Você está aqui: Página Inicial / Revista / Dilma complica Dilma / Luz monumental
Número 865,

Cultura

Plural

Luz monumental

por Ana Ferraz publicado 04/09/2015 20h31, última modificação 04/09/2015 20h36
Livro revisita a trajetória de Marianne Peretti, modernizadora do vitra
Acervo da Artista
peretti-plural

Marianne em casa, em Olinda.

Aos 14 anos, Marie Anne Antoinette Hélène Peretti é uma rebelde reincidente. Depois de ser expulsa do Lycée Molière por fugir das aulas para desenhar em museus, é convidada a deixar o Lycée Victor Duruy pelo mesmo motivo. Parece certo que a menina nascida em Paris em 1927, fruto da união entre uma modelo francesa, Antoinette Louise Clotilde Ruffier, e um historiador pernambucano, João de Medeiros Peretti, ouviu o chamado da arte. Aos 15 anos, torna-se a aluna mais nova da École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs e pouco depois começa a frequentar a notável Académie de la Grande Chaumière, em Montparnasse. Ali, cursos livres ventilados pela renovação atraem Amedeo Modigliani, Louise Bourgeois, Joan Miró, Alberto Giacometti e muitos outros artistas.

Em 1952, Marie Anne faz sua primeira exposição individual na Galeria Mirador, na Place Vendôme, famosa por revelar talentos de grande potencial. Os desenhos e guaches da jovem de 25 anos atraem o interesse de Jean Anouilh, Blaise Cendrars, Marcel Aymé, Jules Romains, e Moïse Kisling, expoentes da roda de intelectuais e artistas com quem a moça elegante de traços finos convive. Entre os visitantes, um homem aproxima-se de Marianne e sem preâmbulos lhe diz: “Você não é uma artista burguesa.” O sujeito de olhos esbugalhados e bigode em riste é Salvador Dalí. O catalão notara a força e expressividade dos desenhos da artista, que havia algum tempo assinava Marianne Peretti, um modo de se diferenciar de uma colega de liceu de nome parecido. Providência desnecessária, pois a menina que aos 10 anos escapava da vigilância paterna para visitar sozinha a casa de Honoré de Balzac era suficientemente singular.

No fim dos anos 1970, Marianne será a única mulher na equipe de Oscar Niemeyer encarregada de criar obras de arte para Brasília. “Era tudo de repente e tudo muito rápido, porque a cidade estava sendo inventada e tínhamos de nos adaptar a esse ritmo. De fazer o melhor em pouco tempo”, recorda. A primeira obra foi um vitral para a capela do Palácio do Jaburu, um sinuoso painel de vidros de texturas diferentes, tons e semitons de azul, branco e respiros sem nenhum material. Os reflexos abstratos no chão e na parede, projetados pela entrada da luz, criam uma cenografia própria, um clima que conjuga o etéreo e o sagrado. A cor predileta de Marianne, o azul, seria a grande estrela de sua obra mais conhecida, a alma colorida da Catedral de Brasília.

O edifício foi construído entre 1958 e 1960, os vitrais, entre 1987 e 1989. O arquiteto conversara várias vezes com ela sobre a necessidade da obra. “Eu tinha certo medo do tamanho dessa catedral, e sempre respondia: ‘O céu de Brasília é tão bonito, não precisa de nada mais que vidros... O céu é cheio de imagens, movimentos’. Ele insistia que não, catedral tinha que ter vitrais. Foi quando vi que não podia mais fugir dessa conversa.”

peretti-expo
Na capela do Palácio do Jaburu, o sinuoso painel cria um ambiente entre o etéreo e o sagrado. Créditos: Acervo da artista

Muitas foram as dificuldades, a começar por encontrar o material adequado, numa época em que a importação era proibida. Um artesão acabou por produzir os 16 vitrais, cada um com 10 metros de base e 30 de altura. “Me emocionava vê-la durante meses debruçada a desenhar os vitrais. Eram centenas de folhas de papel vegetal que coladas representavam um gomo da catedral”, escreveu Niemeyer.  

O trabalho exaustivo provocou uma escoliose que a artista carrega até hoje. Mas poder “criar uma fantasia”, como Marianne se refere às muitas obras que fez para a cidade, entre murais, esculturas e vitrais, tudo compensava. Convidado a avaliar o trabalho da artista, o crítico Jacob Klintowitz escreve que, independentemente da escala, a obra de Marianne “é sempre monumental”. 

O invólucro de vidro que atravessado pela luz solar projeta suaves ondulações de azul, verde e branco dentro da catedral surpreendeu Lucio Costa. Em carta agradece à artista “que soube tão bem ‘dar à luz’ o interior da Catedral de Brasília, problema difícil que somente uma alma como a sua e um saber como o seu seriam capazes de resolver. Em nome da cidade, o inventor dela agradece a você”. Niemeyer rendeu-se “ao desenho magnífico, livre, solto, coberto de coragem e fantasia”.

Marianne, que aos 87 anos ganha o primeiro livro sobre sua obra, atribui o efeito mágico de seus vitrais à luz dos trópicos, que aprecia em sua ampla e verdejante casa em Olinda, onde segue na criação. “Os vitrais tradicionais só permitem o reflexo da figura em vidro, os dela criam desdobramentos, projeções na parede, no chão. Ela usa a potência da luz tropical para que a obra transcenda”, afirma Tactiana Braga, coordenadora do projeto que inclui o livro Marianne Peretti – A Ousadia da Invenção, a ser lançado em setembro no Sesc Pompeia, em São Paulo, e um documentário em fase de finalização.

A pesquisadora francesa Véronique David, especialista em vitrais do século XX, credita o relativo desconhecimento da obra de Marianne ao fato de sua arte se unir a obras de excepcional arquitetura, a maioria assinada por Oscar Niemeyer. “Acrescente-se a hierarquização excessiva feita entre as artes, em que o vitral é muitas vezes considerado inferior, ainda que esteja longe de ser um mero ornamento.”Para a estudiosa, o vitral tem o poder de dar e retirar a alma da arquitetura. “Não é uma arte de superfície, ele esculpe a luz, e por esse meio interfere na percepção do volume e do espaço.” Segundo Véronique, foi essa arte, “de uma complexidade inimaginável, que Marianne Peretti soube admiravelmente exercer com uma profunda compreensão do monumento”.