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Número 860,

Internacional

Diplomacia

Até onde vai o reatamento entre EUA e Cuba?

por Gianni Carta publicado 27/07/2015 04h10
A euforia cubana contrasta com o comedimento norte-americano
Divulgação
Bruno Rodríguez e John Kerry

John Kerry, secretário de Estado dos EUA (à dir.) com Bruno Rodríguez, ministro do Exterior de Cuba, em Washington, em 20 de julho. Uma chance para o diálogo

reabertura da embaixada de Cuba em Washington, e da norte-americana em Havana, segunda-feira 20, pôs fim a um período de hostilidade de 54 anos. Reatadas as relações entre a ilha comunista e o país do Tio Sam, quem tem mais a ganhar é Havana. Segundo o presidente Raúl Castro, a questão-mor é o fim do embargo econômico, comercial e financeiro imposto, em 1962, por John Kennedy. O cidadão cubano ganha um salário mensal de, em média, 20 dólares. No entanto, a decisão está nas mãos do Congresso dos EUA, cuja maioria é republicana e desaprova até mesmo as relações bilaterais entre os Estados Unidos e Cuba.

O entusiasmo dos cubanos também parece superar de longe o dos norte-americanos. Isso fica transparente nos comportamentos registrados nas inaugurações. Ou melhor, na maneira de festejar a promoção das chamadas “seções de interesses” para o status de embaixadas. Em Washington, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, presidiu uma cerimônia para 500 pessoas na opulenta sede erguida em 1916, e descrita no fim dos anos 50 do século passado pela revista The Diplomat como “uma das residências mais bonitas de Washington”. Lágrimas rolaram nos rostos dos diplomatas cubanos quando foram hasteadas as bandeiras. Já em Havana, a reabertura da embaixada não foi festejada, e a bandeira norte-americana não foi içada. Quilométricas filas de cubanos esperaram sua vez para fazer demandas. Em miúdos, para os americanos, business as usual.

A cerimônia em Havana acontecerá somente no próximo dia 14, quando o secretário de Estado, John Kerry, dará o ar da graça na ilha caribenha. Será a primeira visita a Cuba de um secretário de Estado norte-americano desde 1945. Certamente, a festança não terá o mesmo glamour daquela dos cubanos. De saída, a embaixada americana lembra um depósito com guaritas com militares armados até os dentes, grades e câmeras. Não se trata exatamente do local ideal para tomar coquetéis.

Por ora, as embaixadas não passam de um significativo passo simbólico. Elas continuam a ser “seções de interesses”, como eram chamadas até segunda-feira em ambos os países. Já a falta de pressa de Kerry em comemorar as novas relações bilaterais em Havana parece embutir uma mensagem. O secretário de Estado até a transmitiu em uma coletiva à imprensa, em Washington. “A normalização das relações com Cuba serão longas e complexas.” A razão?  “Numerosas são as diferenças a separar nossos governos.”

As intenções de Barack Obama ao dialogar com Raúl Castro parece ter começado, no entanto, com o aperto de mão entre os dois líderes durante o enterro de Nelson Mandela, em dezembro de 2013. As negociações ocorreram em dezembro de 2014 e o acordo foi firmado em 30 de junho. A reaproximação deve-se ao fato de Obama ter pedido um estudo sobre Cuba ao Departamento de Estado. Resultado: cabia retirar a ilha da lista de países ligados ao terrorismo. Papa Franciso, diga-se, encorajou a decisão de Obama de negociar com Cuba.

A passagem mais difícil das novas relações começa agora. Em uma coletiva à imprensa em Washington, John Kerry e Bruno Rodríguez reconheceram que a reproximação não significa que os países ficam em perfeita sintonia diplomática. No entanto, o secretário de Estado disse que, apesar das dificuldades, o diálogo “reflete” o fato de a “Guerra Fria ter terminado há muito tempo”, sendo assim, o interesse dos dois países será “mais bem servido através do diálogo do que com rivalidades”. Kerry disse, também, que esperava uma melhora no quadro de direitos humanos em Cuba.

Rodríguez foi mais incisivo. Pediu o retorno da Baía de Guantánamo, território de Cuba arrendado pelos EUA em fevereiro de 1903. Vale exprimir: Cuba recebia um cheque anual irrisório, inalterado há 102 anos, jamais saldado, não se sabe bem o motivo. Consta que Fidel Castro conserva os cheques na gaveta de uma escrivaninha. Em entrevista a CartaCapital, o professor de ciências políticas Michael Strauss, do Centro de Estudos Diplomáticos e Estratégicos em Paris e autor de um livro sobre Guantánamo, observou: “Faz vários anos que os Estados Unidos não pagam Cuba”.

Jeb Bush-eua
Jeb Bush, a previsível voz discordante, entre outras. Mas quem ganha no conceito mundial é Barak Obama

Eis as palavras exatas de Rodríguez na coletiva em Washington: “Queremos de volta o território ilegalmente ocupado de Guantánamo”. E emendou: Guantánamo está “ocupada” devido à “sede excessiva de dominação” por parte de Washington. Ademais, a base naval, transformada em prisão de supostos terroristas desde 2002, provocou “consequências nefastas”. Kerry rebateu: “Não há nenhuma discussão ou intenção da nossa parte, neste momento, em alterar o tratado de arrendamento existente, ou os acordos com relação à estação naval. Entendemos, porém, que Cuba tenha fortes sentimentos sobre o assunto”.

Ao se expor por vezes em espanhol, Kerry voltou a se referir ao fim do embargo. Obama, disse o secretário de Estado, “não poderia ser mais claro: ele é favorável a pôr um fim no embargo, e sugeriu que isso poderia ser feito no futuro”. Cuba quer, ainda, uma indenização por aquilo que denomina “bloqueio econômico”. Mas como avaliar a indenização? Havana faz uma estimativa de uma centena de bilhões de dólares. Por outro lado, os americanos-cubanos pedem indenizações pelas propriedades confiscadas pela Revolução de 1959. O valor estimado é de cerca de 8 bilhões de dólares. O governo cubano diz estar pronto a negociar esse tipo de indenização, provavelmente porque espera a contrapartida pelo bloqueio econômico.

Além dos congressistas republicanos, podem votar a favor da manutenção do embargo grupos anticastristas espalhados pelos Estados Unidos. Cubano-americanos extremistas não escasseiam. E eleitores moderados e direitistas poderiam votar contra o sucessor de Obama pelo fato de ele ter se reaproximado do Irã e agora de Cuba. Até democratas como o senador de New Jersey, Bob Menendez, estão cautelosos. Declarou Menendez na segunda: “Sempre podemos hastear uma bandeira na embaixada de uma ditadura”. E acrescentou: “Mas o objetivo real é içar as cores em um país onde o povo cubano é livre, onde os direitos humanos são respeitados e onde não aceitamos condições ditatoriais na nossa embaixada”.

Costumeiros suspeitos, como Jeb Bush, o ex-governador do Texas, e o senador cubano-americano de New Jersey, Marco Rubio, ambos candidatos à Presidência em 2016, estão possessos com as negociações com Cuba. Disse a propósito Jeb: “Só vai servir para legitimar ainda mais o regime repressivo”. E Rubio: Cuba “é o lar de terroristas e fugitivos que assassinaram cidadãos norte-americanos”. De todo modo, Obama ganhou pontos mundo afora. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 860 de CartaCapital, com o título "Reatamento. Até onde?"