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Número 866,

Internacional

Direitos Humanos

Um desastre humanitário na Europa

por Claudio Bernabucci, de Roma — publicado 11/09/2015 06h06
O êxodo bíblico de centenas de milhares de migrantes representa o evento mais grave depois da Segunda Guerra Mundial
Daniel Etter/The New York Times
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No rosto deste pai, todo o sofrimento dos fugitivos

Para descrever o êxodo bíblico de dezenas de milhares de migrantes que estão se espalhando por toda a Europa, as palavras se apequenam, de fato insuficientes. Não é difícil defini-lo, porém, como a mais grave tragédia humana no continente depois da Segunda Guerra Mundial. Quase impossível encontrar estatísticas atualizadas desse fenômeno que aumenta a cada dia. Cálculos aproximados das agências internacionais indicam que nos primeiros oito meses do ano já entraram na União Europeia mais de 500 mil migrantes.

Durante os meses de julho e agosto, o ritmo foi de 8 mil a 9 mil pessoas por dia, sobretudo no Mediterrâneo, mas não só ali. A dramática novidade dos últimos meses é que, graças à clemência do verão europeu, com mar calmo e temperaturas muito altas, foram abertas novas rotas marítimas e terrestres. O tráfego de seres humanos não acontece só, como no passado, entre Líbia e Itália principalmente, mas em poucas semanas expandiu-se por numerosos países em um incessante efeito dominó. Agora é a vez da Grécia, que está recebendo imenso número de migrantes em suas ilhas paradisíacas, graças ao fato de que elas distam poucas milhas da costa turca, nova região de embarque de quem foge de guerras e da miséria. Um enorme fluxo de refugiados, sobretudo sírios, abriu caminho por terra através da Macedônia e de outros países balcânicos para tentar entrar no coração da Europa.

Como água que procura o caminho mais direto para chegar ao seu destino, uma maré humana nunca vista está inundando a Hungria, não obstante a hostilidade do país, e arrastando seus miseráveis obstáculos de contenção. Nos próximos dias, prevê-se que essa cheia se espalhe pelas desprevenidas Croácia e Bósnia. Qualquer caminho é bom para chegar à meta mais cobiçada, a rica Alemanha. Também está se intensificando a pressão de migrantes do Marrocos para a Espanha, e da costa da Argélia levanta-se para o Sul da França, outro destino desejado, juntamente com a Inglaterra. Nessa odisseia, o número de seres humanos mortos tragicamente aumenta a cada dia, e só neste ano já supera os 2,6 mil.

Além de relatar essa contabilidade do horror, que inevitavelmente anestesia a compaixão de qualquer ser humano, a mídia europeia teve um papel virtuoso na sensibilização da opinião pública e dos governos, sobretudo nas últimas semanas. Foram contadas histórias de generosidade e socorro que suscitaram ampla solidariedade. Foram mostradas imagens dramáticas, até muito cruas, que falaram à sensibilidade das pessoas mais do que qualquer palavra altissonante. E, pela primeira vez, foram vistos fotógrafos e jornalistas chorar diante de situações tão trágicas que não lhes permitiam trabalhar com a frieza profissional de sempre. Muitos sinais indicam que a parte melhor da Europa está se dando finalmente conta de que não é mais tolerável a continuação de tal barbaridade e que, depois de tantas ambiguidades e inadimplências, chegou a hora de agir unitariamente para enfrentar com humanidade e eficácia o desafio das migrações.

Como sempre, quem primeiro fez soar o alarme, moral e espiritual, nesse agosto inflamado foi o papa Francisco. Lembrou ao mundo que ainda este ano começará o Jubileu da Misericórdia e que o dever do cristão, diante do sofrimento dos migrantes, é salvar vidas e oferecer acolhimento. “Quem recusa os migrantes, peça perdão”, sentenciou. O decano dos jornalistas italianos, Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblica, relatou uma recente conversa com Bergoglio e sentiu-se autorizado a difundir publicamente que a questão das migrações será o grande tema que o papa enfrentará nos seus discursos de setembro nas Nações Unidas e no Congresso americano.

