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Número 866,

Cultura

Artes Visuais

A poesia no desenho de Cássio Loredano

por Rosane Pavam publicado 13/09/2015 07h09
Na condição de flâneur, artista recupera com traço poético o rio que resiste
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“Nada pior que olhos acostumados”, escreve sobre os Arcos da Lapa, que compõe de uma perspectiva lateral.

Caricaturista da palavra, escritor da caricatura. Em Cássio Loredano, o que é texto jamais concorre com o que ilustra. São complementares os seus dizeres neste livro que recupera a paisagem urbana do Rio de Janeiro restante daquela cidade antiga, ainda resistente.

A lápis, o conhecido desenhista da figura humana está à vontade para encarar o casario como quem ressalta um belo nariz, revelador da forma essencial diante de nós. “Nada pior que olhos acostumados”, escreve sobre os Arcos da Lapa, que compõe de uma perspectiva lateral. “Só o estrangeiro, o forasteiro, para se maravilhar de um aqueduto romano em pleno coração de uma metrópole dos trópicos.”

Nos 62 desenhos que se estendem em preto e branco pelo livro montado como um álbum, não há a minúcia, mas o perfeito contorno, um espelho das figuras sob a perspectiva do flâneur, a caminhar com vaguidão. Loredano parece certo de que, aos 67 anos, conhece a cidade como a si mesmo.

Eis por que lança sobre ela o “olhar cobiçoso” contra a “baba viscosa dos especuladores”, esses que vez ou outra se insinuam na paisagem para enfear o outeiro, as casas casadas, uma velha torre cujo relógio não tem mais serventia. Irônico que sua empreitada tenha se iniciado em 2014, com um desenho da Rua do Ouvidor para o caderno Prosa, do jornal O Globo, e que o suplemento literário, depois de 20 anos, chegue agora ao fim.

A poesia no desenho de Loredano permite dizer e mostrar, por exemplo, uma perspectiva para a obra de Franz Weissmann que a coloca de joelhos diante da estátua de Camões na praça em frente ao Real Gabinete Português de Leitura. E é rara a sua escrita bem-humorada: “Tem gente que acha a Rio Branco, 219, o endereço mais importante do Brasil. (Outros pensam no finado Maracanã ou no Planalto, vá entender.)

Eu, por mim, acho o luso dom João VI um grande brasileiro por dois feitos. 1. Trouxe a Biblioteca Nacional. 2. Não levou de volta”. Ou como ele escreve para acompanhar o desenho publicado aqui: “Casario de uma quadra da Rua do Catete, entre o número 170 e a Rua Silveira Martins, em frente ao palácio, que as árvores têm a bondade de deixar a descoberto”.