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Número 863,

Economia

Setor privado

Para alguns empresários, não há crise

por Samantha Maia — publicado 23/08/2015 04h57
Os empreendedores que superam a conjuntura com inovação
Chico Max
Luciana-Oliveira

Luciana Oliveira faz a ponte entre empresas e catadores de lixo

A crise impõe ao mundo dos negócios um roteiro de sobrevivência bem conhecido. Diante das incertezas, as empresas concentram-se no indispensável e desenvolvem uma aversão ao risco. Alguns empresários contrariam, entretanto, esse impulso natural. Investem, conquistam posições e são reconhecidos no País e no exterior.

Os seus negócios não dependem da recessão e esta não parece ameaçá-los. Algumas das suas qualidades explicam seu destaque. Eles parecem combinar, em dosagens variadas, a ousadia dos capitalistas pioneiros, o método dos executivos das grandes empresas modernas e a capacidade de inovação típica dos inventores.  

Pércio de Souza, 51 anos, fundador da assessoria Estáter, é um desses empresários. Conhecido pela capacidade de coordenar grandes fusões e aquisições e requisitado por grupos do porte do Pão de Açúcar, poderia ter-se contentado com os ganhos e estabilidade desse tipo de trabalho, mas decidiu correr riscos.

Em 2010, assumiu a recuperação da Tecsis, uma empresa quebrada da paulista Sorocaba produtora de pás para usinas eólicas. “A situação era grave. Não havia diretorias, planejamento, controle de custos, a tecnologia era de desenvolvimento difícil e o mercado, restrito”, recorda. Mas a companhia, apesar de falida, era a terceira do mundo, tinha bons produtos, grande potencial e parecia compensar o risco.

Renato-Mandaliti
Renato Mandaliti, da Finch, uniu advocacia e tecnologia / Crédito: Anna Carolina Negri

O horizonte só desanuviou em 2014, com um crescimento de 38% e receita de 1,3 bilhão de reais. A Tecsis detém hoje 75% do mercado nacional e exporta metade da produção. Principal acionista e presidente do conselho de administração, Souza elevou a Tecsis à posição de segunda fabricante de pás para aerogeradores e agora quer torná-la a maior do mundo. 

O setor de energia eólica está em expansão, porém desenvolver um negócio em um segmento promissor não é garantia de êxito automático.  Os sócios da Bug Agentes Biológicos, da área de tecnologia de ponta de controle biológico de pragas agrícolas, sabem disso. “Amargamos sete anos no vermelho”, contam Diogo Rodrigues, 41 anos, e seu sócio Heraldo Negri, 48.

Eles criaram a empresa em 2000, em Piracicaba, interior de São Paulo, com financiamento da Fapesp, quando eram alunos de pós-graduação na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP. O controle biológico custa 30% menos que os inseticidas e não polui nem contamina os solos e os trabalhadores. Sua adoção pelos agricultores e fazendeiros exige, no entanto, uma mudança de mentalidade e isso leva tempo. “Em alguns meses, não havia dinheiro para as retiradas e éramos obrigados a fazer ‘bicos’ para sobreviver.”

O pagamento dos funcionários nunca atrasou, contam os sócios. Era um ponto de honra e também um modo de mantê-los comprometidos com a empresa. Esse empenho dos donos teve um resultado surpreendente. “Às vezes chegávamos desanimados, mas os funcionários nos incentivavam e diziam que uma hora o negócio daria certo.” 

Em 2006, a Bug foi contratada por uma usina para controlar uma infestação de predadores em uma plantação de cana de açúcar com 500 hectares. A estrutura da empresa estava dimensionada para atender a 100 hectares no máximo, mas a encomenda foi aceita. “Era uma loucura, mas topamos o desafio por ser a oportunidade que esperávamos.” Sócios e funcionários desdobraram-se, deram conta do recado e o cliente ampliou a encomenda para uma área de 10 mil hectares. 

A Bug disparou. Em 2009, faturou 2 milhões de reais e ganhou dois investidores de peso, os fundos Criatec, do BNDES, e a Trigger. Em 2012, foi a 33ª empresa mais inovadora do mundo, segundo o ranking da revista americana de tecnologia Fast Company. Em 2013, tornou-se a primeira da América Latina incorporada ao grupo Pioneiros da Tecnologia, do Fórum Econômico Mundial. O faturamento deverá atingir 12 milhões de reais, neste ano, e 100 milhões, em 2017. 

Haradom
Haradom, da Tersol, é reconhecido pela moderna gestão de RH / Crédito: Chico Max

Correr o risco de tudo dar errado é uma experiência familiar também para Rodrigo Araújo, 39 anos, fundador e diretor da EiTV, de Campinas, também em São Paulo, desenvolvedora de softwares e provedora de serviços de engenharia para o mercado de produtos eletrônicos digitais de consumo, principalmente a televisão digital. A adoção pelo Brasil do sinal de tevê digital foi o impulso inicial da companhia criada em 2005, a primeira fornecedora de softwares para estações de transmissão de televisão nos padrões brasileiros. 

