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Número 865,

Cultura

Turismo

Enigmas chineses

por Redação — publicado 04/09/2015 17h02
Mais do que um guia – um jeito de decifrar os códigos e as delícias do ex-Império do Meio
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Dia e noite. Xangai imita a balada de Nova York. Créditos: Philippe Lopez/ AFP

Ciceronear um viajante estrangeiro pela China – observou a jornalista gaúcha Janaína Camara da Silveira, que por sete anos, de 2007 a 2014, morou por lá – exige mais do que a mera catalogação de hotéis, restaurantes, lojas, sítios históricos, ícones arquitetônicos, essas coisas que movem o turista acidental. A China é um permanente exercício de decifração, você tem de ir além do que ver e do que fazer – tem de entender como ver e como fazer. 

A novidade do guia China: O melhor de Pequim e Xangai, que Janaína escreveu, com a colaboração da também émigrée Fernanda Morena, é introduzir o turista nos códigos de um povo teimosamente monoglota e de uma civilização milenar cujos hábitos, no entanto, vêm se transformando de maneira vertiginosa e às vezes inesperada. É como se fosse um guia que traz consigo uma bula, “um manual de sobrevivência”. 

Janaína e seu guia sugerem que ninguém precisa se intimidar com os enigmas do antigo Império do Meio.

Ela própria é um exemplo. Teve dois meses para fazer as malas ao ser convidada a assumir a seção de Língua Portuguesa da agência oficial de notícias, Xinhua. “Eu nunca tinha ido à China, não tinha a menor noção de mandarim e o máximo que fiz foi juntar à bagagem três livros”, lembra. Um sobre a história chinesa e dois assinados pela chinesa expatriada Jung Chang: o romance Cisnes Selvagens e a biografia do presidente Mao, em coautoria com seu marido inglês e historiador Jon Halliday. Livros de valia muito limitada, diga-se.

O guia de Pequim, Xangai e respectivos arredores deleita-se em apreciar os novos totens da arquitetura high tech das duas principais – “e tão diferentes” – cidades da China, prédios, museus e arenas monumentais cujos projetos não saíram de uma única prancheta local. Trazem, ao contrário, a assinatura de monstros sagrados suíços (o Ninho de Pássaro, de Herzog & de Meuron), ou japoneses (Kengo Kuma desenhou o centro comercial Sanlitun Soho), ou holandeses (Rem Koolhaas, com o alemão Ole Scheeren, concebeu a Torre da CCTV), ou franceses (Paul Andreau, o Centro Nacional de Artes de Pequim), ou australianos (o centro aquático Cubo d’Água, na capital). “No quesito pós-moderno, os arquitetos chineses estão apenas começando”, constatou Janaína. 

A China choca com suas paisagens radicalmente contrastantes e o guia capta a dialética do novo e do velho ao se esgueirar, por exemplo, pelas ruelas sobreviventes das vizinhanças do Palácio Imperial de Pequim, os hutongs, com seu emaranhado de cortiços e puxadinhos dos quais a revolução urbanística não poupou se não uns 600 becos. Do mesmo modo, documenta, naquela Xangai que tem ares vertiginosos de metrópole do século XXII, as relíquias imperiais do maior acervo de art déco do mundo – maior até que o de Paris. 

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A Praça da paz Celestial, em Pequim.

“Ainda que eu tivesse vontade de incluir outras cidades, Pequim, que se estende por um território igual a meia Bélgica, e Xangai, que não fica atrás, são a síntese de uma China que sempre desafia o olhar estrangeiro”, diz Janaína. Depois de folhear esse guia minucioso, nem por isso desapaixonado, fica impossível escapar à sedução de desvendar o antigo Império do Meio.

Monumentos de sempre

A Praça Tiananmen, em Pequim, com o Mausoléu de Mao e a memória do momento icônico em que um cidadão anônimo desafiou um tanque de guerra, nos protestos de 1989, é obrigatória, assim como a Cidade Proibida, o maior complexo imperial do mundo (uma super Versalhes construída por mais de 1 milhão de escravos entre 1406 e 1420). Mas o guia recomenda, com especial entusiasmo, um passeio até a Grande Muralha, seguindo o roteiro tradicional de trem e ônibus e, quem sabe, desfrutando da experiência típica do pernoite na casa de Lao Chen, a 30 minutos de caminhada em meio à mata.  

