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Número 865,

Política

Nosso Mundo

Ninguém segura o papa Francisco

por Claudio Bernabucci, de Roma — publicado 04/09/2015 18h25, última modificação 06/09/2015 09h38
Agora ele se inspira em Ulisses e condena a obsessão da produtividade
Vincenzo Pinto/ AFP
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“A gestão do emprego é uma grande responsabilidade humana e social que não pode ser deixada nas mãos de poucos ou delegada a um mercado divinizado”

Nunca aconteceu que um papa citasse o mito de Ulisses – o herói grego, laico e moderno por excelência – no meio de uma reflexão religiosa. Essa primazia também pertence a Francisco, que, na mensagem enviada ao Meeting de Comunhão e Libertação, uma associação italiana de inspiração católica muito influente, enfrentou as questões mais inquietantes da existência humana nestes termos: “É uma procura, aquela que precisamos enfrentar, que se expressa em perguntas sobre o significado da vida e da morte, sobre o amor, o trabalho, a justiça e a felicidade” (...) “O drama de hoje consiste no perigo iminente da negação da identidade e dignidade da pessoa. Uma preocupante colonização ideológica reduz a percepção das necessidades autênticas do coração para oferecer respostas limitadas que não consideram a amplitude da procura do amor, da verdade, da beleza e da justiça que mora em cada um” (...) “Se fosse eliminada a hipótese de um ‘além’, aquelas exigências resultariam sufocadas. O mito de Ulisses nos fala do nostos algos, a nostalgia que só pode encontrar satisfação numa realidade infinita”.

A reflexão continua em termos estritamente religiosos, mas o que interessa anotar, neste caso, é o valor político e cultural da mensagem papal. Citando o herói homérico, Francisco celebra a figura histórica que mais simboliza a liberdade do espírito e, ao mesmo tempo, abre caminho para o homem moderno, com a inesgotável aspiração de expandir sua inteligência racional. O catolicíssimo Dante Alighieri, na Divina Comédia, colocou Ulisses no inferno por ter o rei de Ítaca recorrido  ao engodo para a conquista de Troia e por causa do desafio aos deuses na sua navegação fatal além das “Colunas de Hércules”, um adendo dantesco à Odisseia e à personagem homérica. Pelo qual, de verdade, o poeta tinha profunda admiração civil e em cuja boca pousou alguns dos versos mais sublimes da literatura de todos os tempos: Considerate la vostra semenza / fatti non foste a viver come bruti / ma per seguir virtute e canoscenza (Considerem a vossa semente:/ não fostes feitos para viver como brutos, / mas para buscar virtude e conhecimento).

Com a citação, parece que Francisco quis se apropriar dessas palavras e de seus simbolismos para usá-los como chaves de um diálogo sem fronteiras com o mundo laico e, ao mesmo tempo, para desafiá-lo. Não é segredo que o papa considere como tarefa básica do seu pontificado o encontro com a modernidade, compromisso do Concílio Vaticano II. O papa argentino herdou uma Igreja cansada e atrasada, corrupta, incapaz de um diálogo construtivo com o homem contemporâneo e seus problemas. Inovando espiritualmente e realizando uma profunda reforma da sua casa, que inclui severas autocríticas, Francisco estabelece os fundamentos de uma nova autonomia entre a esfera religiosa e a mundana, destinada a exercer um protagonismo espiritual finalmente livre das injunções do poder temporal.

Nessa tarefa, Francisco será profeta dos nossos tempos e perseguirá seu radicalismo evangélico com toda firmeza, como acaba de demonstrar nesses dias, quando voltou a falar sobre questões sociais. “O trabalho é sagrado porque expressa a dignidade das pessoas”, afirmou na audiência geral de 19 de agosto, “mas, quando o trabalho é refém da lógica do mero lucro que despreza os afetos da vida, o desânimo da alma contamina tudo: também o ar, a água, as ervas, a comida” (...) “e as consequências golpeiam sobretudo os mais pobres.” Voltam aqui, repetidamente, algumas das questões para ele cruciais: o trabalho, a família, a defesa dos pobres e o cuidado da natureza.

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Monsenhor Galantino. Definiu os separatistas da Liga norte como mercadores de meia-pataca. Créditos: Cristian Gennari/ Siciliani

“É um trabalhador, é um indivíduo que, na comunidade, não vive nas costas dos outros: este é o elogio mais belo que pode ser feito a uma pessoa séria e honesta”. Por essas razões, continua Francisco, “a gestão do emprego é uma grande responsabilidade humana e social que não pode ser deixada nas mãos de poucos ou delegada a um mercado divinizado” (...) “A moderna organização do trabalho expressa a tendência de considerar a família uma espécie de estorvo, um obstáculo à produtividade”.

O mito da eficiência não pode sequestrar os afetos familiares: “É preciso perguntarmos: qual produtividade? E para quem?” Palavras, estas, não pronunciadas em vão, mas que encontraram eco no enérgico pedido do bispo de Melfi, na Basilicata, região sulista da Itália, ao chefão da Fiat, Sergio Marchionne, para permitir que os operários da fábrica italiana ali instalada descansem aos domingos, como não era inicialmente previsto. “Um dia de atraso na entrega dos carros não vai produzir prejuízo”, disse o bispo, “enquanto o descanso dos trabalhadores em família será muito benéfico.”

Com o papa Bergoglio, as categorias de luta e de união dos trabalhadores entram na linguagem religiosa corrente, para a simples realização da mensagem cristã. Trata-se de conscientizar o homem do terceiro milênio, sem temor de abrir espaço para inéditos desafios. É o que basta para suscitar alerta máximo entre os modernos vendilhões do templo e os fariseus de qualquer latitude. A xenófoba Liga Norte, na Itália, acaba de encenar um furibundo ataque contra a prática do acolhimento dos emigrados que a Igreja de Francisco está defendendo. Monsenhor Galantino, secretário da Conferência Episcopal e muito próximo ao papa, não ofereceu a outra face, mas tomou o chicote na resposta: “Mercadores de meia-pataca” especulam sobre o sofrimento humano para ganhar votos.