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Número 862,

Cultura

Itália

Festa na ilha mágica

por Lidia Carta e Mino Carta — publicado 15/08/2015 08h27
Um evento bienal na vila de Sorradile divulga a Sardenha com muita alegria
iStockphoto
Bosa

A encantadora Bosa, a caminho do norte ao longo da costa, banhada por um mar de cristal

Ao pensar Sardenha, muitos turistas desavisados imaginam Costa Smeralda. Enganam-se, a Sardenha é outra. A Smeralda é um trecho de costa ao norte, esculpida pelo vento, escassamente habitada até ser adquirida em bloco por um jovem Aga Khan, e transformada em Riviera de grandes hotéis e marinas de profundo calado. A proximidade entre a Costa Smeralda e a ilhota de Caprera incomodaria sobremaneira Giuseppe Garibaldi, que em Caprera passou os últimos anos de vida em companhia de uma moçoila roliça, de cama e mesa.

Foi a respeito da outra, genuína Sardenha, que D. H. Lawrence, em seu Sea and Sardinia (Thomas Seltzer, ed. Nova York, 1921), escreveu, ao vê-la surgir do mar: “... uma forma tênue de terra apareceu à frente, mais transparente que pérola fina. Já era a Sardenha. São mágicas as terras elevadas vistas do mar, quando estão distantes, muito distantes, e fantasmagoricamente translúcidas, como icebergs”. Segundo Lawrence, a Sardenha espalha-se na distância, que lhe oferece uma sensação de espaço, “adorável ao seu redor (...)  parece a própria liberdade”. E mais, a respeito de uma Sardenha “que ainda não foi capturada (...) Ela repousa na rede da civilização europeia, mas ainda não foi trazida à terra”.

Archeo-Tharros
Os restos de Tharros, a cidade fenícia que, deste lado do Mediterrâneo, rivalizou com Cartago 700 anos antes de Cristo

Há cinco anos parte de uma vila de algumas centenas de habitantes, uma iniciativa importante para aprofundar o conhecimento da ilha cantada por Lawrence. Mérito de Pietro Arca, que alguns chamam de “timoneiro”, prefeito de Sorradile e criador do “Prêmio Lago Omodeo. Noi Sardi nel Mondo”, dedicado a cidadãos italianos de origem sarda que valorizaram a imagem da Sardenha.

Arca, político de longo curso, 65 anos, já foi prefeito de Oristano, a cidade principal da província, algo assim como a capital de um quarto da ilha. Desde 2011, a cada dois anos, comanda o evento no seu “burgo autêntico”, reconhecido como tal oficialmente, e já premiou, entre outros, um dos melhores pistons do mundo e uma Bond Girl.

Desta vez, os vencedores são o time de basquete campeão italiano de 2015, a Dinamo Sassari, dono também de Copa e Supercopa, a empresária Daniela Ducato e o designer (inclusive de modelos Ferrari) Flavio Manzoni. Recebem os prêmios bafejados por uma sadia brisa noturna, no palco montado acima do lago, plácido e límpido, diante de uma plateia de 300 pessoas sentadas e alguns milhares chegados dos mais diversos pontos da região. É a noite de domingo 2 de agosto. O lago aceita passeios de barco e à sua volta.

Casa-Gramsci-Vetrina
A lembrança de Antonio Gramsci vive na casa de Ghilarza

Inspirado quem sabe pelos jantares em certo restaurante da Via De Castro, Crof-Da Banana, em Oristano, onde o pescado sublime, sem exclusão de variedades infinitas de mariscos e moluscos, inimagináveis por quem se nutre da oferta do Atlântico Sul, cozinha na brasa ou no vapor, Arca escolheu a culinária sarda no centro da manifestação deste ano, iniciada no primeiro sábado do mês.

Acadêmicos de toda a Itália, agrônomos, empresários, jornalistas e chefs participaram de duas mesas-redondas coordenadas pelo crítico gastronômico Edoardo Rastelli, de fama europeia. Tema de uma “Livros a Degustar, Cantina Literária”, o da outra “Alimento, Ambiente, Turismo”. Fundamental, segundo Arca, é “celebrar a cultura do bem comer”, e a Sardenha tem muito a dizer a respeito.

Há iguarias imbatíveis, como as melhores alcachofras do planeta, que não se permitem a barba espinhenta no seu interior, a lhe cobrir o coração, e são comestíveis cruas, sem dispensar o talo e uma única, escassa folha. Ou a fregola, massa de trigo duro feita à mão, da consistência do couscous norte-africano, porém mais graúda, impecável no ministru, acompanhada por carne de cordeiro e pecorino sardo, e inebriada pelo perfume do timo selvagem.

