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Número 861,

Economia

Aviação

Três estados do nordeste disputam a TAM

por Carlos Drummond publicado 05/08/2015 04h34
Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte estão na briga pelo novo centro de distribuição de voos da TAM, investimento de 4 bilhões de reais
JF Diorio/Estadão Conteúdo
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Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte tentam atrair o hub, que também oferecerá rotas internacionais

Em um ano de escassos investimentos e queda brusca na atividade econômica, o projeto de um novo centro de distribuição de voos do Grupo Latam Airlines, formado pela brasileira TAM e a chilena Lan, tem mobilizado as forças econômicas e políticas de três estados do Nordeste: Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Uma das capitais será escolhida para sediar o hub ainda neste ano. Desde abril, quando a Latam anunciou o investimento de cerca de 4 bilhões de reais que vai gerar 10 mil empregos diretos e indiretos, a agenda dos governadores e dos prefeitos foi tomada por contatos e ações em um esforço de preparação e busca de apoio. 

O projeto deve consumir 40% dos investimentos previstos pela Latam em 2015 e 2016. O estudo de viabilidade deverá ser concluído em dezembro, mês em que a sede será anunciada. Os hubs são utilizados mundialmente para racionalizar trajetos, economizar custos para as empresas e tempo para os usuários, com eventuais reduções de tarifas. O efeito combinado dessas melhorias é o aumento do fluxo de passageiros e cargas, das receitas das empresas envolvidas e da arrecadação de impostos. A atividade do turismo repercute no dinamismo de 53 setores da economia, segundo a Embratur. Está prevista a abertura de postos de trabalho para engenheiros e mecânicos, pessoal de atendimento e recepção de passageiros, manejo de bagagem, serviços de táxi, fornecimento de alimentação e hotelaria, entre outros segmentos. 

“O maior objetivo do primeiro hub doméstico e internacional do Nordeste é ampliar a atuação e a capilaridade das operações das empresas do Grupo Latam Airlines na América do Sul e no mercado internacional, aumentando, principalmente, os destinos atendidos na Europa”, afirma a presidente da empresa, Claudia Sender. Fosse este o único aspecto importante, Natal, localizada no ponto da costa americana mais próximo da Europa e da África, seria a escolhida, mas há outros requisitos. Entre eles destacam-se a existência de uma boa infraestrutura aeroportuária, com potencial de desenvolvimento, e o oferecimento de “melhor experiência ao cliente”.

Em relação ao último aspecto, conta favoravelmente o fato de os aeroportos de Fortaleza e do Recife se localizarem praticamente dentro dessas cidades, enquanto o de Natal fica a 18 quilômetros. O aeroporto do Recife foi eleito pelos passageiros o melhor do Brasil no Prêmio Aeroportos + Brasil 2015, promovido pela Secretaria de Aviação Civil.

A disputa de vantagens é contínua e os governadores empenham-se em destacá-las. “Temos um projeto de uma linha de veículo leve sobre trilhos para o aeroporto e este tem espaço para ampliação. Sediamos a refinaria Clara Camarão, que produz querosene de aviação e garante o suporte necessário à demanda”, diz o governador Robinson Faria, do Rio Grande do Norte. “Nosso aeroporto entrou no pacote de concessões anunciado pelo governo federal, um investimento de 1,8 bilhão de reais, o que garantirá modernização e mais agilidade para o equipamento”, observa Camilo Santana, do Ceará. “A nossa infraestrutura logística é diferenciada, especialmente numa integração com o Porto de Suape. Com o hub, haverá uma complementaridade de modais, destacando-se o transporte de cargas”, argumenta Paulo Câmara, de Pernambuco.

Entre os fatores relevantes para a escolha sobressaem os incentivos fiscais, especialmente a redução na alíquota do ICMS sobre o querosene utilizado na aviação. A base de cálculo desse imposto no Rio Grande do Norte foi reduzida de 17% para 12% e cairá para 9% no caso de novos voos internacionais. No Ceará, a diminuição da base de cálculo de 25% para 12% beneficia rotas futuras para o exterior e aeronaves de 80 assentos de companhias com linhas regulares nas regiões Norte e Nordeste. Em Pernambuco, a base de cálculo é de 25%. 

