  A comida é igualmente medíocre, mas o prato é bonitinho. Aquele pratão ofurô, profundo, com o rango miudinho lá embaixo. Você come, não chega a se aborrecer e a conta te faz sorrir. Meio Le Jazz.

– Que seja uma tendência, porque a ideia é boa.

– Também acho. Melhor pagar pouco pela mediocridade e ela tem voado baixo. Só recomendo veementemente que se fuja dos embutidos artesanais que são vendidos no Modi. Como disse Jeferson Rueda em uma matéria sobre o assunto, os nossos embutidos são puro sal. É o caso dos citados. E a copa quase sem gordura é muito semelhante a uma picanha assada sem a capa de gordura.

– Mas espera um pouco... se você não vai mais a restaurante, essa coluna não fica esquisita.

– Tem razão. Se a situação não melhorar, vou mudar o nome para Memórias Gourmet.