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Número 860,

Sociedade

Polícia Militar

Noites paulistanas

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 06/08/2015 19h23
Três garotos negros parados por policiais... E a surpresa dos PMs ao descobrir que um deles era poliglota e morava em Estocolmo
Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas
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"A trombada policial só confirmou a sensação de não se adequar a uma sociedade hipócrita"

Noite paulistana na Vila Ré. Noite gelada, regada pela garoa. Os primos Ygor, de 16 anos, Cayré, 17, e Yago, 13, saem do fast-food. Entre comentários sobre as vitórias do Palmeiras e brincadeiras, os garotos voltam para casa, a casa da avó, a corintiana Márcia.

No caminho são abordados por uma viatura da Polícia Militar. Brecada brusca, roda direita junto à guia. Portas fechadas ruidosamente. Os coturnos triscando o asfalto. Mãos nos coldres.

Gritos e safanões. “Mãos na parede, pernas abertas!”, berram os policiais. Giram os cassetetes para intimidar os meninos. Em seguida, batem no fígado da rapaziada, enquanto fazem a revista. Não encontram coisa alguma além dos celulares e dos tostões que sobraram dos burgers e batatas fritas.

Começa o interrogatório. Primeiro Cayré, aluno da Fatec, curso profissionalizante de Comércio Exterior. “Aonde vai, moleque?” “Pra casa da minha avó, logo ali, dois quarteirões pra frente.”

“E você, menino?” Yago responde que está na 7ª série.

“Também mora na casa da vovó, hein?” Yago responde com um meneio de cabeça. A voz quase não sai. O meganha insiste. Yago consegue emitir um quase inaudível sim.

Os policiais ainda rodam o cassetete. Chegam nos 16 anos de Ygor. O garoto observa os fardados da altura de 1,90 metro. “E você, grandão, também vai pra casa da vovó?” Ygor responde que sim, em um sotaque de erres e esses carregados. O meganha tem um esgar de estranhamento. Os três “investigados” sintonizaram a sensação de perplexidade da patrulha: um negro com sotaque. Os olhares e os sestros faciais dos policiais denunciavam febris imaginações. Tratar-se-ia de um haitiano, um desses negros imigrantes que roubam os empregos dos brasileiros, ou talvez um africano trapaceiro? Ainda, pior, um crioulo venezuelano empenhado em preparar a revolução bolivariana?

Ygor percebe os desencontros que atormentavam o cérebro do fardado, moreno escuro. Rapidamente, completa: “Eu ‘morro’ em Estocolmo”.

A desconfiança se converte à surpresa. “Estocolmo?”,  pergunta o mais fortinho e mais simpático dos policiais.

“Estocolmo, na Suécia”, explica Ygor. 

“Você fala inglês?” , atalha o outro, o mais carrancudo. Ygor confessa: “Falo sueco, inglês e espanhol, ‘esjtou’ aprendendo alemão. Quero ‘esjtudarr engenharria e trabalharr’ numa empresa alemã”.

Knock down. Abalroado pelo complexo de vira-lata, o policial apoia a retaguarda na viatura e, num murmúrio, anuncia: “Ah, então, bem, estão liberados”.

Yago, Cayré e Ygor chegam em casa. Contam a história. A avó pergunta a Yago, o menino de 13 anos: Você ficou assustado? “Não, vó. Meu pai já disse que isso sempre acontece com os negros.”

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O abordado deu um nó na cabeça dos policiais (foto: Talita França/ Secretaria de Segurança Pública SP)

Ygor foi morar na Suécia aos 6 anos. A mãe, Viviane, passista da Nenê de Vila Matilde, trabalhava em um call center em São Paulo. Casou-se com um sueco, médico psiquiatra, hoje funcionário de um hospital em Estocolmo. Há dez anos na Suécia, o menino usufruiu todas as benesses do Estado de Bem-Estar.  Saúde, educação, treinamento esportivo, atendimento psicológico. Adquiriu cidadania sueca. Só vem ao Brasil para visitar a avó e matar as saudades do Verdão, paixões que não abandonou e que não o abandonam. 

o quer voltar. A trombada policial só confirmou a sensação de não se adequar a uma sociedade hipócrita, violenta e racista. Os policiais que abordaram os meninos dificilmente seriam aceitos como brancos em uma inspeção ariana ou anglo-saxã. Nos anos de chumbo da ditadura, a professora exilada, tez mediterrânea, fazia inscrição em Oxford. A funcionária da universidade inglesa perguntou: “Cor?” A professora respondeu “branca”. Depois de registrar as respostas, a inglesa perguntou: “A senhora se considera realmente branca?”

Os policiais morenos assumem a “branquice” da alma. O “negro de alma branca”, expressão que trai a síndrome de Estocolmo. O submetido entrega-se às simpatias pelo opressor. A intimidação e o espezinhamento seculares  escancaram sua verdade.

Os bem-intencionados, cultos e provavelmente brancos, os de cima, lamentam intelectualmente a exclusão como fenômeno socioeconômico. Mas suas boas intenções não alcançam compreender a dor profunda infligida aos negros brasileiros de carne e osso maltratados no calvário cotidiano da exclusão e da discriminação.