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Número 863,

Cultura

Caçada

Qual é a ética da caça?

por Nirlando Beirão publicado 22/08/2015 10h07
A morte de Cecil, o leão, borrou as fronteiras do que é caça por subsistência, por esporte e por crueldade
Ernest-Hemingway

Uma das várias presas de Hemingway

Existe, em inglês, uma importante diferença entre hunt, exercer aquela atividade que acompanha o Homo sapiens na milenar jornada de sua sobrevivência, e poach, a caça predatória, insensível aos limites impostos por territórios e por temporadas, a brutalidade gratuita a exercitar o exibicismo viril de uns tantos fanáticos e, lástima, também fanáticas do tiro ao alvo, quer dizer, do tiro ao bicho, com o objetivo último de adornar suas paredes com sombrios troféus de criaturas empalhadas.

Esse último verbo, poach, é que define o que aconteceu com Cecil, 13 anos, o leão xodó de uma reserva supostamente protegida do Zimbábue, país que é um dos eldorados do sul do continente africano, onde safáris são um chamariz para os hunters e, por baixo do pano, também para os poachers.

O rugido sufocado por uma seta traiçoeira, 40 horas depois, por um tiro de misericórdia, quando Cecil agonizava, indefeso, na savana distante do Parque Nacional de Hwange, para onde o felino-rei fora atraído com uma isca gourmet, e, enfim, o esfolamento desse bichano de boa índole, cuja celebridade era edulcorada por sua juba magnificamente negra e monitorada por cientistas da Universidade de Oxford, Inglaterra – bem, o urro silenciado pela covardia de um caçador norte-americano e seus dois cúmplices locais ecoou mundo afora e atiçou, nas redes sociais, nos cenáculos acadêmicos e até nas arenas políticas, uma emocional discussão sobre um esporte nem sempre tão esportivo, uma recreação quase nunca apenas recreativa.

Gisele-Bundchen
O Peta, que mirou Gisele, ataca cientistas

“É uma tragédia o que aconteceu, mas o sacrifício de Cecil pode não ter sido em vão”, observa o doutor David Macdonald, diretor do Wildlife Conservation Research Unite (WildCRU) da Universidade de Oxford, que desde 2008 estudava os hábitos de Cecil com o propósito agora sinistramente irônico de ajudar na preservação da vida animal nestes vastíssimos e visadíssimos territórios africanos de Uganda para baixo.

Nas últimas três semanas, conta o professor Macdonald, a consciência pesada do bicho homem produziu, para a instituição de Oxford, novos donativos de mais de 550 mil libras (2,99 milhões de reais), grande parte deles procedente, paradoxalmente, do país que acolhe com maior indulgência a mentalidade dos predadores poachers, inclusive o dentista Walter Palmer, o frio assassino de Cecil: os Estados Unidos.

Caçada-de-raposa
A caça às raposas, na Inglaterra, agora só em livro e na TV

O presidente Barack Obama chegava para uma visita oficial ao Quênia, país natal de seu pai, a tempo de escutar o clamor que a morte do mais icônico dos felinos desde o leão da Metro desencadeou. Obama extirpou da agenda um safári – a esta altura, humanitariamente incorreto. E de lá enviou para o Congresso o projeto que endurece o comércio de marfim rumo aos EUA e impede que passe pelas alfândegas do país qualquer troféu de caça. De imediato, três companhias aéreas de bandeira norte-americana decidiram não mais transportar peles, chifres, dentes e relíquias das incursões predatórias.

A internet faculta uma porosidade temática quase sempre exacerbada e irrefletiva, daí as redes sociais terem, na trilha de sangue deixada por Cecil, ressuscitado, por exemplo, os fundamentalistas do Peta – sigla de People for the Ethical Treatment of Animals –, que têm em seus quadros gente disposta, a pretexto de proteger meia dúzia de hamsters, escorpiões e tarântulas, a atentar contra pesquisadores empenhados em buscar remédios para as moléstias humanas.

Foi do Peta a iniciativa de invadir a passarela de Gisele Bündchen para a grife Victoria’s Secret, em 2002, chamando-a de Fur Scum (“escória em casaco de pele”) por ela ter anunciado uma marca que usa couro animal. Causas justas merecem ser defendidas contra os que molestam gratuitamente os animais, mas há alas do Peta que, esticando o conceito de crueldade, pretendem impor a todo o mundo a sharia de um alcorão vegano.

