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Número 866,

Sociedade

Brasiliana

A pesca predatória dizima os rios da Ilha de Marajó

por Dal Marcondes publicado 14/09/2015 06h19
No meio da água e do verde, vicejam a pobreza e a desesperança
Istockphoto
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É cada vez mais raro encontrar pirarucus nas águas da região.

Na ilha de Marajó, os rios parecem não ter fim. O barco sai de Belém e aproxima-se da maior ilha fluvial do mundo. De um lado, deságua o Amazonas, que atravessa a maior floresta tropical do planeta e com força empurra a água do mar por quilômetros afora. Do outro chega o Tocantins, fortalecido por centenas de afluentes. O arquipélago, com suas 19 cidades, carrega o título de região mais pobre do Pará. Sorte, alguém pode pensar, que existem peixes em quantidade suficiente para alimentar os ribeirinhos. Engano. 

Recentemente, pesquisadores do Instituto Peabiru, ONG dedicada ao desenvolvimento sustentável do Pará, atravessaram a Baía do Marapatá em direção a Curralinho. Oito horas em um barco onde os passageiros viajam em redes. De passagem pela cidade de 30 mil habitantes, metade deles na zona rural, dá para notar os resultados da improbidade administrativa pela qual foram condenados dois ex-prefeitos, além do descaso em relação ao Conselho Tutelar da Infância, que levou o Ministério Público do Pará a agir contra o atual alcaide. Em abril, a Justiça estadual afastou o prefeito José Leonaldo dos Santos Arruda, cujos direitos políticos foram caçados por cinco anos. 

O primeiro indício de problemas com a biodiversidade local aparece em uma cuia de tacacá, caldo preparado com a goma de tapioca, folhas de jambu e camarão. No primeiro gole surge um camarão tão pequeno que cabe sobre uma unha. Logo depois, um “ovado”, repleto de ovas que dariam origem a centenas de novos crustáceos. Provas de uma pesca descomprometida com o futuro. Os camarões foram capturados durante o período de defeso, quando os pescadores recebem uma bolsa do governo federal para garantir a subsistência enquanto os peixes e crustáceos se reproduzem.

A equipe segue em um barco menor em direção ao Rio Canaticu, pequeno para os padrões da Amazônia, mas que despeja cerca de 50 vezes o volume do Tietê em sua foz. Quase 20 comunidades se abrigam em suas margens, casas, em sua maioria de madeira, construídas sobre palafitas. O barco é o único meio de transporte. A mata verde é exuberante e o rio, uma promessa de vida? Nada disso. Nas matas, a madeira nobre sumiu, assim como os animais nativos. Nas águas, não tem mais peixe nem camarão. 

Os pesquisadores conversam com os ribeirinhos e tentam entender o que aconteceu. Vicente de Paula Ferreira de Oliveira, morador antigo, conta que o fim dos peixes começou com a “malhadeira”, rede de malha fina esticada de margem a margem nos rios e igarapés de Marajó. Mais de 20 anos de pesca predatória, na captura de peixes que subiam o rio para desovar na piracema, praticamente acabaram com a presença de grandes espécies, como o tucunaré e o pirarucu na região. No prato do ribeirinho reina o frango congelado, que atravessa meio mundo para chegar naquelas barrancas.

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E a colheita do açaí ainda se apoia no trabalho de crianças. Créditos: Istockphoto

A principal renda na região vem do açaí, coqueluche no Sul-Sudeste e no exterior. Mas o fruto também corre riscos. O palmito das palmeiras atraiu fábricas que o cortavam e envasavam, mas não plantavam uma nova muda. No fim, foi apenas um curto ciclo de exploração que deixou a região ainda mais pobre. O crescimento dos mercados de açaí fora do Pará deu um novo fôlego aos ribeirinhos, que conseguiram replantá-los e começar uma nova e rentável atividade econômica. João Meirelles, diretor do Peabiru, aponta, no entanto, para o perigo às crianças. “Boa parte do açaí que chega ao mercado é coletada por menores, com muitos acidentes.” Segundo ele, a maior parte do açaí consumido no Brasil sai de Marajó.

Raimundo Ferreira, de 77 anos, fala de um tempo em que havia de tudo em Marajó: jabuti, jacaré, veados, caça farta. Mas, como tudo que se mexe no mato acaba morto, os animais desapareceram. Os pesquisadores do Peabiru defendem um acordo de pesca voluntário que dê alguma folga para a recuperação dos estoques pesqueiros. “Não adianta querer resolver esse desastre pela força”, diz Meirelles, que ainda acredita no diálogo. Enquanto isso, em meio a tanta água e tanto verde, vicejam a pobreza e a desesperança. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 866 de CartaCapital, com o título "Águas sem vida"