Nuraghe-Losa
Nuraghe Losa vigia sobre o território

Não falta o triunfo de cabrito, coelho, até de javalis, que abundam nos bosques e podem atravessar de improviso o seu caminho. A amêndoa exalta a doceria ao ponto de levar às lágrimas um bávaro ou um austríaco, e nem se fale da bottarga das ovas da tainha cativa das lagunas de Oristano, com seu perfume das algas recônditas.

Cabras, à margem das lagunas, é o centro produtor da melhor bottarga, a verdadeira e exclusiva, capaz de encantar até os gigantes de pedra expostos no museu citadino, estátuas de até 2 metros e meio de altura, a retratar guerreiros, arqueiros e pugilistas. Afloraram das entranhas da terra, onde jaziam faz 3 mil anos, para revelar a presença de uma necrópole da época dita nurágica.

Gigante
Os gigantes de pedra guardam um passado de 3 mil anos
Vem nurágico de nuraghe, a torre-fortaleza e mansão do chefe tribal, severa dominadora em sua solenidade de um povo cuja memória remonta a 1600 antes de Cristo e que aos poucos se misturou com quem aportou depois, a começar pelos fenícios. Entre os séculos VIII e VII da era pagã ergueram, pouco além das lagunas, a cidade de Tharros, que rivalizou com Cartago daquele lado do Mediterrâneo.

Ao subir ao longo da costa na rota do norte chega-se a Bosa, vila marinheira de encantador centro histórico, depois de passar por enseadas absortas, onde o mar de cristal é espelho do céu. Em outra vertente, ao entrar terra adentro no caminho de Sorradile, bate-se com o costado com a majestade do Nuraghe Losa, com seu poder reminiscente a lhe dizer que aqui quem manda é ele. Seduz a ideia de que, à volta, nesse campo brincou um menino chamado Antonio, de sobrenome Gramsci. Nascido em 1890 em Ales, aos 4 meses foi levado pelos pais a Ghilarza, alguns quilômetros acima, e ali passou a infância e adolescência até se mudar para a terra firme italiana, o continente, como dizem os sardos até hoje.

Não tinha ainda 20 anos e se tornou crítico de teatro de um jornal turinês, e começou a construir a imensa cultura, à luz de uma decisiva escolha ideológica, que lhe permitiu escrever uma obra monumental, Cadernos do Cárcere, durante os anos na prisão de Mussolini, de 1926 a 1937. Da cadeia só saiu para morrer. Cadernos escritos à mão, que Gramsci considerava esboços apenas de quanto pretendia escrever ao recuperar a liberdade à luz do sol.

Pietro-Arca
O "timoneiro" Pietro Arca e seu lago

Outro gigante, mas sem espada e escudo. Ghilarza conserva a recordação indestrutível e, desde a entrada da cidadezinha, uma seta aponta para a Casa Gramsci, onde o menino Antonio morou, a mesa onde cumpria o dever de casa, a cama, até o tear da mãe, fiandeira habilidosa. Gramsci é o padroeiro da região e a casa a matriz, o centro do sistema de uma área de colinas suaves, cobertas por vinhedos, olivais, pomares, bosques cheirosos, percorrida como um presépio por rebanhos de ovelhas em procissão.

Sorradile-Duomo
A severa fachada da matriz de Sorradile exprime o caráter de seus fiéis
Este é um dos raros lugares do mundo em que ainda cresce o carvalho precioso da cortiça, indispensável à produção da rolha, largamente merecida pelos vinhos sardos, tintos possantes de uva canonau, ou outros da uva carignano, mais argutos, o Terre Brune, ou o Turriga, extraordinários. Sem esquecer os brancos, o Capichera, vermentino di Gallura, e o Villa di Chiesa. Ou o Anghelu Ruju, primo do Porto, ou a Vernaccia, prima do xerez. A letra u, a encerrar palavras, é com um em sardo, uma língua mediterrânea, língua mesmo, digna de gramática, sintaxe e dicionário, embora mutável de região em região, se não de vale em vale. E incompreensível aos ouvidos “continentais”.

Enquanto isso, em Sorradile, desmonta-se o palco que hospedou espetáculos folclóricos e de onde se expandiu a música de dois poetas, De André e De Gregori, e a senhora Ducato conta como se deu que sua empresa multiplicasse a produção de painéis de lã de ovelha a serem empregados, de formas diversas, como isolantes térmicos. Por esse trabalho de refinada técnica, ganhou um prêmio da Expo de Milão, mais dois internacionais e uma medalha do presidente da República da Itália. Ovelhas sardas, para o mundo. Talvez hoje à noite Pietro Arca jante em Via De Castro.