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Número 862,

Saúde

Saúde

Prevenção contra Aids

por Riad Younes publicado 16/08/2015 08h24
O Ministério da Saúde libera coquetel anti-HIV mesmo para quem só teve encontro suspeito. Como proceder? Um especialista responde
Edson Lopes Jr.

O Ministério da Saúde anunciou mais um passo na luta contra a epidemia de Aids no Brasil. Até há pouco, pessoas expostas involuntariamente a fluidos infectados pelo vírus HIV, como acidentes de trabalho, em particular em profissionais da saúde, ou então vítimas de violência sexual, recebiam os medicamentos antivirais para a famosa profilaxia pós-exposição (PEP). O tratamento dura ao redor de três meses e consegue elevadas taxas de proteção contra o desenvolvimento da Aids

O que mudou? O Ministério da Saúde estendeu a indicação do fornecimento desses medicamentos profiláticos para qualquer pessoa que declare relação sexual potencialmente contaminada, sem proteção adequada. Apesar da clara intenção de conter a disseminação do vírus, a comunidade médica está em dúvida sobre os procedimentos corretos para identificar os candidatos a tais tratamentos, além dos problemas e até os perigos potenciais associados a tal estratégia. 

Conversamos com o doutor David Uip, professor de Infectologia da USP, atual secretário da Saúde do estado de São Paulo, e pioneiro, desde a década de 1980, no estudo e no tratamento de pacientes com Aids:

CartaCapital: Do ponto de vista médico, o esquema de tratamento PEP representa um avanço no controle da Aids. Em sua opinião, qual seria sua eficiência atualmente, e quais são os riscos, as limitações ou as desvantagens desse tipo de esquema?

David Uip: Existe um claro posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) referente à necessidade de avançar no controle da epidemia vs. milhares de novos casos diagnosticados, cada ano, em todo o mundo. Entre as novas preconizações da OMS, destacam-se: tratamento de todos os pacientes diagnosticados, a despeito da fase clínica imunológica da doença; tratamento pré-exposição; tratamento pós-exposição, com o objetivo de diminuir a contagiosidade e, em consequência, a transmissibilidade; reforçar todas as medidas tradicionais de prevenção, com o uso de preservativo, diagnóstico e tratamento das outras doenças sexualmente transmissíveis, indicação de circuncisão etc.

CC: Ante a publicação no Diário Oficial dessa recomendação recente, qual é a estrutura no estado de São Paulo dedicada a administrar a terapia PEP? Em teoria, o tratamento PEP está liberado a qualquer pessoa que informe uma relação desprotegida. Como os responsáveis pela saúde pública vão selecionar os pacientes que deverão receber o coquetel? E onde seria o ponto de triagem desses pacientes para a tomada de decisão?

DU: No estado de São Paulo, temos 200 ambulatórios especializados, que se responsabilizam pela avaliação, presunção diagnóstica, tratamento e orientação de todo o processo.

CC: Na prática, existem riscos ou problemas potenciais dessa nova recomendação do Ministério da Saúde?

DU: Sem dúvida, existem preocupações por parte dos especialistas. Estamos criando uma população de pacientes que, no futuro, será multirresistente a diversos medicamentos antirretrovirais? Estamos antecipando as consequências dos efeitos adversos do uso da terapêutica? Os efeitos adversos não são simples nem infrequentes. São exemplos: síndrome metabólica, osteonecrose de articulações; alterações cardiovasculares e vasculocerebrais, entre outras. As pessoas se acomodarão, muitas já o fazem, por causa de uma terapêutica eficiente, embora não motivadora da cura: “Eu faço o que quero, a hora que convier, pois há tratamento, há a pílula do dia anterior e a do dia seguinte”. A primeira consequência já existe: uma nova epidemia dentro da epidemia – homens jovens que fazem sexo com homens sem proteção, culminando com um aumento significativo do número de casos nessa população, no Brasil e no exterior.

CC: Qual seria o impacto dessa política nas contas públicas de um estado como o de São Paulo?

DU: Boa pergunta. Quem paga a conta? A responsabilidade da compra desses medicamentos é do Ministério da Saúde, a distribuição é dos estados. A política também é do Ministério da Saúde. Portanto, quem paga a conta e é responsável pelo programa é o Ministério da Saúde.