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Número 862,

Internacional

Turquia

A charada Erdogan

por Gianni Carta publicado 08/08/2015 08h15, última modificação 08/08/2015 11h26
Que pretende ao ceder aos EUA a base aérea para atacar o EI? E o plano de implantar no país uma república presidencialista?
Umit Bektas/Reuters/Latinstock
Recep-Erdogan

Na infância, vendia limonada, emergiu como prefeito de Istambul, deixou-se depois levar pelo pragmatismo

A guerra contra o Estado Islâmico recrudesce. Na noite da quarta-feira 5, teleguiados e caças norte-americanos pilotados aterrissavam sem cessar na base aérea de Incirlik, ao sul da Turquia e próxima à fronteira com a Síria. O quadro mudou desde o fim de julho, quando o presidente Recep Tayyip Erdogan, durante anos ambíguo em relação ao conflito, consentiu aos Estados Unidos o uso da estratégica base aérea turca.

Até agora, teleguiados faziam apenas voos de reconhecimento. Além de sua posição estratégica, a Turquia é o país da Otan com o segundo maior exército. Portanto, tropas turcas seriam bem-vindas quando a guerra se tornar “mais abrangente”, como diz, sem fornecer mais detalhes, o ministro turco do Exterior, Mevlüt Cavusoglu. No entanto, pelo menos por ora, oficiais dizem que não haverá intervenção de tropas. 

O objetivo é criar uma faixa livre de 80 quilômetros ao longo da fronteira da Turquia com a Síria, atualmente sob o controle de jihadistas do EI. Pela fronteira, eles contrabandeiam, entre outros, militantes estrangeiros, armas e petróleo. Insurgentes moderados sírios ocupariam a zona livre, e milhares de refugiados sírios poderiam nela viver. Assim, a aliança ocidental liderada pelos EUA, com o apoio da Arábia Saudita, do Catar e da Jordânia, enfraqueceria os jihadistas do EI.   

Em recente coletiva de imprensa em Ancara, Erdogan, 61 anos, citou o artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte: “Se um país da Otan é atacado, a Aliança deve apoiá-lo de qualquer forma possível”. A determinação do presidente turco, o mais poderoso e longevo desde Mustafa Kemal Atatürk, fundador da Turquia em 1923, surpreendeu os aliados. Desde o início da guerra civil síria, em março de 2011, Erdogan, há 13 anos no poder, afastou-se de qualquer ação militar a envolver os EUA e a Otan. 

Ao suceder o pai no cargo presidencial, em 2000, o presidente sírio Bashar al-Assad tornou-se protégé de Erdogan. Para o então premier turco, a Síria poderia ser a porta para expandir ao leste o então exemplar “modelo turco”, pelo qual laicos e religiosos muçulmanos viviam lado a lado em uma democracia de economia pujante, Erdogan, com suas ambições de domínio do Oriente Médio, viu-se, porém, forçado a condenar a brutalidade de Bashar, à vista do potencial de uma guerra sectária na Síria com repercussões na região. Além disso, como líder da Turquia, país de maioria sunita, ele não poderia aceitar o massacre de sunitas sírios pelo alauita (seita xiita) Bashar al-Assad. E, assim, passou a apoiar, do seu canto, a revolução sunita contra o presidente sírio.

Não parece difícil imaginar a estratégia de Erdogan ao permitir o uso de suas bases aéreas a uma aliança liderada pelos EUA. De saída, o EI, responsável por um grave atentado no sul da Turquia em julho, representa ameaça ao país. Cerca de 2 milhões de refugiados sírios, atualmente abrigados em território turco, poderiam ir para a zona livre. As táticas de Erdogan teriam condições, contudo, de desviar-se daquelas da aliança comandada pelos EUA. 

Segundo Selahattin Demirtas, 42 anos, líder da formação secular de esquerda turca, pró-curda e pró-minorias, o Partido Democrático do Povo (HDP), Erdogan estaria mais interessado em atacar os curdos do que o EI. Objetivo: impedir a formação de um Estado curdo no norte da Síria. Ali habita o povo curdo, isto é, significativa fatia de 20% de uma população total de 80 milhões. Os mais ativos, é claro, seriam os curdos separatistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerada uma formação terrorista por Turquia, EUA e UE. Erdogan negociou acordos de paz com os curdos em 2012, mas, após recentes ataques, supostamente pelo PKK, que deixaram quatro agentes dos serviços secretos mortos, as autoridades turcas voltaram a atacar a formação separatista. O problema para Erdogan, no entanto, é muito importante: os EUA apoiam os curdos em luta na Síria contra o EI.

O isolamento do líder turco no plano internacional de verdade reflete aquele, crescente, dentro das fronteiras domésticas. Erdogan é visto por boa parcela da opinião pública como um déspota disposto a islamizar o país. Difícil decifrar Erdogan. À vista do seu palácio em Ancara, erguido ao custo de 615 milhões de dólares, tira-se uma conclusão: Erdogan, vendedor de limonada nas ruas de Istambul na adolescência, é um homem no mínimo excepcionalmente ambicioso.

Ele viveu a infância em Rize, no Mar Negro, onde o pai trabalhava para a guarda costeira. Aos 13 anos, a família transferiu-se para Istambul. Passou a vender limonada e roscas de gergelim, simit, para ajudar a família. Frequentou uma escola islâmica e depois se formou em administração de empresas na Universidade de Marmara. Na faculdade conheceu Necmettin Erbakan, futuro primeiro premier islamita do país. Foi então, ainda profissional de futebol, que entrou para o movimento islâmico.  

A primeira grande vitória política de Erdogan foi a eleição para prefeito de Istambul, em 1994. Até seus mais acirrados críticos admitem que fez um bom trabalho. Teve, entretanto, de deixar o cargo em dezembro de 1997, quando ficou preso quatro meses por incitação religiosa ao ler, em público, um poema de um poeta otomano: As mesquitas são as nossas casernas/ As cúpulas os nossos elmos/ Os minaretes nossas baionetas/ E os fiéis os nossos soldados.

Ao sair da prisão, e após o golpe do exército secularista, Erdogan adotou uma postura política pragmática. Em 2001, formou o AKP com outros amigos.  No ano seguinte, a legenda venceu as legislativas e Erdogan tornou-se premier. Seu sucesso deve-se à economia. Até 2011, o crescimento do PIB foi de 7% ao ano, com inflação sob controle. A renda média per capita dobrou, de 5,5 mil para 10,5 mil dólares. Quebra do ritmo em 2014: crescimento de 2,9%, 10% de desemprego.

Os problemas para Erdogan surgiram em maio/junho de 2013, quando quis construir um centro comercial no parque de Gezi, em Istambul. O povo insurgiu-se contra a brutalidade da repressão policial. Mais: centros comerciais são associados à corrupção das elites ligadas ao governo. E Erdogan adotou medidas jamais vistas em um país onde o governo deve ser laico desde sua fundação. O então premier havia, entre outras medidas, banido a pílula contra o aborto. Álcool proibido a partir das 22 horas.  Sua imagem de democrata estilhaçou-se.

Em dezembro do mesmo ano, um caso de corrupção foi investigado, e quatro ministros renunciaram. Erdogan falou em complô internacional e, de fato, o acadêmico Fethullah Güllen, ex-parceiro de Erdogan, agora nos EUA e a dirigir um movimento global contra o ex-aliado, forneceu as provas para o inquérito. No entanto, em agosto de 2014, Erdogan tornou-se o primeiro presidente eleito na história do país. A novela continua, bem como, tudo indica, seu propósito de transformar a Turquia em república presidencialista.