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Número 860,

Cultura

Exposição

Luz na cortina

por Rosane Pavam publicado 02/08/2015 05h24
O fotógrafo Vladimir Lagrange registrou com humor e humanismo a vida soviética a partir dos anos 1960
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A Praça Vermelha é o insuspeito cenário em Pombas da Paz (1962)

Era como se alcançassem a Praça Vermelha pela primeira vez. Em 1962, as jovens vestidas de branco pareciam correr em meio às pombas para celebrar a paz. Ou, se todos fossem realistas, para honrar Nikita Kruchev. O líder soviético que decidira pôr em pratos limpos o horror promovido por seu antecessor, Josef Stalin, dera uma cartada de mestre rumo ao degelo nas relações entre Estados Unidos e União Soviética. Naquele mês de outubro, convencera secretamente os americanos a retirar os mísseis nucleares da Turquia em troca de arrancar os que ele próprio fincara em Cuba. O mundo deixaria de acabar em som e fúria por meio de uma explosão nuclear, como parecia certo antes dessa tratativa, e todos, a partir dali, dormiriam sua primeira noite de tranquilidade.

Um fotógrafo estava por perto para trazer à luz geral a imagem icônica da vitória. Era Vladimir Lagrange, o filho de um casal de pintores. Sua família, de origem francesa, chegara à Rússia com as tropas napoleônicas, no início do século XIX. De modo a repetir seus antecessores, e atento às novas expressões da arte, o jovem Lagrange admirara o instante único, aquele promovido por Henri Cartier-Bresson à profissão de fé dos fotojornalistas. A ponto de, aos 20 anos de idade, em 1959, ter decidido tornar-se um deles. Contratado a atuar na agência de notícias Tass e nas mais importantes publicações, entre elas a União Soviética, editada em 21 línguas e distribuída por 130 países, ele jamais vira a Praça Vermelha tão alegre como naqueles dias.

Desde todo o sempre, aquele fora o local predileto para a exibição do esmagador poderio militar de seu país. Invariavelmente, as imagens produzidas ali por tão bons fotógrafos russos (e ele admirara seus professores Vassily Egorov e Nikolai Kuleshov) mostravam a multidão sob comando triunfal. A exceção talvez tivesse sido a promovida pelo húngaro naturalizado americano Robert Capa em 1947. Ele viajara à URSS na companhia do escritor John Steinbeck para registrar o que o povo daquele lugar pensava do mundo, em um momento no qual talvez muitos supusessem não haver em circulação, por ali, pensamento algum. Como estrangeiros, o fotógrafo e o escritor haviam visto pouco além das vidas dedicadas a glorificar Stalin. Uma mulher a bocejar sob o sol na célebre praça, Capa não hesitou em exibir como um raro triunfo.

Lagrange, contudo, era diferente. Um russo, em primeiro lugar, a viver entre os seus, e a sofrer as restrições que o governo lhes impunha nos campos do comportamento, do pensamento e da arte. Que mantivesse dentro de si um contínuo estado de bom humor diante de qualquer fato parecia constituir uma particular revolução. E é esse sentimento em relação ao mundo o que salta ao observador de suas 65 fotos em preto e branco, presentes até 20 de setembro na exposição Assim Vivíamos, na Caixa Cultural de São Paulo, sob a curadoria de Luiz Gustavo Carvalho. O humor desfila pelas fotos do fim ao começo, como naquela de 1960, intitulada Interesse, em que dois meninos pequenos pesquisam o funcionamento de uma máquina de guloseimas prestes a surpreendê-los. “As obras refletem bem esse traço, muito evidente também em sua personalidade”, diz o curador, que decidiu na companhia do artista as fotos escolhidas para esta mostra, a partir de um vasto manancial de imagens. “Sempre perspicaz e às vezes beirando o sarcasmo, Lagrange consegue, entretanto, mostrar uma perene admiração pelo homem simples. Isso é refletido nas cenas cotidianas urbanas e rurais, assim como em sequências de guerra. O homem é sempre o âmago da atenção fotográfica.”

Sua arte cresceu durante o período em que as formas expressivas, no país, caminhavam adiante dos rigores stalinistas. Exceto por uma ocasião em que um editor censurou a foto na qual ele mostrava um minerador com a cara suja (a alegação editorial era a de que a imagem não correspondia ao homem soviético), Lagrange não teria sofrido qualquer impedimento de publicação, sempre conectado às mais ousadas posturas formais. Influenciado, como seus contemporâneos, pela vanguarda russa dos anos 1920 e pela visão dos construtivistas, ele se pôs a realizar o fotojornalismo, acolhido então com entusiasmo pelo governo do período. Mas iria sofisticá-lo. 

A revista União Soviética, que procurava retratar a vida cotidiana dos habitantes, incentivava-o a viajar por todo o território, de Moscou à região de Kamchatka. Lagrange pôde, desse modo, constatar com liberdade tanto o olhar perplexo de uma menina ao ler a lista das vítimas das repressões stalinistas de 1937 quanto a perigosa ação de um operário entre os fios de alta-tensão, sob a abóbada celeste. Boa parte de suas fotografias, produzidas por máquinas de todo tipo, das flex às portáteis, é feita a partir do chão. A câmera baixa parece projetar outra grandeza para os personagens da vida cotidiana. O sol ilumina permanentemente seus rostos, como aquele em Operário Pavel Kruglov, de 1963. Há muitas nuvens, a exemplo daquelas fortemente aguardadas pelos revolucionários fotógrafos de cinema russos, tanto quanto uma trabalhada textura da terra, em imagens como Tempo de Semear, de 1981, ou Ajudante, de 1979, na qual uma camponesa corre para entregar a marmita envolta em pano a quem a aguarda de braços abertos.

A geometria é uma constante obtida nos registros de maquinários e obras civis, como se a intenção fosse repetir não apenas as visões surpreendentemente sintéticas de Cartier-Bresson, mas também o lirismo sinuoso de um André Kertész ou as formas modernas, contrastadas, de Alexander Rodchenko. Lagrange difere, no entanto, de todos quando aproveita o branco da paisagem nevada ou dos ambientes internos, como aquele da escola infantil de balé, Jovens Bailarinas, de 1963, para destacar o movimento humano. Em A Velhinha, de 1961, o personagem sem idade está oculto em mistério. E na foto Agora Eles Estão no Poder, de 1987, um menino uniformizado, inserido em comemoração oficial, parece turvar a clareza durante a perestroika, a reestruturação política anunciada por Mikhail Gorbachev. É como se o fotojornalista perguntasse quanto haviam mudado todos, mesmo diante dos avanços prometidos.

“Tentei deixar os fatos políticos e acontecimentos históricos o mais longe possível das imagens, para que elas pudessem visualmente contar a vida de um país pouco conhecido do público brasileiro”, afirma o curador da exposição. O curioso é que o interesse por esta obra comece, para os do Ocidente, no instante em que o artista moscovita de 76 anos opera outra revolução. Depois de usar as câmeras analógicas para registrar apenas em preto e branco os momentos nos quais a vida humana pulsa, Lagrange passou à cor e hoje dedica todo o tempo à fotografia puramente artística, sem qualquer aspecto documental.