Você está aqui: Página Inicial / Revista / Impeachment / A tatuagem, à flor da pele
Número 861,

Cultura

QI

A tatuagem, à flor da pele

por Nirlando Beirão publicado 09/08/2015 07h44, última modificação 09/08/2015 08h03
A tattoo sai do gueto, ganha status e até cai no samba
Letícia Moreira
tatto-convenção

Mauro Landim, no SP Tattoo Week

Embrenhar-se por uma “convenção internacional de tatuagem” sem ter o crachá imprescindível de uma mísera estampa, nem mesmo uma discreta salamandra no pescoço, ou, que seja, uma rosa dos ventos no tornozelo, é como ser vegano numa churrascaria de rodízio, ou, numa analogia às avessas, sentir-se como aquele repórter gonzo Hunter Thompson, que foi cobrir um meeting do FBI americano de repressão às drogas cheio de maconha e anfetaminas na cabeça. Você está perigosamente fora de sintonia.

Desde a chegada à convenção (espanhóis, argentinos, norte-americanos, franceses, que, ali instalados, testemunham que ela é de fato internacional), no fluxo constante e robusto de uma maré humana que serpenteia até a concorrida entrada do Pavilhão Azul do Expo Center Norte, você experimenta certa angústia do estranhamento, que, no entanto, logo se dissipará na percepção de que a tribo ajaezada da Tattoo Week não é muito diferente, em aberrações e extravagâncias, da fauna que você habitualmente vê numa Fashion Week. Comparada com o mundinho da moda, a cena tattoo pode até ser, salvo um ou outro momento de freak show, como o propiciado por aqueles que tatuam a parte branca do globo ocular, surpreendentemente careta. 

“Conquistamos o status de uma forma de expressão artística, como o grafitti e a street art”, diz Enio Conte, o criador de uma Tattoo Week que, de week só tem metade, na verdade vai de sexta a domingo. Cinco anos atrás, Enio, com três décadas de estampas epidérmicas no currículo profissional, lançou o evento num diminuto pavilhão no bairro do Ipiranga, e nesta edição de 2015 saboreava a expectativa de 50 mil visitantes no mamútico Pavilhão Azul do maior centro de convenções de São Paulo. 

a-flor-da-pele
Parentesco: o new tattoo se diz próximo da moda alternativa, do grafite, da street art e até dos esportes radicais.

Mais importante que a contabilidade numérica, para ele, é perceber o progressivo prestígio social que a tatuagem veio alcançando muito além do circuito marginal dos presidiários, dos rappers, dos roqueiros, dos astros dos gramados e dos chefs de cozinha. “Por isso passamos a chamar a convenção de Tattoo Week, como as Fashion Weeks”, diz Enio. “A atmosfera é a mesma, a galera é a mesma.”

Bira, é Ubiratan Amorim, do Ink 33, usufrui, ao lado de seus parceiros, o casal Felipe Xavier e Sabrina Rodriguez, dos benefícios desse upgrade. O estúdio da trinca fica na Oscar Freire, a artéria-símbolo do luxo em São Paulo, e não por acaso a clientela – sujeita a entrar numa fila de espera que dura no mínimo um par de semanas – inclui médicos, advogados, publicitários e colunáveis, cuja ilibada reputação não corre o risco de ser comprometida por um mero detalhe decorativo a lhe enfeitar a pele. A classe A tomou gosto pela coisa, atesta Bira; decididamente, a tatuagem, linguagem ancestral de marujos saudosos de casa e de mafiosos trancafiados na cadeia, escalou a escada social.

Aos 20 anos, mas já com oito troféus de 1º lugar num currículo de assustadora precocidade, Bira é o Caravaggio das agulhas, no cultivo de um realismo detalhista e caprichado que vem embasado numa sólida formação artística, aluno que foi, na sua Bahia natal, de mestres dos pincéis e das tintas, como seu conterrâneo Leo Costa, de Bom Jesus da Lapa, e André Oliveira, em Salvador. “Trabalhei seis meses no McDonald’s para comprar o equipamento, depois virei eletricista para comprar as tintas importadas”, conta Bira. A tecnologia sofisticada e a mão de ouro do artista fazem um de seus desenhos realistas custar alguma coisa a partir de 1,8 mil reais.

