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Número 864,

Economia

Nosso Mundo

A economia da China abala o mundo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 24/08/2015 14h34
Quando uma economia é tão grande e dinâmica, mesmo uma correção de rumo pode sacudir o mundo. Quanto mais se não for inteiramente bem-sucedida
Johannes Eisele/AFP
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Pequim quer uma moeda e um setor financeiro capazes de disputar a hegemonia com os EUA e não vai deixar o "livre mercado" atrapalhar

Modificar de repente a política econômica de um país como o Brasil é como mudar o rumo de um elefante no meio de uma feira lotada. Seria um milagre não ferir ninguém nem causar prejuízos, mesmo para um cornaca experiente. Para guardar as proporções ao fazer a mesma metáfora para a China, uma economia várias vezes maior e mais dinâmica, seria o caso de imaginar uma tentativa de fazer Godzilla dar uma guinada em meio a uma carreira disparada. 

Foi exatamente a isso que se propôs o governo chinês em 2008, ante a crise que pôs fim ao sistema “Chimérica”, no qual cabia aos chineses produzir, exportar, poupar e financiar e aos estadunidenses consumir, importar, gastar e tomar emprestado. Depois de impulsionar por muitos anos o crescimento do comércio internacional e das exportações chinesas, o déficit de conta corrente e o endividamento crescente dos EUA haviam chegado ao limite. O novo caminho era trocar o modelo de desenvolvimento baseado nas exportações, vigente desde o fim do maoismo, por outro alicerçado no consumo e no mercado interno. Mais cedo ou mais tarde seria necessário, sabiam os dirigentes chineses desde, pelo menos, o início do governo de Hu Jintao (2003-2013), mas a antecipação da manobra em clima de crise internacional não podia deixar de aumentar os riscos hoje enfrentados por Xi Jinping.

Nem tudo tem saído às mil maravilhas. Em julho, as bolsas chinesas caíram 30%, o que anulou 3,5 trilhões de dólares em valor de mercado teórico das empresas chinesas. No início de agosto, depois de mais de dois anos de câmbio praticamente fixo, a China desvalorizou o yuan sem aviso. Alguns indicadores econômicos mostram um comportamento negativo como há muito não se via, várias das medidas das autoridades chinesas parecem absurdas à ortodoxia neoliberal e há quem fale de falsificação de dados oficiais para ocultar um colapso iminente. 

O nervosismo dos analistas econômicos é compreensível e até certo ponto justificado, mas na escala chinesa os acontecimentos se parecem menos com um apocalipse do que com deslizes dentro de uma trajetória mais ou menos planejada, apesar de sujeita a imprevistos e correções. O que não significa que não possam ter consequências para o país e o mundo.

Comparar o gráfico do índice da Bolsa de Xangai a gráficos do Dow Jones em 1929 ou 2008 é tão impressionante quanto enganoso. Apesar do tamanho, o mercado acionário é volátil e tem pouca relação com a economia real. De outubro de 2007 a março de 2008, as bolsas caíram 45%, mas em 2008 a economia cresceu 9,6% em um ano de recessão no Ocidente. 

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Em junho de 2015, logo antes de começarem a cair, vinham de alta de 149% em 12 meses e as ações eram cotadas, em média, a 68 vezes o lucro esperado, ante 27 vezes nos EUA ou 16 vezes em Hong Kong. O volume de ações negociáveis é pequeno em relação à capitalização teórica do mercado e a maior parte refere-se a estatais. Das dez maiores empresas na Bolsa de Xangai, só uma, a seguradora Ping An (em sétimo), é teoricamente privada e mesmo esta tem figurões do Partido Comunista como executivos e acionistas.  

As ações representam apenas 5% do financiamento do setor privado e somente 9% das famílias têm contas para negociá-las, ante quase 50% nos EUA. No pico, as ações somaram 13% dos ativos financeiros das famílias, na maior parte depósitos bancários. É pequena a fração das ações em mãos estrangeiras: 1,5% se excluídos papéis cotados no exterior, 11,4% se estes forem incluídos. Assim, a alta ou queda das bolsas não tem efeito substancial no investimento ou no consumo. Não dizem respeito às massas nem à maioria dos poupadores maduros de meia-idade ou mais velhos, mas a jovens especuladores ambiciosos e afeitos ao risco. 

