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Número 861,

Saúde

Mal de Alzheimer

Luz antes do túnel

por Rogerio Tuma publicado 09/08/2015 11h06
Uma medicação que pode, enfim, atacar o Alzheimer antes mesmo dos sintomas
Shutterstock
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" O homem vai mais longe quando pega um caminho que ele não sabe aonde vai dar"

O encontro da Associação Americana para o combate da doença de Alzheimer (DA) ocorrido em Washington na semana retrasada trouxe mais esperança para a cura do mal mais grave deste século.

Duas proteínas anormais que se acumulam no cérebro são consideradas as vilãs dos pacientes com a doença. Moléculas de proteína beta-amiloide se acumulam de maneira exagerada e grudam umas nas outras, formando placas entre os neurônios, afastando-os e destruindo suas conexões. Enquanto isso, proteínas TAU também se acumulam e se unem, formando filamentos dentro dos neurônios que causam alterações nas células e a morte precoce dos neurônios. 

Até hoje, as medicações que oferecemos aos pacientes com DA, melhoram apenas os sintomas e de maneira ainda insatisfatória. No encontro de Washington, foram apresentadas algumas medicações que combatem de maneira eficiente o acúmulo dessas proteínas no sistema nervoso. A ideia não é nova, mas o que se mudou foi a utilização dessas medicações nos estágios iniciais da doença ou até mesmo antes de as pessoas apresentarem sintomas. Nessas fases já existe o acúmulo das proteínas, mas as células ainda estão vivas e, portanto, podem ser salvas.

A droga mais eficaz desse grupo parece ser o Solanezumab. Essa medicação é um anticorpo fabricado para grudar no aglomerado da proteína beta-amiloide. Seu poder como anticorpo é de identificar a placa como um corpo estranho e estimular os leucócitos, nossas células de defesa, a “engolirem” as placas e retirá-las do sistema nervoso.

A droga foi testada em 1.322 seres humanos por 3,5 anos e reduziu a velocidade da perda de memória nos pacientes com Alzheimer. Na fase inicial do estudo, que durou 18 meses, não havia demonstrado um efeito importante, mas na extensão do mesmo estudo por mais dois anos, quando todos os pacientes passaram a receber a medicação, os pacientes que tomaram o placebo sofreram com uma evolução da doença mais rápida do que aqueles que tomaram a droga durante o período. Nesses, percebeu-se um efeito animador: houve um atraso no desenvolvimento da doença em 34%. É a primeira medicação que consegue atrasar a progressão da doença.

A droga é administrada por via endovenosa a cada quatro semanas, e é muito bem tolerada. Ela esta sendo testada em outro estudo com pacientes que se apresentam no estágio leve da doença. A experiência começou em 2012, o resultado será conhecido em 2016 e a droga deve estar disponível no mercado em 2018.

Outra droga, o Gantenerumab, também é um anticorpo monoclonal que se liga à placa beta-amiloide e estimula sua retirada no sistema nervoso. Foi utilizado em indivíduos com Alzheimer leve por dois anos, mas não conseguiu demonstrar eficácia quando comparada com o placebo. Porém, nos casos de pacientes que tinham DA de rápida piora, e que tomaram uma dose maior do remédio, conseguiram atrasar a evolução da doença.

Um terceiro anticorpo, o Aducanumab, que já havia demonstrado eficácia antes, foi testado em uma dosagem de 6 mg/kg dose, por 54 semanas para pacientes com Alzheimer leve ou pré-clínico – quando o paciente apresenta alterações nas imagens de PET scan compatíveis com a doença, mas ainda sem perda da memória. Nesses pacientes houve nítido atraso no desenvolvimento dos sintomas.

Mas nem todas as notícias foram positivas. Estudos apresentados apontam que a doença de Alzheimer progride duas vezes mais rápido em mulheres do que em homens. A proteína beta-amiloide acumula-se mais rapidamente nas mulheres no período da menopausa, daí a doença atingir com mais frequência as mulheres. 

Do 1,5 milhão de pacientes com Alzheimer no Brasil, 60% são mulheres, e o número de pessoas que sofrem de DA vai triplicar em 30 anos, já que a nossa população idosa continua crescendo.