Outro fator de competição é a rede hoteleira. Há 27,5 mil leitos em Fortaleza. O total é levemente superior aos 27,4 mil de Natal. Recife fica para trás neste quesito, com 15,5 mil.  

A importância do investimento para as economias mobilizou as lideranças empresariais. A implantação do hub em Fortaleza alavancará a economia e “dinamizará o turismo e a exportação de produtos como flores, frutas e hortaliças”, destaca Beto Studart, presidente da Federação das Indústrias estadual. Será a melhor oportunidade de consolidar o Rio Grande do Norte como polo de atividades logísticas, serviços avançados de comércio exterior, atração turística e atividades industriais associadas ao funcionamento do aeroporto, “inclusive uma Zona de Processamento de Exportações”, destaca Amaro Sales, presidente da Federação das Indústrias local. “O estado tem um ambiente de negócios muito bom, vocação para o comércio e a indústria, uma posição incomparável em relação aos demais da região. É inquestionável também a posição geográfica ímpar”, diz o empresário Paulo Sales, presidente-executivo do Grupo Moura, de Pernambuco.

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Natal, Recife e Fortaleza oferecem redução de impostos e investimentos em infra-estrutura urbana. Créditos:Marcelo D. Sants/ Futura Press

O setor de viagens mostra um vigor oposto à estagnação da economia, no Brasil e no mundo. O turismo mundial deverá crescer 5% em 2015, segundo prevê a OMT, organização mundial do setor. O Brasil saltou da 51ª para a 28ª posição no ranking de competitividade em viagens e turismo do Fórum Econômico Mundial, entre 2013 e 2015. O efeito combinado da redução da renda provocada pelo aumento do desemprego neste ano com a alta do dólar levou a uma alta das viagens internas, principalmente rumo ao Nordeste. A pesquisa mensal do Ministério do Turismo realizada em junho apontou o maior índice de intenção de viagem para destinos nacionais dos últimos quatro anos. Entre os entrevistados, 73,3% planejam ao menos um tour até dezembro para destinos do País, acima dos 70,9% do mesmo mês no ano passado. O Nordeste, com 43,2% das escolhas, é o destino predileto, seguido pelo Sudeste, com 26,2%. 

Beneficiado na última década e meia pela política de transferência de renda do governo e pelo aumento do salário mínimo, o Nordeste terá uma atividade econômica mais fraca em relação aos anos anteriores, mas permanecerá acima do desempenho nacional, segundo projeções do economista-chefe do Banco Santander, Mauricio Molan. “Os segmentos que mais sofrem são os de bens de capital e de automóveis, mas a produção agrícola aumentará nos próximos anos. Há a expectativa de um crescimento forte nas culturas de soja e milho, além de um avanço de 30% no setor industrial relacionado ao ramo alimentício, que na crise sofre menos e é uma base importante da indústria da região.”

O projeto para o Nordeste toma por base a experiência da Latam no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, principal hub internacional do grupo, importante para o seu papel de liderança no setor na América Latina. Um total de 15 milhões de passageiros da companhia transitam pelo terminal anualmente. As conexões internacionais são centrais para a Latam e o hub no Nordeste oferecerá “um tempo significativamente menor de voos na ligação entre a Europa e o Brasil, na comparação com São Paulo e Rio de Janeiro, e gerará uma distribuição melhor de conexões e horários”, afirma Claudia Sender. O grupo planeja acrescentar 14 voos diários para a Europa e 46 para a América do Sul a partir do Nordeste. O hub “proporcionará melhor aproveitamento das aeronaves, aumento da produtividade e opções em maior número e mais vantajosas para o passageiro”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 861 de CartaCapital, com o título "Pouse aqui, por favor"