É verdade que o mercado chinês provavelmente teria caído 50% ou mais, em vez de 30%, se o governo não interviesse com suspensão da negociação de quase metade das 2,7 mil empresas de capital aberto, baixa de juros, pressão para compra por fundos de pensão e proibição de venda por seis meses a acionistas com mais de 5% do capital. 

Aos olhos de analistas ocidentais foi uma intromissão indevida e artificial a ser oportunamente punida pelo mercado. Mas Pequim dá mais ouvidos a Confúcio e Marx do que a Mises e Hayek, e julga ser papel do governo disciplinar a irracionalidade do mercado, não se submeter à manada. O risco não é tanto de falências em massa quanto o de o descrédito das bolsas como investimento sério prejudicar planos de longo prazo de torná-las mais úteis. Convém lembrar o Brasil de 1971, quando a Bovespa caiu 50%. Isso não impediu a economia de crescer 11,3% naquele ano e continuar a acelerar até 14% em 1973, mas os investidores, escaldados, não quiseram mais saber de ações. Apesar dos incentivos fiscais, por décadas as bolsas brasileiras praticamente estagnaram e se tornaram inúteis para a captação de recursos por empresas.

Quanto ao câmbio, por que a desvalorização não veio mais cedo e não foi maior? No início de agosto de 2015, o câmbio do yuan, cerca de 6,2 por dólar, era praticamente igual ao de dezembro de 2012, enquanto o euro caiu 17% e o iene, 30%. A resposta é que a prioridade da China era incentivar o consumo, o mercado interno e a modernização da economia e evitar a fuga de capitais. Para isso convinha uma moeda valorizada, até certo ponto. 

A desvalorização das moedas de clientes e concorrentes ante o dólar, puxada pelas flexibilizações quantitativas do Banco Central Europeu e do Banco do Japão, superou o esperado, a retração do setor exportador foi maior que a prevista e, somada ao esfriamento do setor imobiliário, provocou queda da produção de insumos, uma tendência à deflação e a ameaça de desemprego e inquietação social. Ao contrário da União Europeia, que julga natural demolir a sociedade e a economia de países inteiros para adequá-los às exigências “da moeda”, isto é, do setor financeiro que a domina, a China a considera um mero instrumento do desenvolvimento e não vê razão para privilegiar seus manipuladores sobre a produção.

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A crise de 2008 forçou o governo a acelerar a transformação de um PIB feito de indústria e exportações em uma economia alicerçada em serviços e consumo interno. Mas a guinada tem seus trancos e barrancos

Pequim apresentou a mudança como uma flexibilização para dar ao mercado um papel maior na sua determinação da taxa de câmbio e tornar o yuan mais confiável como moeda de reserva internacional (é hoje a quinta em importância para pagamentos internacionais, depois do dólar, euro, libra e iene) e com isso ganhou um elogio do FMI, mas deixou a cotação flutuar apenas no sentido e na medida desejados e conteve a queda quando a julgou suficiente. Quem aposta que a desvalorização de 4,5% não bastou e a moeda chinesa terá de se desvalorizar 15% ou 20% deveria pensar duas vezes. Se houver um acirramento da presente guerra cambial não declarada, não será por sua iniciativa. O objetivo de Pequim não é, nem pode ser, retornar à via do modelo exportador, mas ajustar a curva para o novo caminho.

Um indicador da virada para o mercado interno é que em 2015, pela primeira vez, o setor de serviços representará mais de 50% da economia, ante 44,6% em 2012, 41,4% em 2005, 39,8% em 2000, 32,4% em 1990 e 22,2% em 1980. Ainda é baixo em relação a países ricos (80% no Reino Unido, 78% nos EUA, 72% no Japão) e mesmo aos principais emergentes (Brasil 71%, Índia 54%), mas a irreversibilidade da mudança é clara. A “fábrica do mundo”, que em 2014 se tornou o maior PIB do planeta pelo critério de paridade de poder aquisitivo, quer se tornar também o maior dos shopping centers. Hoje é o segundo e seu mercado de consumo ainda é a metade dos EUA, mas não há razão para duvidar de que esse objetivo será alcançado.

