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Número 866,

Internacional

Oriente Médio

O inverno árabe

por Gianni Carta publicado 04/09/2015 17h47, última modificação 05/09/2015 01h07
Ensaios reunidos na obra 'Shifting Sands' questionam o que sobrou da Primavera
Fethi Belaid/ AFP

Londres

"De que maneira a Primavera Árabe se transformou em um pesadelo do qual não somos capazes de despertar?” A pergunta de Khaled Fahmy, professor de História da Universidade Americana do Cairo, não é acompanhada por uma resposta definitiva. E nem outras tantas questões e análises elaboradas pelos outros 14 acadêmicos de ensaios em Shifting Sands (Areias Movediças, Profile Books, 9,99 libras, 208 págs.). 

A obra, na verdade, não parece ter a pretensão de ser categórica. De fato, o próprio título, Shifting Sands, previne o leitor: a viagem pela região é sinuosa e repleta de obstáculos. No entanto, a peregrinação é iluminada por concisos ensaios. Atravessamos fronteiras desenhadas pelos colonizadores britânicos e franceses “nas areias”, após a queda do Império Otomano, no final da Primeira Guerra Mundial. Levavam em conta, britânicos e franceses, petróleo e o controle da região, escreve Avi Shlaim, professor de Relações Internacionais da Universidade de Oxford. 

Fahmy tem outra dúvida. Quando começa a Primavera Árabe no Egito? Seria na insurreição de dois séculos atrás ou no movimento que depôs o ditador Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011? O historiador e escritor Justin Marozzi ressalta: o sectarismo reina em Bagdá desde sua fundação, no século VIII. Certamente, historiadores divergirão sobre o início da Primavera Árabe por muito tempo. Onde começou? Entre outras possiblidades, na invasão do Iraque, em 2003. Ou seria na Revolução de Jasmim na Tunísia, em janeiro de 2011? Prevalecem incógnitas: quando começa – e quando terminará a chamada Primavera Árabe? Se terminará... 

Shifting Sands é pertinente em uma época na qual apologistas de intervenções no Oriente Médio parecem justificar as ações de ex-colonizadores ainda a ditar, com inesgotável arrogância imperialista, os perímetros da geopolítica global. Imagens dos rostos dos vencedores e perdedores no Oriente Médio vimos nesta quinta-feira 3, na televisão e nas redes sociais. Um vencedor seria o general/presidente egípcio Abdul Fatah Al-Sisi, presente na parada militar em Pequim para marcar a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. 

Al-Sisi, vale ressaltar, foi apoiado pelos EUA para depor, em julho de 2013, o presidente escolhido em eleições democráticas egípcias, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, organização islâmica considerada radical. À época, o correspondente do semanário norte-americano Newsweek em Paris concordou com o apoio de Barack Obama à intervenção de Al-Sisi. 

O correspondente certamente aceitaria que nesta semana, em Pequim, Al-Sisi justificasse a comparação com, entre outros ditadores latino-americanos, o panamenho Manuel Noriega, também ele apoiado pela CIA. “Mas ele é o nosso fdp”, diria o jornalista, como se exprimia um ex-presidente americano a respeito de ditadores latino-americanos. Já a imagem do perdedor, nessa equação a envolver o Oriente Médio, seria a do cadáver do menino sírio de 3 anos, Aylan Kurdi (leia o texto à página 46). Penny Johnson, editora do Jerusalem Quarterly, nos lembra que o filósofo esloveno Slavoj Žižek alertou: os sonhos de tunisianos e egípcios, entre outros povos do Oriente Médio, foram, em 2011, ofuscados por outras utopias, como aquela dos Indignados, na Espanha.

E também pela ação de terroristas racistas brancos como Anders Breivik, responsável, no verão de 2011, pela morte de 77 pessoas, a maioria de adolescentes, em uma ilha norueguesa. Em suma, no Ocidente reina um misto de manifestantes com boas intenções (embora sem programas sólidos), e a xenofobia populista. Johnson escreve: “Assim como na Primavera Árabe e em outros movimentos utópicos, a euforia no início dos eventos não levou a uma ordem mais pacífica e igualitária”. Ao contrário, aumentou a desigualdade social e “o crescimento econômico não regulado com suas desastrosas consequências de meio ambiente”. 

Como ouvi, em 2013, da boca de Hatem M’Rad, professor de Ciências Políticas da Faculdade de Túnis, “a expressão ‘Primavera Árabe’ é uma invenção dos Ocidentais”. M’Rad acrescentou: uma invenção “generalizante”. De certa forma, a “Primavera Árabe” ocorreu somente, ainda segundo M’Rad, na Tunísia. Marozzi, o historiador, concorda: “A Primavera Árabe nunca existiu realmente (...), com a única exceção da Tunísia”. Da mesma forma, “globalização”, como sustenta acima Johnson, seria um termo generalizante, ou melhor, ambíguo. Trata-se de uma utopia a favorecer um punhado de endinheirados. Slogans e aforismos servem, como diria o semiólogo e filósofo Roland Barthes, apenas para confirmar a existência de algo, ou de um movimento. E, assim, os mortais acreditam nas suas existências. Mas eis a questão: existe de fato algo ou um movimento? 

O pessimismo de Marozzi é compreensível. No Egito levaram a melhor os interesses econômicos sob garantias do Exército de Al-Sisi. O general sentencia oponentes à pena de morte, incluindo jornalistas e ativistas de direitos humanos. E foi responsável por um dos maiores massacres na história do país. Al-Sisi é menos ruim que Mubarak? Eis uma pergunta para Barack Obama, o qual não marcou presença na parada militar em Pequim. Na Líbia, por sua vez, milícias e tribos, embrenhadas em contendas regionais, não entregam as armas. Resultado: dois governos dirigem o país. A Síria, dividida entre grupos fundamentalistas xiitas e sunitas, é o pior caso ao descortinar o futuro de uma nação cujas fronteiras foram desenhadas na areia. O mesmo vale para o Iraque. 

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Por que Al-Sisi seria menos ruim que Mubarak? Créditos:Khaled Desouki/AFP

Segundo Ramita Navai, jornalista irano-americana, o futuro do presidente sírio, Bashar al-Assad, está nas mãos do Irã. Após o colapso da União Soviética, Teerã protege o alauíta (seita xiita) Al-Assad com armas e tropas iranianas e do movimento libanês Hezbollah. No novo confronto contra o sunita Estado Islâmico (EI), Washington aliou-se a Teerã. E o acordo nuclear entre Irã e EUA, já quase selado, poderá colocar o Irã como país central do Oriente Médio. No entanto, o que acontecerá se o EI for derrotado? Os EUA e os países sunitas do Golfo Pérsico não se voltariam contra o Irã? 

Mai al-Nakib, professora de Literatura Comparativa da Universidade do Kuwait, diz que os países do Golfo Pérsico vivem em uma “bolha de ar condicionado”. Seus cidadãos “podem enterrar as cabeças na areia”, mas como fingir não se dar conta dos acontecimentos em volta deles? O Kuwait foi um país cosmopolita, e até 1991 abrigou refugiados palestinos. Não é mais o caso. A Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos também não passam de avestruzes a fazer jogo duplo. Ao qual Washington sempre aderiu. Al-Nakib prefere escrever ficção a lecionar. Ao contrário das redes sociais, diz ela, a ficção aproxima o leitor do “outro”. E assim, argumenta, haverá menos vontade de “atacar”, “colonizar” e “oprimir”. Há de se recear que Al-Nakib enxergue uma miragem.