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Número 860,

Política

Papinho Gourmet

Que rei é esse?

por Marcio Alemão publicado 02/08/2015 05h29
A inquietude da espera pelo garçom
Getty Images

 Deve ser alguma coisa pessoal.

– O quê?

– O garçom me ignorar.

– Não é pessoal. Todos te ignoram.

– E você consegue me explicar por quê?

– Você atrai o garçom surdo, o cego e o mal-educado, ainda que não sejam nada disso.

– Então você está me dizendo que a culpa é minha. Estamos sentados há cinco minutos.

– O que não é muito.

– Não é muito? Tenta ficar sem respirar por cinco minutos.

– Estamos conversando. A conversa nem está tão ruim como de costume.

– Tem razão. Se assim não estivesse, em três minutos eu já teria me levantado.

– O lugar tá lotado, calma.

– Não deveria estar lotado com esse serviço medonho. 

– Por que você não ergue o braço?

– Se eu estivesse em um leilão ou fosse líder de torcida, talvez acatasse seu conselho.

– Talvez ele esteja achando que não queremos ser incomodados.

– Essa foi boa. Temos cara de um casal de pombinhos apaixonados, por acaso?

– Imagine. Não queremos ser incomodados porque somos um casal grosseiro que poderá espancá-lo, caso ele venha a perturbar nossa paz.

– Você é muita engraçada, mas já se foi mais um minuto e olha ele, todo faceiro, de um lado pro outro, se achando a rainha do baile.

– Francamente! Ele está trabalhando e está com um sorriso no rosto. Vivas pra ele!

– Um cínico. Com certeza ri de mim.

– Não se coloque no centro de um mundo que não lhe diz respeito.

– Vou atrás do dono. Chega de intermediários.

– Você disse que esse restaurante hoje faz parte de um fundo de investimentos.

– E daí?

– Você acha que o Paulo Lemann vai chegar a qualquer momento e perguntar o que a gente gostaria de beber?

– Seria ótimo. Eu sairia deste lugar com impressão um pouco melhor.

– Ainda não aconteceu nada pra você ter uma má impressão, além da sua clássica paranoia com garçons.

– Paranoia! Hellooooou! Já entramos no sétimo minuto de abandono total. Já comecei a elaborar um sem-número de atos de vandalismo em resposta ao descaso desse garçom. 

– Quebrar pratos e copos?

– E arrancar a roupa, ficar nu, subir na mesa e bradar: o rei está nu! Nu e sem uma p... de bebida.

Entra em cena o garçom, com simpático sotaque soteropolitano.

– Me diga então, meu rei, como posso evitar esse constrangimento para sua rainha?