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Número 865,

Cultura

Uma risada sem fim

por Rosane Pavam publicado 08/09/2015 03h34, última modificação 08/09/2015 15h45
O Festival de Besteira ainda assola o País cinco décadas após o golpe que motivou Sérgio Porto a elaborar suas “transcrições”
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Sérgio Porto pintou a ignorância de Sued (na foto). Créditos: Ag. O Globo

É tudo verdade, é o Brasil. Na capital federal, um pastor homofóbico, célebre por afirmar que os africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé, assume a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. A Polícia Civil do Rio de Janeiro aponta Mikhail Bakunin, anarquista russo morto em 1876, suspeito das ações violentas em manifestações de rua de 2014. E a Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, protocola contra a redução do limite de velocidade das marginais na Vara errada. Era tudo desatino, era o País. Em 1965, o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem enviava seis ofícios a um juiz nos quais o chamava de “meritríssimo”. Em Niterói, a polícia apreendia vários exemplares da encíclica papal Mater et Magistra sob a alegação de constituir material subversivo. E um prefeito de Petrópolis, cidade serrana do Rio, baixava portaria ditando normas para banhos de mar à fantasia.

“A prosperidade de certos homens públicos no Brasil é prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”, escreveu o carioca Sérgio Porto sobre os poderosos empossados pela “revolução”, o golpe que se transformaria em “redentora” para os íntimos. O escritor desancou a ignorância ditatorial na pele de Stanislaw Ponte Preta, um heterônimo que teria sido Serafim Ponte Grande se Oswald de Andrade não lhe houvesse presen -
teado com seu livro de título homônimo. Sem temer a concorrência com o ridículo estado de coisas, pelo menos antes que a edição do AI-5 o tornasse largamente brutal, Porto realizou uma espécie de síntese do humor brasileiro com um tempero carioca, como certa vez observou o historiador Elias Thomé Saliba.

“O sol nasce pra todos, a sombra, pra quem é mais esperto”, metralhou o criador do Festival de Besteira que Assola o País, inicialmente publicado em uma coluna diária do jornal Última Hora. Como escreveu o próprio humorista no prólogo a mais esta bem-vinda reedição de seus opúsculos contra as trevas nacionais, o Febeapá não nasceu em data precisa. Mas a ideia de expor os casos começou a lhe ocorrer quando algumas autoridades brasileiras que se diziam “otoridades” passaram a incentivar a política do dedurismo (uma corruptela de “dedo-durismo”, inventada por ele próprio). Seu humor voltou-se então aos “cocorocas”, os sabujos empolados e semiletrados que deduravam os considerados “subversivos” ou “corruptos”. Uma inspetora de ensino do interior de São Paulo, “portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa”, deu-lhe o empurrão para o início do Febeapá. Ao saber que o filho, um “debiloide”, tirara zero numa prova de matemática, a cocoroca não vacilara em apontar o professor como perigoso agente comunista.

Stanislaw Ponte Preta afirmava não inventar nada, apenas se apoiar nas bobagens pronunciadas e promovidas pela elite derrisória. Como a besteira intrínseca à fala de Mario Andreazza, então ministro dos Transportes, em 1967: “Um governo que fizer tudo, mas não fizer estradas, não fez nada; ao passo que um governo que não fizer quase nada, mas fizer estradas, fez tudo”. Andre-
azza era um militar entre os responsáveis por aquele Brasil tristemente ditatorial, muito distante, portanto, deste país democrático que uma nova onda reacionária deseja solapar, mas algo na frase, seu ritmo, talvez evoque a fala recente de Dilma Rousseff sobre um programa profissional para a qualificação de jovens: “Não vamos colocar meta”, começou a presidenta. “Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.”

