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Número 864,

Cultura

Brasiliana

Luciano Candisani capta a vida silvestre na Mata Atlântica

por Cinthia Rodrigues — publicado 29/08/2015 09h14
Seus estúdios camuflados tornaram-se uma verdadeira sala de aula de fotografia para interessados em registros da natureza
Luciano Candisani
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“Os animais não andam aleatoriamente. Seguem rotas definidas e, com frequência, usam trilhas abertas por nós”

Quando era criança e passava os dias livres em Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, Luciano Candisani imaginava histórias fantásticas sobre os bichos que habitavam as montanhas nas cercanias da praia. Embora nunca tenha encontrado grandes animais nas trilhas, a busca determinou sua história de vida. 

Ainda adolescente, Candisani tornou-se fotógrafo mergulhador. Formou-se em Biologia e embarcou em expedições para a Antártica e o Pantanal. Em 18 anos de carreira, viu muitos animais de perto, muitas vezes às centenas. Seus registros o levaram a ser o único fotógrafo brasileiro a participar da edição internacional da revista National Geographic

Candisani publicou livros estrelados por jacarés, tartarugas, macacos, onças, araras, baleias e albatrozes, todos muito à vontade em seus ambientes naturais. Foi, no entanto, um simples lagarto teiú que o levou a se reencontrar com seu projeto de infância. 

O evento passou-se em 2012, quando o fotógrafo perambulava por uma reserva privada em Juquiá, cidade no Vale do Ribeira, a menos de 100 quilômetros das praias de sua infância. “Percebi que a floresta não é um conjunto de árvores, não é silenciosa como assumimos. Pensava que ali havia uma fauna invisível, quando uma onça passou pelo nosso carro e comecei a planejar uma forma de registrar aquilo”, lembra.

 No ano seguinte, Candisani voltou ao local para auxiliar um grupo de pesquisadores que iniciavam um projeto de negócio sustentável para o Legado das Águas – Reserva Votorantim, área particular de 310 quilômetros quadrados pertencente há 50 anos ao grupo empresarial de mesmo nome. A área é maior que a cidade de Santos, com terras espalhadas por Miracatu e Tapiraí, além de Juquiá.

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A inédita imagem de uma anta albina, animal lendário entre os moradores da região, foi capturada por um dos “estúdios camuflados” na Reserva Votorantim. Créditos: Luciano Candisani

No fim de 2013, o fotógrafo enterrou fios e equipamentos e instalou pequenas lâmpadas em duas trilhas usadas por animais. Semanalmente, técnicos vistoriam as instalações e corrigem os danos causados por fungos ou pela chuva. Todo mês, Candisani sai de Ilhabela, onde mora, para verificar o resultado. Algumas fotos foram reunidas no livro A Sustentabilidade de Uma Reserva, publicado pela Votorantim neste ano. “Não se trata de apenas registrar a passagem das espécies. São estúdios na natureza para mostrar a beleza da fauna no contexto.” 

Os equipamentos instalados capturaram dezenas de animais de comportamento elusivo, como gosta de repetir o autor. “Os animais não andam aleatoriamente pela mata. Seguem rotas definidas e, com frequência, usam as trilhas abertas por nós. Todos prezam pelo menor esforço.” 

Logo de cara, Candisani conseguiu capturar a imagem de dois cachorros-do-mato-vinagre, espécie muito frágil, especialmente sensível a doenças de animais domésticos. “Era uma demonstração da saúde da floresta.” No ano passado, uma anta albina passou perto de um dos estúdios a céu aberto. “Moradores falavam de um animal assim em tom de lenda. Quando eu vi, meu coração disparou. Era um caso raro de albinismo na espécie, o primeiro registrado em natureza.” A foto foi publicada em uma das edições da National Geographic, vendida em 15 países e celebrada pelos documentaristas de meio ambiente. 

O projeto não tem data para acabar. Os estúdios camuflados tornaram-se uma verdadeira sala de aula de fotografia para interessados em registros da natureza em workshops, que fazem parte do plano de negócios em desenvolvimento para a manutenção da área. Desde 2012, o mosaico de terras que compõem o Legado das Águas funciona como Reserva Particular de Desenvolvimento Sustentável (RPDS) e é sede de estudos em parceria com o governo estadual, prefeituras da região, universidades, organizações de preservação e a Votorantim. Entre os projetos, estão registro de espécies para reflorestamento, estudos da indústria farmacêutica e identificação de animais raros e em extinção. “No Brasil, estamos tão acostumados com os animais da Mata Atlântica, inclusive a anta, que não causou a mesma reação. Acho que isso define bem nossa relação com a floresta: não temos o olhar estrangeiro para se deslumbrar, mas, de todo jeito, temos um repertório de sentimentos que quero acionar com essas fotos”, afirma Candisani.