Mapa-da-rapina

Do outro lado da trincheira ecológica, o lobby dos caçadores impermeáveis a qualquer controle também tratou de se manifestar, nas redes sociais, brandindo o paradoxal argumento de que é o dinheiro do turismo armado e da caça recreativa que propicia, nos santuários africanos, a existência de reservas aptas a proteger a vida selvagem. 

Na linha do “mal necessário”, o porta-voz do grupo americano Panthera calculou que num só ano perto de 20 mil caçadores desembolsam para os governos africanos mais de 200 milhões de dólares só em licenças, taxas e cotas para caçar legalmente leões, leopardos, elefantes, búfalos e antílopes. Fora os gastos com a própria viagem, pois os caçadores profissionais são grandes gastadores. 

Rei-e-elefante
O rei e seu troféu problemático
Na África do Sul, a Hunting Legends cobra 35 mil dólares para oferecer à sua clientela a cabeça de um leão macho, 13 mil dólares por um búfalo, 8,5 mil por um crocodilo e 60 mil por um elefante dos grandes. Já um macaco-vervet você pode abater por míseros 170 dólares. Eventualmente, a sanha doentia pode inflacionar o mercado. Dois meses atrás, um texano amaciou as autoridades da Namíbia em 350 mil dólares para ter o direito de sacrificar um rinoceronte-negro condenado à extinção.

A caça por troféus, desde Teodore Roosevelt – o presidente-caçador que imaginou abater leões no Brasil – e Ernest Hemingway – que deu embasamento literário a uma paixão doentia, em narrativas como As Verdes Colinas da África e A Breve Vida Feliz de Francis Macomber –, converteu-se numa faceta do big business da vaidade americana e, não por acaso, foi dos Estados Unidos do dentista siderado que brotaram as piores provocações nas pegadas sangrentas do episódio Cecil.

Uma Sabrina Corgatelli, do estado de Idaho, postou no Facebook uma foto sua ao lado de uma girafa anciã. “Girafas podem ser muito perigosas”, justificou-se. Antes de Sabrina, Kendall Jones, uma loira bonitinha de 19 anos, ostentou e posou na rede pisando a carcaça de um leão abatido. Vergonha foi a resposta mais branda que Kendall mereceu dos internautas escandalizados. Até mesmo Ashley Chiles, diretora de uma associação chamada de Caçadoras do Texas, puxou a orelha  de Kendall. “Eu só caço o que como”, disse Ashley. “De outro modo, é só brutalidade.”

Ernest-Hemingway
Uma das várias presas de Hemingway

Na Europa, a caça é um hábito que há milênios enche panelas de pitéus saborosos como codornas, pombos, porcos selvagens – sejam as mesas camponesas, sejam as de sangue azul. A nobreza sempre cuidou para que tais eventos se revestissem de uma aura de sociabilidade festiva, como aquelas caças à raposa dos romances de Jane Austen e do seriado Downton Abbey. A Inglaterra proibiu as caçadas à raposa, em 2004, durante o governo trabalhista de Tony Blair, e bem agora que os conservadores de David Cameron tramavam liberá-las aconteceu o caso Cecil.

Kendall
Kendall fez a foto-horror
Quem se deu mal no show off da brutalidade foi o então rei Juan Carlos, da Espanha. Atirador inveterado, como muitos de seus súditos, virou notícia, em 2012, ao levar um tombo durante uma caçada em Botsuana. Imediatamente voltou à tona a imagem de um orgulhoso soberano diante de um elefante abatido anos antes, também em Botsuana (23 toneladas métricas de marfim foram apreendidas naquele mesmo ano, na África; isso corresponde às presas de 2,5 mil elefantes).

Juan Carlos era o presidente de honra da seção espanhola da World Widlife Foundation. Apurou-se que ele tinha gasto 30 mil euros, dinheiro pago pelo contribuinte. Uma pimenta viria temperar o affair: no safári africano, Sua Majestade queria fazer bonito para sua petite amie, a alemã Corinna zu Sayn-Wittgenstein. Desgastado, Juan Carlos abdicaria em favor de seu filho dois anos depois. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 863 de CartaCapital, com o título "Pode?"