O Febeapá ocorre diante da falência temporária das instituições democráticas ou constitui a sina de um país eternamente atado à mentalidade colonial? Visto de muito perto, mais se parece com uma categoria do nosso pensar, ou daquele obstinado exercício do não pensamento que talvez nos pertença. E o gênio do humorista, sua hilaridade intrínseca, apenas o teria catalogado e tornado visível. Ao cravar o festival em “transcrições” e, depois, em recriações no formato de crônica ficcional, ele redescobriu o brasileiro na sua face sombria. Em Garoto Linha-Dura, anterior aos três volumes que ilustravam o festival, ensinou seu método: “Cronista que escreve sobre o diário não devia ter nunca automóvel. O andar na rua, trafegar em coletivos, ter contato mais direto com a plebe ignara ajuda às pampas. A gente se imiscuindo é que colhe material para estas mal traçadas”.

Como observa o professor de literatura João Adolfo Hansen no posfácio a esta edição sem índice onomástico, os três volumes do Febeapá fogem da egolatria, abolem a escravidão do “eu” do humorista e promovem “molecagens como autópsia de clichês de seu tempo”. Este caso, publicado na primeira edição, ilustra a maestria de Ponte Preta: “O coronel brigou com o major porque um cachorro de propriedade do primeiro conjugava o verbo defecar bem no meio da portaria do edifício de onde o segundo era síndico. Por causa do que o cachorro fez, foi aberto um Inquérito Policial-Militar de cachorro. King – este era o nome do cachorro corrupto – cumpriu todas as exigências de um IPM. Seu depoimento na Auditoria foi muito legal. Ele declarou que au-au-au-au”.

Nesta edição surgem seus célebres personagens ficcionais, como Tia Zulmira, a mulher culta e livre que fora amiga da Princesa Isabel e criara a expressão “máquina de fazer doido” para definir a tevê, e seu exato oposto, o Primo Altamirando, malandro de direita, anticomunista e inescrupuloso que, ao sair do reformatório, estava apto a aconselhar políticos. Ainda que Sérgio Porto apenas abordasse os tipos da realidade, eles pareciam ser só seus. Pegava no pé do colunista social Ibrahim Sued, que, por exemplo, garantia estar “diariamente às terças e quintas” no seu programa de tevê. Sobravam farpas para o presidente Castello Branco e seu cordão de puxa-sacos, tipos capazes de bajular até mesmo um parente futebolista do marechal-presidente, o capitão Eraldo de Alencar Castello Branco, o único com nome e sobrenome em um time no qual os jogadores principais eram Pipiu, Caiçara e Bacabau.

Quando ficcionalizava para os jornais, o rádio e a televisão (foi redator do programa de Chico Anysio), tocava a realidade com muita eficácia. Era duro no golpe cômico, e surpreendia o leitor. Na sua arte literária sofisticada, feita de textos nítidos e breves, criava expressões que se consagravam, como “mais por fora que umbigo de vedete” ou “depufedes”, referindo-se aos deputados federais. Trabalhava muito e sempre em meio à confusão, eis por que o uísque ao final do dia lhe parecia urgente no Pardellas da Rua México.

“De que morreu Sérgio Porto? Do coração e do trabalho”, cravou Rubem Braga em um obituário emotivo. “Vitorioso no Brasil é o jornalista que sempre encontra mercado, não preços mais altos. E só chega ao chamado certo nível de vida somando diversas atividades corrosivas.” Aos 36 anos, Porto sofreu o primeiro infarto. E aos 45, em 1968, o último. Não conheceu, sorte ou azar, este Brasil que parece perpetuar sua mais célebre criação. Nem os humoristas do presente, merecedores de um Febeapá só para eles, visto que se limitam a ofender os desfavorecidos, ademais por áreas de atuação (enquanto Rafinha Bastos navega pela cultura do estupro, Danilo Gentili mergulha em racismo enquanto distribui bananas pelo Twitter). Sérgio Porto era de tão diversa qualidade. Fazia humor sem caricaturar o assunto, como dizia o amigo Braga. Sua graça nascia de falar e descobrir verdades, e de ter a coragem de ser odiado por dizê-las.