Outro importante sinal de inversão de rota foi uma entrevista do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que em pleno verão austral atacou frontalmente a inadimplência dos governos em relação aos acordos migratórios recém-assinados e levantou o risco de aniquilamento dos ideais comunitários se a Europa preferir se fechar numa fortaleza isolada do resto do mundo. 

Entretanto, dois episódios particularmente trágicos deram um atroz solavanco na Europa inteira. Entre 27 e 28 de agosto morreram no mar líbio, por sufocamento, 52 migrantes, massacrados pelas pancadas dos traficantes e obrigados a se amontoar no porão do barco pelo fato de serem negros. Na  Áustria, foram encontradas outras 71 vítimas asfixiadas em um caminhão frigorífico de nacionalidade eslovaca, abandonado por um motorista criminoso numa rodovia , nas proximidades da fronteira com a Hungria. A brutalidade dos episódios marcou provavelmente um ponto de não retorno, sobretudo no posicionamento da Alemanha, país central para qualquer processo político continental.

A chanceler Merkel manifestou imediatamente sua posição com poucas palavras, sóbrias, mas claras: “Todos estamos arrasados com a terrível notícia dos prófugos mortos no caminhão. Isso soa como um aviso para que a Europa ofereça solidariedade e encontre soluções”. Em poucas horas, a solidariedade capilar dos alemães apareceu ao mundo em toda a sua poderosa eficiência, com milhares de iniciativas populares e das instituições, em uma virtuosa competição para oferecer hospitalidade aos refugiados. A solidariedade manifestou-se até nos estádios de futebol, onde a torcida do Dresden Bremen chegou a expor cartazes com a frase “Bem-vindos, refugiados”. A Alemanha, faz tempo considerada destino privilegiado por causa da sua riqueza e organização social, ofereceu asilo político, em 2014, a quase 200 mil prófugos. Nos últimos dias, sem propaganda alguma, a agência alemã para migrantes e refugiados distribuiu em toda a sua organização a indicação de suspender temporariamente a aplicação do Tratado de Dublin e de abrir as portas para todos os sírios que peçam refúgio no país. Em outras palavras, segundo estimativas das agências especializadas, isso significa estar prestes a acolher em torno de 800 mil refugiados, só da Síria. Corolário positivo dessa atitude, parece que 60% da população alemã apoia o governo por seu posicionamento solidário com todos os migrantes.

Já o premier italiano, Matteo Renzi, tinha pedido nos meses passados a revisão dos acordos europeus sobre refúgio, mas agora Angela Merkel seguramente o surpreendeu de modo positivo. O Tratado de Dublin, assinado em 1990, estabelece que um refugiado possa pedir asilo somente em um país europeu e que o registro e a gestão do pedido sejam responsabilidade do primeiro país de chegada. Na onda migratória dos últimos anos, isso determinou, de fato, uma situação muito confusa e contraditória. Por um lado, os refugiados chegados às costas italianas e gregas nunca querem ser registrados na chegada, porque o destino deles são os mais prósperos países do Norte da Europa. Por outro, gregos e italianos, para não suportar o maior peso desses fluxos migratórios, fecham um olho, e às vezes ambos, para evitar esse registro.

Quebrado unilateralmente (e com certa generosidade) o tratado, a estupefação com a repentina metamorfose da senhora Merkel é o sentimento dominante tanto nas instituições quanto na opinião pública europeias. Até poucos dias atrás, fazia-se pesada sátira política sobre ela e os jornais europeus a desenhavam com capacete prussiano. A chanceler era, e em parte continuará sendo, o símbolo de um país inflexível com os devedores, muito severo, em particular com os países mediterrâneos, acusados de prodigalidade e lassidão.

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A fuga incerta e a morte na praia. Créditos: Nilufer Demir/ Dogan News Agency/AFP

Nação puritana, a Alemanha, por um lado, mas por outro muito atenta aos seus interesses materiais e, por definição, ninho da direita neoliberal europeia. Hoje soa muito surpreendente que milhares de prófugos amassados na estação de trem de Budapeste gritem “Viva Berlim, viva Angela Merkel!”, e que o governo alemão seja acusado pelos húngaros de ser a origem do caos por excesso de altruísmo.