No ano seguinte Araújo foi contratado por uma rede de televisão para desenvolver um equipamento. “Era um grande projeto e a preparação do protótipo incluiu jornadas estafantes na emissora. No dia da apresentação, descobri que o produto encomendado era outro, ocorrera uma falha grave de comunicação.” Para resolver o problema, Araújo garantiu a entrega do produto em uma semana. “Eu disse que já tínhamos tudo pronto.

Os engenheiros da EiTV não entenderam nada, trabalhamos como nunca, e no terceiro dia percebemos que seria possível cumprir o prazo.” Com 40 funcionários, tem 300 clientes e faturou 7 milhões de reais no ano passado. A perspectiva de desligamento do sinal analógico no País entre 2016 e 2018 significa a possibilidade de uma receita adicional em plena crise. 

Criar uma solução eficaz para uma necessidade premente é a fórmula de sucesso também da Finch Soluções, surgida em 2013 por iniciativa dos escritórios Mandaliti Advogados e JBM Advogados, de São Paulo, para controlar o grande volume de processos do último, o maior estabelecimento de advocacia do Brasil. Renato Mandaliti, 44 anos, criador da empresa com José Edgard Bueno, adaptou-se à nova realidade. 

“Trabalhei por 17 anos com uma visão tradicional da advocacia e tive de mergulhar no mundo novo da tecnologia, sem conhecimento para tanto. Continuo a advogar, mas foi necessário adquirir outros conhecimentos.” A empresa começou com o uso de robôs de captura de informação, automação e gestão de processos. O serviço foi oferecido a outros escritórios e cresceu rapidamente.

Segundo destacou a prestigiada publicação The Practice Magazine, da Escola de Direito da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, na edição de fevereiro, “a Finch percebeu que as mudanças no mercado legal global e a produção de um imenso volume de informações não administrado pelos escritórios de advocacia criavam uma oportunidade para uma solução inteligente”.

A próxima etapa é investir em inteligência artificial para expandir a atuação à análise de dados. Em 2014, o faturamento foi de 69 milhões de reais, 20% acima da receita de 2013. Neste ano, deverá crescer 15%. A empresa não tem concorrentes com perfil de atendimento a todos os campos das atividades jurídicas.

Ponto de consenso entre os empresários, o compromisso com a responsabilidade socioambiental é também um setor crescente de negócios, mostra a New Hope Ecotech. A empresa articula fabricantes de produtos potencialmente poluidores com catadores por meio de um sistema de rastreamento do fluxo de recicláveis.

Na fase seguinte, emite certificados ambientais negociáveis e os vende aos fabricantes obrigados pela política nacional de resíduos sólidos a dar uma destinação aos produtos vendidos. A aquisição dos certificados corresponde a um pagamento pela reciclagem de um volume equivalente aos resíduos gerados e fornece um complemento de renda para os catadores. 

Lançada no ano passado por dois alunos brasileiros do MBA da Kellogg School of Management, nos Estados Unidos, o sistema tem sido testado por 50 recicladores de São Paulo. Tem cinco funcionários e ganhou um prêmio da Kellogg School no valor de 70 mil dólares, utilizados para iniciar o projeto. 

O foco é “aumentar a receita das empresas de reciclagem, incrementar essa atividade e possibilitar a remuneração do serviço dos catadores”, diz a jornalista Luciana de Oliveira, 30 anos, uma das fundadoras da organização. 

Rogério-Araújo
Rogério Araújo, da EiTV, cresce com a televisão digital / Crédito: Samuel Lorenzetti

Nome de referência para boa parte dos novos empresários por causa da política de recursos humanos focada na inclusão social, Michael Haradom, 67 anos, simboliza uma contemporaneidade buscada por todo empreendedor. A indústria química Fersol aparece em diversos rankings como uma das melhores empresas para as mulheres trabalhar.

O quadro de funcionários é integrado também por negros, homossexuais, idosos e portadores de deficiência física em proporções muito superiores à média das empresas. O objetivo de inclusão está definido formalmente como critério de recrutamento e seleção de pessoal. A política de recursos humanos da Fersol é reconhecida. Haradom foi um dos poucos palestrantes do sexo masculino no 25º Global Summit of Women, a Cúpula Global das Mulheres, em maio, em São Paulo.

Com a empresa reduzida em consequência de restrições estabelecidas pela Anvisa a um dos seus principais produtos, Haradom continua a apostar no Brasil. “Talvez se possa passar o País a limpo, e se isso acontecer, teremos novas oportunidades.” O baixo crescimento da economia, para ele, é o de menos. “A crise é cíclica e está em todos os lugares.” A diversidade do corpo funcional enriquece a busca de soluções para o enfrentamento das dificuldades, ensina.

Na instabilidade reinante, a capacidade empreendedora e a visão de futuro desses protagonistas ampliam as esperanças de recuperação do dinamismo da economia brasileira. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 863 de CartaCapital, com o título "Com eles não tem crise"