convenção-tattoo
Duzão oferece as duas bochechas ao mestre Mauro e os artefatos de um dolorido culto

Olha lá, de repente, à frente de uma plateia extasiada, Bira, com o indefectível boné carmim do Chicago Bulls na cabeça, pronto para riscar a pele de Marcão, ex-Charlie Brown, hoje guitarrista do Bula. O tatuador tem um sistema: ele costuma oferecer ao futuro tatuado uma pequena psicoterapia prévia, quer saber se ele está de fato decidido ao sacrifício (tatuagem dói! – esta é uma verdade que ninguém do business desmente), se aquela imagem é realmente a que melhor se adapta ao seu tom de pele e ao lugar escolhido. Em geral, Bira simula em Photoshop a tatuagem que virá. Prefere ter a conversa inicial e só depois agendar a sessão de tortura, quer dizer, de pintura.

O realismo que Bira e o pessoal do Ink 33 professam combina com a demanda de uma freguesia que, cada vez mais, pretende gravar na epiderme uma experiência de verdade: o rosto de uma paixão, o rosto dos filhos, flores mimosamente coloridas, animais de estimação, naturezas-mortas e, inesperadamente, imagens de santos e da padroeira. Nossa Senhora Aparecida, ela então, é um must. Uma das imagens da Virgem que Bira traçou cobrou duas sessões, 12 horas ao todo. Haja resignação fervorosa.

Com tudo isso, esvazia-se da arte do tattoo o antigo estigma da transgressão e dissipa-se o carma do preconceito. Sinal dos tempos, ao mencionar aquela que é a fiel e ilustrada tribo dos craques de futebol, um razoável número de artesãos do estêncil menciona o mais recente gol de placa da categoria. “Você viu que até o Messi aderiu?” – festejam em coro. “Cobriu um dos braços e vai cobrir uma das pernas.” 

tatuagem-arte-convenção
“Hoje se desenha arte. O corpo humano é a tela do artista, que nela imortaliza sua obra-prima, seu talento divinal!"

Pois é, até o Messi, com aquele jeitinho de primeiro da classe, aderiu ao clã dos bad boys Carlitos Tevez, Neymar Jr., Dani Alves, Paolo Guerrero. “Os craques da bola querem ser tratados como artistas que eles de fato são”, diz o promoter Enio Conte. Desse time é Neymar, naturalmente, quem costuma ditar tendência. Ao tatuar no braço o rosto da irmã, consagrou o estilo realista. Do mesmo modo, se algum ator ou atriz da Globo ou de Hollywood exibir um dia sua intimidade tatuada, no dia seguinte uma legião de imitadores estará batendo às portas de algum artífice para copiar o desenho.

O dinheiro segue a rota da gentrificação. Marcas de estima aproximam-se de um território antes minado pela rejeição. Já na entrada da feira, a prestigiosa Harley Davidson expõe seus cavalos de aço montados por valquírias de vastas pernas, longos cabelos e sombrias carrancas que desestimulavam a aproximação dos engraçadinhos. A Jac Motors cedeu um de seus mignons J2 para que dois artistas do grafitti empreendessem a inédita experiência de tatuar um carro. Os bourbons da Jack Daniels e os irish uísques da Jameson alcoolizam alguns estandes. Os cosméticos da Bayer e da La Roche – alguns deles providenciais para quem escarafuncha a cútis – viraram patrocinadores. A AmBev, a BMW e grifes de street wear também passaram a frequentar tais acontecimentos. 

Coube à MCD, marca de surfwear, pagar as contas da  celebrity número 1 desta Tattoo Week 2015, a qual atende pelo sugestivo nom de plume de Megan Massacre. Norte-americana da Filadélfia, figurinha carimbada da cena underground de Manhattan e do Brooklyn, estilista, ativista dos direitos dos animais e habitué de reality shows cuja senha de ingresso é a excentricidade, Megan consagrou-se não tanto pelo seu ofício de imagens impactantes e de policromia radical; ajudou bastante o fato de ter sido capa da revista cult Inked na condição de “a tatuadora mais sexy da América”. 

tattoo-arte
Esvazia-se da arte do tattoo o antigo estigma da transgressão e dissipa-se o carma do preconceito. Créditos: Letícia Moreira

A loirinha de 27 anos, olhos azuis e rutilantes cílios postiços, está neste momento atuando sob os olhos de uma multidão convencida, ainda que a distância, de seus duplos dotes, os físicos e os profissionais. “A cultura da tatuagem é internacional, o Brasil está sintonizado com ela”, diz Ms. Massacre a CartaCapital. Sua arte custa 400 dólares/hora. Militante do vegetarianismo, foi vista comendo um vigoroso burrito num restaurante mexicano de São Paulo. “Só de verdura”, trata de esclarecer a assessoria.

