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Número 865,

Política

Entrevista - Luiz Marinho

"PT vai responder pelo sucesso ou insucesso do governo”

por Mino Carta e Sergio Lirio — publicado 04/09/2015 19h03, última modificação 06/09/2015 09h37
Para o prefeito de São Bernardo do Campo, gestão Dilma paga pelos erros cometidos
Wanezza Soares
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Prefeito de São Bernardo, Marinho é fruto do sindicalismo moderno nascido na Vila Euclides

Luiz Marinho não precisa ler o noticiário para compreender o desgaste da imagem do PT. Ele o percebe ali, diariamente, na porta de casa. Prefeito de São Bernardo do Campo, berço do sindicalismo moderno e do partido, Marinho tenta administrar a cidade à revelia da crise política e econômica. Não tem sido fácil. “O massacre midiático tem sido devastador para a imagem do PT”, lamenta. Qual a perspectiva? “A legenda vai penar. Ela é governo e vai responder pelo sucesso ou insucesso do governo.”

CartaCapital: Como tem refletido em sua administração, na cidade de São Bernardo, o desgaste do PT?

Luiz Marinho: Esse massacre midiático cotidiano tem sido devastador para a imagem do PT, embora os moradores de São Bernardo consigam separar essa história toda do meu mandato.

CC: Mas isso terá reflexos fortes nas eleições do próximo ano, não?

LM: O PT vai padecer. Aliás, já tem sofrido. Muitos neopetistas têm optado por deixar a legenda. Provavelmente não vai sobrar um. Acredito, porém, que a situação vai ser diferente em cada cidade, cada região. Nas capitais, onde as campanhas de rádio e tevê são essenciais, haverá mais dificuldade. Em municípios, como São Bernardo do Campo, onde não tem horário eleitoral gratuito, a situação é outra. É mais pé na rua, olho no olho. Dilma Rousseff atrapalha ou ajuda? O governo pode ajudar, mas o fato é que até 20 dias atrás a presidenta estava totalmente ausente do cenário político. Houve uma mudança a partir de então, uma agenda diferente. Caso a Dilma consiga recuperar gradativamente seu índice de aprovação, chegar a 30% daqui a um ano, talvez exerça alguma influência.

CC: Como o senhor avalia os rumos do seu partido?

LM: Muitos dizem que o PT precisa tomar algumas medidas, que Lula precisa viajar o Brasil. Mas o PT é governo. Se o Brasil for mal, não importa o que o partido faça. Vai responder pelo sucesso ou insucesso do governo.

CC: Tem alguma decepção?

LM: Tive várias decepções com companheiros ao longo da vida, mas o partido tem grande responsabilidade pelo que eu sou e me tornei. Tenho gratidão.

CC: Mas o PT se sujou demais...

LM: Mas não se pode negar o massacre midiático. O Paulo Roberto da Costa e o Pedro Barusco nunca foram do partido, mas para a opinião pública eram.

CC: Sim, mas tem José Dirceu, Antonio Palocci...

LM: Até agora não tem nada contra Palocci. Quanto ao Zé, não sei dizer. Os tais 39 milhões de reais vieram de propina? Não posso afirmar.

CC: Surgiu nos últimos meses a proposta de uma frente de esquerda. O PT estaria pronto a abrir mão de seu protagonismo em favor dessa frente?

LM: Lula tem discutido um pouco as possibilidades e atuado para articular diferentes partidos e lideranças. Pode ser um caminho? Pode. Resta saber como executar a ideia. A frente vai absorver todos os partidos? Cada um manterá sua autonomia?

CC: Tratar-se-ia de dissolver os partidos?

LM: Creio que não. As alianças existem, o importante é traduzir esse protagonismo de cada liderança. Dilma poderia exercitá-lo em parceria com Michel Temer. Infelizmente não tem acontecido. Talvez o Lula seja o único em condições de liderar essa tarefa.

CC: O senhor é sindicalista de origem. Como encara as críticas de que o movimento sindical foi cooptado pelo governo?

LM: O fato de o Brasil ter enfrentado menos greves nos últimos anos não significa cooptação. O País crescia, gerava empregos. Os acordos coletivos não só repunham a inflação como proporcionavam ganhos reais aos trabalhadores. Por que ocorreriam greves? Basta o cenário mudar para ver o que acontece. Aliás, tem mudado. As manifestações no dia 20 de agosto foram contra o golpe, o desrespeito ao voto, mas também por mudanças na política econômica, a favor da manutenção de conquistas recentes dos trabalhadores. Quatro anos atrás, quando o reflexo da crise não tinha alcançado a massa trabalhadora, a defesa do governo seria mais explícita. No ano passado e neste, por circunstâncias da economia, os acordos coletivos pioraram.

