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Número 863,

Internacional

Israel

A vez do terrorismo judeu

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 24/08/2015 03h25
Atentados contra palestinos e igrejas cristãs obrigam Netanyahu a enfrentar o fundamentalismo sionista
Ammar Awad/Reuters/latinstock
Bebê-Ali-Dawabsha

Foi preciso um bebê ser queimado vivo para abalar a complacência para com o extremismo judeu

Apesar do assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin em 1995, Israel e a mídia ignoraram o extremismo sionista enquanto puderam. As centenas de atos de agressão e vandalismo perpetrados quase diariamente desde 2008 por colonos judeus contra palestinos e suas propriedades, mesquitas, igrejas e escolas, geralmente a título de “cobrança do preço” (price tag) por restrições das próprias autoridades israelenses à expansão de suas colônias, foram minimizados e tratados como casos isolados. Em 92,6% dos casos, as queixas de palestinos nem sequer levaram a indiciamentos, muito menos a punições.

A morte do adolescente palestino Abu Khdeir, queimado vivo em julho de 2014, foi tratada como caso isolado. Mas, por fim, o premier Benjamin Netanyahu admitiu que o terrorismo judeu existe e precisa ser enfrentado com seriedade. A gota d’água foi o incêndio, na madrugada de 31 de julho, de uma casa palestina perto de Nablus, mais uma vez como “vingança” por uma ação do governo de Israel, a demolição em Beit El de algumas casas judaicas construídas ilegalmente em propriedades privadas palestinas. Matou o bebê Ali Dawabsha e semanas depois seu pai Saad. Mãe e irmão continuam em estado grave. 

A “detenção administrativa”, prisão extrajudicial por alegadas razões de segurança aplicada a milhares de presos políticos palestinos desde a independência (e que mantém mais de uma centena deles atrás das grades), foi desta vez aplicada a suspeitos judeus. Não é um passo para maior igualdade, pois, enquanto todos os judeus afetados por terrorismo são indenizados, os sobreviventes da família Dawabsha não terão esse direito. Mas ao menos a direita israelense viu a necessidade de pôr limites ao extremismo dos colonos, por muito tempo tolerado e mesmo adulado como ponta de lança do esforço de Tel-Aviv para colonizar a Cisjordânia e rejeitar as pressões ocidentais para negociar com o Estado Palestino.

Não é apenas mais um embaraço à deteriorada imagem do país no exterior, é um movimento fora de controle que ameaça o próprio Estado, assim como o fundamentalismo sunita mordeu a mão das potências ocidentais que o alimentaram e apoiaram contra os soviéticos e hoje ameaça a monarquia saudita que o criou. O próprio presidente Reuven Rivlin foi ameaçado de morte no Facebook (e fez queixa à polícia) por criticar o assassinato do bebê.

Se os jihadistas têm suas bases ideológicas no Califado medieval, os colonos judeus assentam os seus em lendas de uma Antiguidade ainda mais remota. Querem restaurar um imaginário Reino de Israel governado pela Torá, do qual todos os gentios serão expulsos.

Essa foi por séculos uma aspiração do judaísmo ortodoxo, associada ao advento do Messias e ao ressurgimento milagroso do Templo de Jerusalém, uma era de paz mundial na qual, segundo Isaías, os povos converterão as suas espadas em arados e as lanças em foices, o lobo morará com o cordeiro e um menino pequeno os guiará. Assim como Al-Baghdadi e seus seguidores, os extremistas judeus não querem apenas orar a Alá ou Javé pela realização das profecias, mas transformá-las em instrumento de supremacia política real e imediata.

Meir-Kahane
A semente de intolerância plantada por Meir Kahane frutifica / Crédito: Gene Kappock/NY Daily News Archive/Getty Images

Seu movimento tem origem no rabino estadunidense Meir Kahane (1932-1990). Fundou em Israel do partido Kach, banido em 1994 por racismo. Nos EUA, criou a Liga de Defesa Judaica, classificada como “terrorista” pelo FBI, em 2001, após dezenas de atentados e extorsões nos EUA, Israel, Canadá e Europa desde os anos 1970 e raras condenações de militantes.  

Um dos primeiros detidos pelo Shin Bet (serviço de segurança interna) como responsáveis tanto pelo incêndio de 31 de julho quanto pelo da Igreja (Católica) dos Pães e Peixes na Galileia, em junho, e por outros atentados a casas palestinas e locais cristãos (inclusive uma tentativa de sabotar a visita do papa em maio) foi Meir Ettinger, neto de Kahane. 

Yisrael Ariel, ex-vice-líder do partido Kach, fundou, em 1987, The Temple Institute para encorajar os simpatizantes a confrontar muçulmanos para subir à Esplanada das Mesquitas e pedir sua demolição, enquanto planeja em detalhes a construção do Terceiro Templo e sua parafernália ritual. Um bizarro sintoma de seu literalismo é a campanha online para levantar 125 mil dólares para obter a “bezerra vermelha perfeita”, cujas cinzas são exigidas pela Torá para o ritual
de purificação indispensável para um judeu entrar no futuro Templo.

Ettinger
Ettinger, neto de Kahane / Crédito: Jack Guez/AFP

Igualmente notório é o rabino Benzi Gopstein, líder do movimento Lehava, “chama” em hebraico, mas também sigla para “Prevenção da Assimilação na Terra Santa”, com o objetivo declarado de combater o relacionamento entre judeus e não judeus e promover a segregação. Desde 2009 realiza protestos agressivos contra casamentos mistos e judeus que empregam árabes ou lhes alugam imóveis. Em dezembro de 2014, três integrantes do Lehava foram presos pelo incêndio que destruiu a única escola mista árabe-judaica de Jerusalém. A ameaça de declarar a organização “terrorista” não foi cumprida, os três perpetradores receberam penas leves (até 30 meses) e Gopstein foi apenas brevemente detido para interrogatório.  

Agora enfrenta, porém, uma acusação direta. Em palestra de 4 de agosto, justificou o incêndio de igrejas em Israel e uma semana depois, por pressão do Vaticano, foi detido e indiciado. Nega a acusação de incitação com a alegação de defender a destruição de igrejas como “responsabilidade do governo, não de indivíduos”. Mas são indivíduos ligados a seu movimento que promovem o terror cujo objetivo final, como Tel-Aviv deve ter compreendido, é um governo teocrático próprio em nome do Messias.