Astros incidentais da cena tattoo, ainda que sem o red carpet reservado à cosmopolita Megan Massacre, buscam, olhem só, um fiapo de atenção nas alamedas que serpenteiam ao longo dos 1,2 mil expositores dessa alegórica Disneyworld das tintas e agulhas. A concorrência no quesito extravagância pode ser desleal por parte daqueles que apelam para a assim chamada extreme body modification.  

art-tattoo-new
Pouco a pouco, as grifes bacanas se aproximam do New Tattoo

O fato é que, mutilações à parte, narcisismo descontado, há quem, assim como Megan, faça do dermógrafo perfurante um honesto ganha-pão, seja como sujeito, seja como objeto (a tentação é de escrever: como vítima). Na categoria objeto destaca-se o popular Papai Noel, como ele se autointitula, no RG Vitor Sanchez, cujas barbas brancas e protuberância abdominal são sempre garantia de emprego temporário às vésperas do Natal (chegou a ser o Papai Noel do SBT). Nos demais períodos do ano, Vitor exibe-se em eventos, simpósios, convenções e – sem o perigo de pânico e de choradeira, assegura ele – até mesmo em festas infantis. Ele orgulha-se de ter, com certificação oficial, 94% do corpo coberto de desenhos, ressalvando, on the record, as palmas das mãos e as plantas dos pés. Tinha umas quatro ou cinco tatuagens até perceber, pouco tempo atrás, que aquilo poderia ter um valor comercial. “Cheguei a fazer duas por semana”, conta. 

“A decoração corporal sempre foi um hábito cultural dos pobres e marginalizados”, conta Silvana Jeha, autora de um memorável trabalho sobre a iconografia de pele entre os marinheiros do Atlântico e agora às voltas com a enciclopédica tarefa de mapear a história da tatuagem no Brasil até o século XX. Era comum entre os imigrantes, fossem libaneses, portugueses, italianos, japoneses, e os africanos também imprimiam na pele traços de sua miserabilidade escravizada, diz Silvana. “Só depois, no século XIX, com a influência do italiano Cesare Lombroso, é que a tatuagem passou a ser criminalizada, a serviço de uma classificação excludente, registro policial para suspeitos, marginais e criminosos.” 

Não se acanhe ao assistir, agora, ao intrigante espetáculo protagonizado por Mauro Landim, 21 anos de ofício, renomado especialista com estúdio no Planalto Paulista, expert no black and gray (“um estilo urbano, street, gangsta”, tenta esclarecer), tendo como parceiro a intimidante criatura denominada Duzão. Trata-se de uma massa gigantesca e volumosa de gente que dos 18 anos em diante, ou seja, há 14 anos, decora o corpanzil com uma iconografia radical. Vai, ao longo das próximas três horas, oferecer em holocausto suas bochechas, aonde as hábeis mãos de Mauro vão silhuetar um machado de cada lado. 

Duzão assegura a cota do folclore numa confraternização tribal que, no entanto, ano após ano vai ganhando ares de shopping center. Eis aí que vem a Rosas de Ouro, tradicionalíssima escola de samba da zona norte de São Paulo, para trazer a tatuagem, antes linguagem da periferia e provocação delinquente, para o convívio festivo da cultura popular. “Arte à Flor da Pele: A minha história vai marcar você” é o tema de seu Carnaval de 2016. A sinopse do enredo, assinada pelo carnavalesco André Cezari, anuncia, no jargão típico de sambista: “Hoje se desenha arte. O corpo humano é a tela do artista, que nela imortaliza sua obra-prima, seu talento divinal!” Então está explicado.