Você está aqui: Página Inicial / Revista / Francisco contra os donos do dinheiro / Uma questão de poder
Número 859,

Política

Análise/Vladimir Safatle

Uma questão de poder

por Vladimir Safatle publicado 20/07/2015 02h35
O erro de Tsipras foi ter acreditado que a Europa era um projeto de união entre governos soberanos
Genevieve Engel/ GUE/ NGL
Alexis-Tsipras

É certo que nem Tsipras nem ninguém seriam capazes de imaginar o nível de estupidez econômica que nos governa.

Eu assumo a responsabilidade por um texto no qual não acredito, mas eu o assino para evitar todo desastre ao país”. Foi assim que o premier grego Alexis Tsipras assumiu a capitulação de seu país à insanidade econômica que virou regra na Zona do Euro. É certo que nem Tsipras nem ninguém seriam capazes de imaginar o nível de estupidez econômica que nos governa. Seu antigo ministro da Economia, Yannis Varoufakis, havia escrito um sugestivo artigo no início do ano (“How I became an erratic marxist”, publicado no jornal britânico The Guardian) dizendo estar na hora de “salvar o capitalismo europeu de si mesmo”. De fato, os gregos ainda acreditavam ser possível dialogar com seus parceiros da Zona do Euro e mostrar a eles que as políticas implementadas haviam sido desastrosas e completamente ineficazes, que a dívida grega era, como o próprio FMI foi obrigado recentemente a reconhecer, impossível de ser paga, que até mesmo um ex-presidente do próprio FMI escrevera para defender a necessidade de não aplicar a mesma política. Mas talvez agora tenha ficado claro que não é possível salvar o capitalismo europeu de si mesmo.

Hoje ficou claro como o problema com a Grécia não é uma questão de economia. É uma questão de poder, de quem comanda a Europa e do que seus comandantes estão dispostos a fazer caso sejam questionados. Qualquer pessoa minimamente honesta seria capaz de ver como o problema grego expressa um equívoco estrutural da região e deveria levar a uma reflexão sobre o modelo comunitário. O que poderíamos esperar de uma zona de livre-comércio, um dos maiores engodos do neoliberalismo, composta de economias tão díspares em tamanho e desenvolvimento tecnológico quanto a Alemanha e a Grécia? Zona baseada na estupidez de acreditar que a concorrência pura e simples consegue resolver todos os problemas sociais e de desenvolvimento?

Claro que a primeira coisa a acontecer seria o desmantelamento do parque industrial grego, incapaz de competir em tais condições, e a transformação de sua economia em uma economia de serviços e de produção de commodities agrícolas baratas. Em um momento no qual a Comunidade Europeia prometia dinheiro fácil a juros baixos o Estado grego aumentou sua dívida (como vários outros Estados), não para permitir a seu povo “viver nababescamente”, mas para financiar sua elite com seus contratos com agentes econômicos internacionais para Jogos Olímpicos e coisas do gênero. Mas, quando a Europa resolveu jogar 1 trilhão de dólares na recuperação de seus bancos falidos, toda essa fragilidade explodiu. Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Irlanda, Bélgica: todos esses países pagam, com a pauperização de seus povos, a decisão da União Europeia de colocar a salvação do sistema financeiro na frente da defesa de suas economias nacionais.

O erro de Tsipras foi ter ainda acreditado que a Europa era um projeto de união entre governos soberanos pela criação de um espaço comum de desenvolvimento social. Ela é hoje apenas um aparato tecnocrata para a aplicação de dogmas econômicos de defesa da acumulação primitiva e da desigualdade, de destruição da coesão social em uma zona de protoimperialismo alemão. Diga-se de passagem, a Alemanha ganha com a crise porque ela conseguiu transformar os títulos de sua dívida em um “valor refúgio”, pagando assim duas vezes menos de juros sobre seus papéis. Os pacotes de salvamento da Grécia (e da Espanha, Irlanda e cia.) foram, em boa parte, empréstimos oferecidos a juros mais elevados que os pagos pela Alemanha com os papéis de sua dívida. Ou seja, a crise europeia é um bom negócio para alguns. O que podemos esperar com isso é uma desconfiança cada vez maior dos povos europeus em relação à União Europeia. Não será surpresa para ninguém se países como a Inglaterra, que tem ao menos a virtude de não aceitar subordinações, simplesmente saírem da União.

De toda forma, a experiência grega mostra claramente como um governo realmente de esquerda deve estar preparado para a mais brutal de todas as violências. Se o governo grego fosse bem-sucedido, seria difícil evitar que outros países não seguissem o exemplo e que o poder na Europa mudasse de mãos. Um só caso bem-sucedido de visão alternativa e tudo ruirá. Como sempre, os que estão no poder preferem a destruição a perder o controle. Tsipras disse sempre a verdade, quando afirmou não querer tirar o Grécia da Zona do Euro. Mas, neste momento, seria necessário um plano para sair. Foi isso o que faltou. Pois não é possível governar com medidas nas quais nem o próprio governo acredita.