Nesse processo, muitas indústrias que construíram a China tal como a conhecemos se dão mal. A siderurgia deixou para trás o seu auge e neste ano deve cair 2%. A produção de carvão recuou 4,5%, a de cimento 5,3%, a de caldeiras 13,5%. O volume de carga transportada pelas ferrovias no primeiro semestre caiu 10% e as exportações 8,3%. A produção de veículos cresceu só 2,6% e o consumo de energia elétrica 1,3%. Isso significa que a economia estagnou e o crescimento de 7%, oficialmente mantido no primeiro semestre, é uma fraude? Não necessariamente. A indústria cresceu 6%, um pouco abaixo do esperado, mas os investimentos em ativos fixos aumentaram 11,4%, o varejo 10,5% e o PIB de serviços 8,4%. Se o crescimento ficar aquém da meta, não será de modo catastrófico. É prudente, no entanto,  amortecer a queda dos setores tradicionais e dar mais tempo à adaptação de empresas e trabalhadores.

As expectativas de indústrias que esperavam arrebatar mercados dos chineses a curto prazo, principalmente no Sudeste Asiático, podem ter de ser adiadas e as consequências podem ser mais severas para setores cujos investimentos foram concebidos em função de uma projeção linear do crescimento físico da indústria chinesa. Por si, a queda da cotação do yuan tende a derrubar proporcionalmente os preços das commodities cuja demanda é dominada pela China, tais como petróleo, minério de ferro, cobre, alumínio e soja. A situação pode piorar se projetos de mineração e infraestrutura concebidos para atender ao mercado chinês e prestes a entrar em operação deflagrarem uma guerra de preços para tentar se livrar do excesso de oferta. 

Em uma perspectiva de longo prazo, os atuais problemas podem não passar de um solavanco em um processo bem-sucedido no atacado. Desde os anos 1990, analistas ocidentais duvidam das estatísticas do governo chinês e de seus planos de desenvolvimento megalomaníacos, mas, grosso modo, as metas de Pequim no último quarto de século foram atingidas, ainda que a um alto custo humano e ambiental. Não há razão para não levar a sério as atuais pretensões de em mais 15 anos construir uma sociedade rica, criativa e moderna, ter o yuan transformado em moeda de reserva mundial e ser o centro de um sistema financeiro, econômico e militar rival do G-7, construído em torno de alianças com países vizinhos e os BRICS e rotas comerciais ultramodernas para a Europa, Ásia e América do Norte.

Nessa perspectiva, é vital entender que o crescimento chinês será cada vez mais qualitativo e menos quantitativo. Deve repetir a trajetória dos países ricos e começar a se livrar das indústrias mais poluentes e de trabalho mais intensivo para se concentrar em setores de ponta e no conforto e bem-estar de suas classes médias. Com salários mais altos, deve deixar de competir com países mais periféricos nas indústrias mais simples e passar a importar itens dos quais foi ou ainda é grande exportadora. Continuará a importar commodities, mas não em volumes crescentes a taxas aceleradas e, provavelmente, as demandará de melhor qualidade, mais diversificadas e elaboradas. 

No futuro previsível, suas taxas de crescimento continuarão muito mais altas do que aquelas dos países ricos tradicionais e continuam a ser uma oportunidade mais atraente para quem busca mercados externos (assim como a Índia e parte da África, com crescimento provavelmente comparável). Mas é preciso ter em mente que suas necessidades futuras não serão uma mera expansão quantitativa das atuais. Será preciso oferecer algo além de soja e minérios.

*Reportagem publicada originalmente na edição 864 de CartaCapital, com o título "O tropeço de Godzilla"