Um prédio moderno para se ver

Naquele amontoado de experiências high tech que é Xangai, a Torre Jinmao destaca-se, na imponência de seus 88 andares que simulam antigos pagodes. Projeto de 1999 dos americanos Adrian Smith & Partners. Já na Pequim dos arranha-céus igualmente ciclópicos, o guia recomenda o Soho Galaxy, que não é tão famoso porque abriga um shopping center meio fracassado. O desenho é da iraquiana de nacionalidade inglesa Zaha Hadid, inspirado nos terraços de arroz das províncias de Yunnan e Guangxi. 

O melhor pato de Pequim

É o do Duck de Chine (também os chineses acham o idioma francês gastronicamente chique). O décor é contemporâneo, o restaurante podia estar em Nova York ou Frankfurt. Mas o pato laqueado do lugar segue a mais tradicional das receitas (1949 The Hidden City Courtyard 4). Uma opção com clima local é o Dadong, onde a delicadeza oriental vem amparada com uma bela seleção de vinhos e cervejas ocidentais.

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No mercado de Pequim, espetinho de escorpião.

O melhor dim sum

Aqueles pasteizinhos cozidos ao vapor e recheados de caranguejos (ou frutos do mar, ou porco, ou carne, ou verduras), requinte da gastronomia cantonesa, encontram seu estado da arte no Dintaifung, que veio de Taiwan para Pequim e hoje reside em outros oito países, inclusive Estados Unidos e Grã-Bretanha. Em Xangai, o melhor dim sum é o do Royal China, no terceiro andar do Hotel Longemont (Yan’an Xi Lu, 1116, distrito Jing’an). Experimente o dim sum de lagosta.

Exóticos e insondáveis

Você não foi à China se não comeu um espeto de escorpião naquele mercado noturno de Donghuamen, em Pequim – que fica aberto até o nascer do sol (Donghuamen Meshifang Yeshi, distrito de Dongcheng). Para experiências de paladar ainda mais radicais, Donghuamen oferece também enguias, tarântulas, pênis de cabrito e outras iguarias de procedência nem sempre identificável.

Bálsamo para o corpo

 É possível para um turista experimentar em Pequim os efeitos ancestrais daquelas agulhas atuando no fluxo do qi (pronuncia-se tchi), a energia vital. No Hospital Dongzhimen da Universidade de Medicina Chinesa, você tem de marcar hora com antecedência. Mas há clínicas particulares como aquela do The Hutong ou a Straight Bamboo Clinic, onde também se atende piedosamente em inglês. Se o seu desejo for simplesmente o de uma boa massagem, um dos bons endereços é o do Dragonfly (Donghuamen Dajie 60, distrito de Dongcheng). O guia adverte: fuja da massagem guasha. É tão dolorida que vai deixar você estropiado.

Onde comprar

O Shin Kong Place, de Pequim, é o sonho de consumo dos brasileiros abonados. Abriga 930 grifes de luxo – e fique tranquilo, peças originais da Gucci, da Hermès, de Versace, de Armani, nada de cópias. É o maior shopping da China (Jianguo Lu 87, distrito de Chaoyang). Xangai, mais ainda, é o eldorado do consumo suntuário, mas, para quem busca alguma novidade, fica aqui a sugestão de mergulhar nos eletrônicos, eficientes e baratos, no mercado de Quijang Lu (onde proliferam gadgets confiáveis de segunda mão). Bem menos turístico, o Hongqiao Pearl Market (Hongmei Lu, 3.721, distrito de Hongqiao) pode ser uma descoberta e também uma cilada. O primeiro andar é o paraíso das falsificações. Nos pisos superiores, pérolas autênticas. O artesão pode fazer a joia se você preferir levar seu próprio design. Os tapetes são também incríveis. Mas, como em todo o Oriente, a graça é barganhar o preço. 

Da noite ao dia

Não se enganem com aquele jeitinho caipira e silencioso do chinês de gibi. Tanto Pequim quanto Xangai adoram uma balada e são cidades que fazem da noite uma movida parecida com aquela de Madri e Barcelona. Uma profusão de bares e night clubs de nomes geralmente ocidentais esperam pelos corujas e pelos boêmios. A Mao Live House de Pequim, com essa ironia toda estampada na fachada, foi reduto pioneiro do rock chinês. Na Xangai que não dorme, o Bar Rouge descortina, de seu terraço no sétimo andar, uma vista deslumbrante de Pudong. Sem hora para fechar.

Segredo ao pé do ouvido

Não chega a ser a Savile Row de Londres, mas artesãos de fino corte são capazes de, na Rong Xin Tailor – Wuzhou Friendship Store de Pequim (Gongti Beilu, 6, Zhangyu Plaza, distrito de Chaoyang), produzir um impecável terno su misura em 72 horas e com preços que cabem em qualquer bolso.