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Número 865,

Política

Análise / Vladimir Safatle

Depois das utopias

por Vladimir Safatle publicado 03/09/2015 04h38
Se não há nada mais a esperar, talvez as condições para modificações políticas profundas estejam no presente
Andreas Scheits
Gottfried-Wilhelm-Leibniz

Há sempre liberais dispostos a ser um Leibniz das finanças e falar que este é o melhor mundo possível

É comum ouvirmos a afirmação de vivermos em um tempo desprovido de utopias. Alguns veem nisso sua maior fraqueza, outros sua força mais sábia. Quando se diz que nosso tempo é desprovido de utopias, diz-se que, para o bem ou para o mal, que o tempo se reconciliou com suas formas atuais. O que pode significar duas coisas distintas.

Em uma primeira versão, nosso tempo é marcado pela melancolia de quem sabe que suas promessas de superação foram perdidas. Nesse caso, a reconciliação do tempo seria uma reconciliação melancólica, resultado da diminuição de nossas expectativas de transformação. Temos nostalgia de uma época marcada pelas utopias e nada pareceria ter a força de reinstaurá-la. 

Mas dizer que nossa época é desprovida de utopias pode querer dizer também, de certa forma, que o establishment seria uma certa “utopia realizada”. Não são poucos os que procuram transformar os modos de vida liberais e as formas políticas, próprias do nosso tempo, em horizonte utópico final do processo de modernização social. Um pouco como a temática do “fim da história” e o último homem. Independentemente das crises, há sempre liberais dispostos a ser um Leibniz das finanças e falar que este é o melhor mundo possível. Se Deus não criou outro é porque fora do mundo liberal só há catástrofes.

De toda forma, tanto em um caso como em outro, há a defesa de que nossa época seria uma época reconciliada com suas próprias formas ou, ao menos, reconciliada com as dinâmicas próprias a animar a atualidade de suas formas. Como se não houvesse mais acontecimentos fundadores a esperar. No máximo, acontecimentos catastróficos ou confirmadores de nossas formas de vida.

Nesse sentido, uma bela questão é: precisamos mesmo da utopia para defender a força de transformação da política. Percebam que um tempo marcado pela utopia é um tempo de expectativa, ou seja, tempo no qual o presente é marcado pela expectativa de que algo previamente projetado aconteça. Por isso, o tempo da utopia é carregado de esperança. 

Mas talvez a esperança seja um afeto inadequado para agir politicamente. Quem tem esperança, tem a expectativa de que um bem possível se realize. Como se trata de um possível, ele também pode não ocorrer. Esperança não é segurança. Ou seja, quem tem esperança tem, ao mesmo tempo, medo de que o desejável não ocorra. Como dizia Spinoza, não há esperança sem medo nem medo sem esperança. Mas lá onde há o medo como afeto político, há sempre paralisia, tentativa de imunização contra a contingência e acontecimentos impredicáveis. 

Nesse sentido, poderíamos dizer que um tempo de esperança é, necessariamente, tempo que teme a contingência, que teme esses acontecimentos não previstos no interior de nossas utopias, que não foram projetados previamente. No que poderíamos nos perguntar se as utopias não seriam, também, uma forma de ficarmos cegos para acontecimentos que parecem nos desnortear, sair de nossas projeções. Ela não só nos permite ver o que ainda não tem realidade. Ela também faz não vermos o que somos incapazes de prever. 

Diria que uma das grandes tarefas da filosofia política contemporânea é pensar uma política que não se oriente a partir da tentativa de nos defender de contingências e acontecimentos que desorientam nossas teleologias. Antes, precisamos de uma reflexão política fundada na capacidade de se abrir à contingência e ao desamparo que sua ocorrência nos produz. Talvez assim saberemos estar à altura de acontecimentos que perdemos por tentar compreendê-los apenas a partir de esquemas que lhe são exteriores. 

A primeira condição seria nos livrarmos de um tempo da expectativa, abandonarmos nossos horizontes de expectativa, para reconciliar-se com o presente absoluto. Mas isso somente é possível sob a condição de compreendermos o presente de outra forma. Não o presente como um instante autárquico e coeso, mas como um tempo com muito mais camadas, muito mais tensões, muito mais contradições, sobredeterminações e movimento do que alguns querem nos fazer acreditar. Nesse sentido, dizer que não há nada mais a esperar pode significar também: todas as condições para modificações profundas já estão no presente.