Enquanto a parte opulenta e egoísta da Europa observava cinicamente a tragédia em curso e uma minoria nazifascista, principalmente na Alemanha, se manifestava violentamente contra a chegada dos migrantes, o posicionamento de Merkel assegurou os princípios insuperáveis da civilização democrática europeia. À barbárie crescente de xenofobia e racismo a chanceler respondeu que, para criar uma autêntica aliança europeia em condição de enfrentar a questão migratória de maneira civilizada, é preciso apelar aos valores comuns. Os direitos civis universais estão associados à Europa e à sua história democrática. Se a União não respeitasse tais princípios e os deveres consequentes, perderia definitivamente sua identidade.

A nova linha alemã representa certamente uma vitória para os italianos, que trabalharam muito bem com a missão salva-vidas Mare Nostrum e carregaram, juntamente com os gregos, as maiores dificuldades no acolhimento. A recomposição das alianças internas à União está também ajudando a titubeante França a tomar posições mais alinhadas com sua tradição iluminista, após certo recuo nos meses passados por causa da ameaça “lepenista”. As palavras mais duras contra a política migratória húngara, e a correspondente decisão de construir uma muralha de 4 metros na fronteira com a Sérvia para impedir o fluxo dos refugiados, foram finalmente dos franceses.

Liderado agora pela Alemanha, o grupo de países que, enfim, estão dispostos a enfrentar com visão clarividente a questão migratória e, numa ótica unitária europeia, a multiplicar os esforços materiais, é seguramente majoritário no continente. Os verdadeiros inimigos são todos os movimentos xenófobos e racistas de direita e ultradireita, mas os adversários se encontram também entre as fileiras dos governantes húngaros, tchecos, eslovacos e, surpreendentemente, poloneses. Muita impressão suscitou recentemente a odiosa prática da polícia da República Tcheca que, para cadastrar os refugiados a caminho da Alemanha, riscou nos braços deles, com marcador indelével, o número do vagão e do trem em que iriam viajar.

Com a memória do Holocausto, elevaram-se muitas vozes indignadas, mas, como lembra a filósofa Agnes Heller, húngara sobrevivente dos campos de extermínio, “a democracia em muitas partes da Europa chegou como presente de exércitos libertadores, não como conquista interna (...) E se não se assimila o presente, antes ou depois a história apresenta a conta (...) A Alemanha, com a catarse da derrota, e hoje, com Angela Merkel e seus discursos antirracistas, mudou de verdade. Aqui, nos países da nova Europa, voltaram os fantasmas do horror e do ódio racial”.

A posição do Reino Unido, também nesta conjuntura, representa outra grande contradição europeia. Perenemente em dúvida sobre abraçar com maior convicção o processo de integração ou finalmente sair dele, os conservadores ingleses tomaram uma atitude muito isolacionista diante das pressões migratórias provenientes da França: a ministra do Interior, Theresa May, ameaçou limitar o ingresso na ilha aos outros europeus e pediu para acabar com a livre-circulação na Europa continental, fruto da Convenção de Schengen, à qual os britânicos não aderem. As reações da Comissão e da Alemanha foram firmes em rejeitar a provocação inglesa, mas a publicação de uma simples fotografia no Independent está gerando até maior embaraço nos governantes de Londres. A tristíssima imagem retrata um menino sírio de 3 anos, com a face na areia da praia de Bodrum, na Turquia, morto por afogamento, assim como seus outros 11 companheiros de desgraça, que tentavam chegar à Grécia. Também nesse caso a imprensa inglesa se portou de maneira digna, levantando críticas ferozes contra a inércia do governo, porque, diante dessas tragédias, enough is enough, bastante é o bastante.

*Reportagem publicada originalmente na edição 866 de CartaCapital, com o título "A maior tragédia"