Você está aqui: Página Inicial / Revista / Impeachment / Bósnia: só os mortos esquecem
Número 861,

Internacional

Bósnia

Bósnia: só os mortos esquecem

por Gabriel Bonis publicado 07/08/2015 01h54
O genocídio de muçulmanos ainda marca a relação entre as etnias locais
Citizenside/ César Dezfuli/ AFP
bosnia-nosso-mundo

O monumento em homenagem aos 8 mil mortos.

De Srebrenica, Bósnia

"Imploro para que não deixem esse monumento para homens e garotos inocentes se transformar apenas na memória de uma tragédia”, dizia Bill Clinton a uma plateia seleta em Srebrenica, na Bósnia. Do lado de fora da fábrica onde o ex-presidente dos Estados Unidos discursava sob um intenso sol, um homem retrucava ao telão: “O que você sabe sobre a guerra?” A alguns metros, um mar de lápides brancas ao pé das montanhas camuflava-se entre os cerca de 60 mil presentes na cerimônia de 20 anos do maior genocídio ocorrido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Em 11 de julho de 1995, tropas bósnio-sérvias invadiram Srebrenica e massacraram mais de 8 mil homens muçulmanos (bosniaks) com idades entre 12 e 77 anos. O evento, definido como genocídio pela Corte Internacional de Justiça, provocou uma intervenção da Otan, a aliança militar das potências ocidentais. A guerra civil iniciada em 1992 terminaria pouco depois.

O pedido de desculpas de Clinton por não ter agido antes ressalta a falha da comunidade internacional no caso. Os 136 restos mortais enterrados durante a cerimônia estavam entre os milhares de civis que buscaram refúgio no local proclamado pelo Conselho de Segurança da ONU como uma zona de segurança durante a guerra. Cerca de 600 soldados holandeses protegiam a área.

Isso não impediu que em 8 de julho de 1995 soldados bósnio-sérvios avançassem em direção à cidade. Rapidamente, Srebrenica caiu e 30 militares holandeses foram feitos reféns. Em 11 de julho, mais de 20 mil muçulmanos, entre eles crianças, mulheres e idosos fugiram para outra base holandesa em Potočari, nas proximidades. Os 5 mil que conseguiram entrar no local acabaram forçados pelos vigilantes a deixar o acampamento. Os demais abrigaram-se nas fábricas onde Clinton discursaria 20 anos mais tarde. Os bósnio-sérvios deportaram 23 mil mulheres e crianças para o território muçulmano. Os homens capturados foram mortos e as tropas da ONU puderam deixar o local apenas dez dias após a invasão.

“A missão de paz não tinha capacidade para proteger os civis. Os soldados holandeses eram jovens e inexperientes. Não esperávamos uma situação tão complexa”, afirma Velma Šarić, diretora do Centro de Pesquisa de Pós-Conflito. As zonas de segurança em Srebrenica são, em si, consideradas um equívoco. “Ter zonas de segurança com militares armados que não podem usar a força para proteger civis é inútil”, avalia Barbara Harrell-Bond, criadora e ex-diretora do Centro de Estudos de Refugiados da Universidade de Oxford. Segundo Barbara, os problemas da Bósnia foram intensificados quando a Acnur, agência da ONU para refugiados, passou a tentar impedir os bósnios de deixar o país
para “protegê-los” em seu próprio território. “Oferecer essa proteção era algo que a Acnur claramente não tinha como fazer.”

servio-Vučić
O sérvio Vučić recusa o termo genocídio. Créditos: Attila Kisbenedek/ AFP

A Sérvia continua a não reconhecer como genocídio os assassinatos em massa em Srebrenica. A relação do país com a Bósnia é muito delicada. Na cerimônia, o primeiro-ministro sérvio, Aleksandar Vučić, teve de se proteger de algumas pedradas. Durante a guerra, Vučić declarou: “Para cada sérvio morto, mataremos cem bósnios”. Outra parte dos espectadores do funeral das vítimas do genocídio preferiu ignorar a presença do premier. “Não foi para isso que viemos aqui”, disse uma senhora. Um policial foi mais enfático: “Ele não deveria estar aqui”.

“Ainda há tensões e divisões, mas também reconciliação. A presença do primeiro-ministro sérvio despertou, no entanto, um sentimento de raiva nas famílias que ainda não obtiveram justiça e vivem lado a lado com criminosos de guerra”, afirma Velma Sarič. A irritação contra Vučić também estava relacionada ao veto da Rússia a uma resolução do Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU para declarar Srebrenica como um genocídio. “A comunidade internacional parece não ter noção das tensões que essa resolução causa. É um assunto delicado e deveria ser negociado com calma”, avalia a acadêmica.

As tensões étnicas persistem. A Constituição bósnia, parte do acordo de paz, dividiu a nação em duas áreas internas autônomas: a Federação da Bósnia e Herzegóvina, onde vive a maior parte dos bosniaks e croatas, e a República Srpska, majoritariamente habitada por sérvios étnicos. Existem três presidentes, um para cada grupo de maior expressão populacional. Na República Srpska, onde Srebrenica se encontra, o termo genocídio é evitado pelo governo local. No aniversário do episódio, cartazes com o rosto de Vladimir Putin, presidente russo, foram espalhados em diversas partes da cidade.

O acordo de paz garantiu aos cerca de 2,2 milhões de bósnios que deixaram o país na guerra ou que foram deslocados internamente, cerca de metade da população em 1991, o direito de retomar suas propriedades pré-conflito ou a um ressarcimento por elas. A divisão interna reforçou, contudo, a separação geográfica das etnias. Aqueles que retornaram mudaram-se para áreas dominadas por seus “pares”. Minorias sofreram ameaças de grupos majoritários e políticos nacionalistas locais.

No passado, esse processo de retomada de posse foi violento. Atualmente, o ambiente é menos conflituoso. Florescem, no entanto, outros problemas, conforme afirma Selma Porobić, diretora do Centro de Estudos de Refugiados e Deslocados Internos da Universidade de Sarajevo. “Existe muita discriminação contra as minorias. Esses indivíduos enfrentam mais dificuldade em conseguir emprego, por exemplo. Não há instrumentos efetivos para punir a discriminação.” A guerra acabou, mas as diferenças persistem.