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"São Bernardo continuará forte na indústria e vai atrair cada vez mais serviços." Créditos: Thales Stadler/ Estadão Conteúdo

CC: Por circunstâncias da economia ou por opção da Dilma?

LM: Há de fato uma crise mundial. Não dá para dissociar.

CC: Assim como não se pode ignorar o fato de ela ter escolhido um ajuste fiscal e nomeado o Joaquim Levy ministro da Fazenda. 

LM: Seguramente, eu não o teria colocado lá.

CC: O senhor diria que ela traiu promessas de campanha?

LM: O governo cometeu erros desnecessários no passado, que reduziram sua margem de manobra. Segurou o preço da gasolina demasiadamente e isso sangrou a Petrobras. Não soube avaliar a possibilidade de uma crise hídrica quando reduziu forçosamente as tarifas de energia. A própria taxa de juros foi cortada de forma artificial e hoje somos obrigados a conviver com esse porcentual vexaminoso, desnecessário.

CC: O senhor começou a trabalhar como metalúrgico em São Bernardo do Campo em 1978. Hoje é prefeito. Como foi o impacto da transição de uma cidade industrial para uma de serviços?

LM: Há certo equívoco na avaliação de São Bernardo. Ela continua industrial. Aconteceu uma modernização da indústria. Comecei a trabalhar na Volkswagen em 1978. Hoje, a montadora produz mais do nas décadas de 70, 80, mas com menos operários. Ocorreu, no caso do setor automobilístico, uma descentralização. Antes, as montadoras estavam todas concentradas no ABC Paulista. Agora, espalham-se pelo resto do Brasil. São Bernardo continua, porém, com um parque industrial invejável.

CC: O futuro da cidade continua, então, a ser industrial?

LM: São Bernardo continuará forte na indústria e atrairá cada vez mais serviços. Há 15 anos, as classes A e B da cidade não tinham onde comprar no ABC. Vinham todos a São Paulo. A realidade mudou. Antes desse período de baixa do governo Dilma Rousseff, chegamos ao ponto de faltarem galpões industriais, dada a procura. De uns dois anos para cá, as consultas cessaram.

CC: Por que é tão difícil, principalmente nas regiões metropolitanas, superar problemas do século XIX, tais como a falta de saneamento básico ou a mobilidade urbana?

LM: Temos muitos problemas de gestão e também de falta de recursos. Neste momento o dinheiro é escasso. Mas falemos do caso de São Bernardo. Fui eleito em 2009, peguei dois anos do governo
Lula, um período de investimentos fortes. Meu antecessor governou por seis anos durante os anos Lula. O que ele conseguiu em prol da cidade? Nada. Zero.

CC: Por incompetência?

LM: Incompetência. Opção política. Ele é do PSDB. Quando ministro, fui visitar o prefeito e disse: “O presidente tem residência em São Bernardo, gostaria de ajudar a cidade”. A prefeitura não apresentou um único projeto. Já o Gilberto Kassab, antes de se tornar um aliado, tirou grande proveito durante seu mandato na capital. Fora isso, existem muitos balcões de negócios nas cidades. A preocupação maior é fazer o balcão funcionar, não desenvolver o município. 

CC: Podemos dizer que se trata de um problema nacional.

LM: Sim. Em São Bernardo temos procurado planejar o futuro, pois as ações cotidianas são uma obrigação, não uma dádiva de quem administra uma cidade. Conseguimos atrair a fábrica da Saab, a empresa sueca que vai fornecer os caças para a Aeronáutica. Em média, as prefeituras investem 0,7% do Orçamento em habitação. Reservamos 8,3%. Não é só construir casas. Levamos cultura, esporte, mobilidade, educação, regularizamos as áreas de risco, urbanizamos favelas. Investimos 350 milhões no Programa Drenar, para acabar com as enchentes históricas no Centro. Nosso maior esforço tem sido projetar as necessidades da população para além do período de um ou dois mandatos. Tudo isso em um processo participativo. Os conselhos de Orçamento, formados por representantes do governo e da sociedade, decidem os investimentos. Nosso objetivo é estimular a participação cidadã. O século XXI exige uma gestão mais democrática das cidades.

*Entrevista publicada originalmente com o título "Na alegria e na tristeza"