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Número 864,

Política

Rosa dos Ventos

A maioria e o golpe

por Mauricio Dias publicado 22/08/2015 10h08
O príncipe dos sociólogos fala na ilegitimidade de Dilma, cuja legitimidade vem do voto popular e não das pesquisas
Wilson Dias/Agência Brasil

A verdadeira razão da voracidade da oposição contra Dilma vem da baixíssima aprovação do governo, como tem sido destacado em diversas pesquisas. Isso virou um ponto importante na lista dos golpistas. A desaprovação das contas do governo no TCU e o processo aberto no TSE são truques políticos da oposição para confundir a sociedade. Nem tudo vem daí.

As decisões dos julgamentos nos tribunais são incertas e, assim, a conjuntura econômica negativa conjugada pela avaliação positiva do governo, reduzida a 8% da população, tornou-se fator determinante na luta pelo afastamento de Dilma do poder. Os golpistas marcham por essa estrada e ela desemboca, para citar o exemplo mais emblemático, na Avenida Paulista. Atrás disso há variados interesses. Os pessoais, os políticos e, também, os poderosos interesses econômicos daqui e d’além-mar. 

Uma crise econômica circunstancial sempre resulta, para os governos, em desaprovação. Mas esse momento não justifica o assalto ao poder. No jogo da democracia, a maioria de hoje pode ser a minoria de amanhã. E vice-versa. 

Pesquisas de avaliação do Ibope, considerando o item “ótimo e bom”, indicam que dos seis últimos governos civis apenas Itamar Franco, em dois curtos anos de governo, e Lula, nos dois mandatos, terminaram com aprovação maior do que a avaliação inicial. Sarney, Collor, FHC e Dilma, no primeiro governo, concluíram com aceitação pior do que aquela do começo de mandato.

Lula é um caso à parte. Iniciou o segundo mandato com aprovação de 51% e terminou com 80%. A pior avaliação dele, ocorrida no primeiro mandato, foi de 29%. Sarney fica com a lanterninha, com 7% de aprovação. Um empate técnico com Dilma (tabela). 

Não há diferença entre os 7% de Sarney, os 8% de Dilma, os 12% de Itamar e os 17% de FHC. Números negativos. Pesquisa, como se sabe, é o retrato do momento em que é levada a campo. Ouvir a sociedade pode ser bom sinalizador das administrações. Embora a maioria seja referência básica do regime democrático, às vezes é preciso destoar desse princípio. Negá-lo em dadas circunstâncias, em nome de outros valores tão ou mais fundamentais. 

A história é recheada desses exemplos. 

Uma grande maioria apoiou a ascensão de Hitler, na Alemanha, em meio a uma crise econômica monumental. Thomas Mann preferiu perder a cidadania. Saiu do país. Recusou participar daquela maioria que aderiu ao ódio nazista.

Guardadas as proporções, o Brasil vive paradoxo semelhante. 

Há quem o ignore e há quem o abrace. Abraço comprometedor pelo qual se deixou levar o ex-presidente FHC, no oportuníssimo dia seguinte à manifestação. Ele usou o trampolim dos protestantes para defender surpreendente argumento:  “O governo, embora legal, é ilegítimo”. 

É o ex-presidente ou o ex-sociólogo que avoca o poder de deslegitimar Dilma?

Vêm das urnas a legalidade e a legitimidade. Protestos, embora legítimos, não abonam golpes. Salvo por meio de intervenção militar como em 1964.