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Número 858,

Cultura

Perfil

A tempestade de suingue de Tony Tornado

por Ana Ferraz publicado 19/07/2015 04h03, última modificação 19/07/2015 04h15
Aos 84 anos, o ator e cantor percorre na memória a BR-3, estrada que notabilizou na década de 70
Tony-Tornado

Furacão no palco, em 1970

Quando Ray Anthony Washington Patterson Anderson deixou Georgetown, na Guiana, traçou uma reta e parou em Macapá. Dali do meio do mundo, onde a linha do Equador fatia o globo em duas partes, empreendeu viagem ainda mais longa e despencou em Presidente Prudente. Como se tomado do espírito dos pioneiros, iniciou um processo de povoamento que resultou, se não lhe falha a memória, em cem filhos. Aos 103 anos, saúde estalando de boa, vive em Minas Gerais com a sétima mulher, “uma garota na faixa dos 60 e poucos anos”.

Entre a prole gerada por Anderson nasceu Antônio Viana Gomes, grande e forte como o pai, só que mais exibido. “Chegava o circo e eu subia no palco, um horror.” Aos 11 anos, Itororó do Paranapanema ficou pequena para acomodar suas vontades e seus talentos. “Eu era palhaço, chamado de veado, porque no interior artista é veado.” 

Grandalhão para a idade, imaturo em razão dela, deixou a família aflita para trás e de carona chegou à casa de uma tia em Seropédica, Rio de Janeiro. “Era muito ruim e muito longe. Fiquei uns dias e disse: ‘Não é aqui’.” Mais de 70 anos depois, Tony Tornado ainda se diverte ao narrar as agruras dos tempos de garoto pobre, engraxate e vendedor de bala puxa-puxa, amendoim, moldes de roupa. O sorriso caloroso e o tom de galhofa temperam cada frase, a voz grave e encorpada se impõe como presença sólida. Nenhum laivo de amargura. 

Na cadeira que acomoda mal o corpo de quase 2 metros de altura e envergadura considerável, Tornado recorda-se com facilidade das noites passadas num hotelzeco na Rua do Lavradio. “Era só pra livrar da vadiagem.” Para não ser recolhido ao xilindró, pagava para dormir apoiado numa corda. “Fiquei um bom tempo assim, até que chegou a hora de ir para o Exército. Me apresentei em 1948.” Na caserna conheceu Silvio Santos. “Abravanel veio para o quartel abrir uma cantina. Tinha bons contatos. Vendia carnaúba pra gente limpar o boot.” Viciado em exercícios, barriga tanquinho de guerra, Tornado fazia sucesso entre as mulheres. “Enquanto pude peguei geral.”

Depois de 14 anos como paraquedista, fez proveitoso estágio de quatro anos no Harlem entre a nata do tráfico e da prostituição nova-iorquina. “Vendia, mas não fumava. Nunca bebi nem fumei, não me identifico. Morei na 142, passei a ser o rei do meio para cá. Eu era o gringo, falava espanhol, eles achavam demais.”

Na efervescência dos anos 1960, conheceu Stokely Carmichael, o ativista do Black Power, marido da cantora Miriam Makeba. “Com ele aprendi o gesto do punho fechado, símbolo dos Panteras Negras, e coloquei na BR-3”, diverte-se ao relembrar a molecagem que lhe valeu encontros nada amigáveis com a gorilada do Dops. Em 1971, um ano depois de arrebatar o público do V Festival Internacional da Canção, subiu ao palco quando Elis Regina interpretava Black is Beautiful e repetiu o gesto de protesto. “Desci algemado, 40 mil pessoas no Maracanã vaiando a polícia. Fui dali direto para a Praça XV. Lá foi aquela coisa, ‘senta aí, negão. Canta aí, rodopia. O senhor é como se fosse uma melancia, vermelho por dentro e verde por fora’. Sabiam que eu tinha sido militar, daí esse papo, por fora a farda, por dentro comunista.”

Tony-Tornado
'Enquanto pude, peguei geral', diz Tony Tornado | Crédito: Gabo Morales
Na paranoia paralisante da ditadura, BR-3 ganhou dos militares interpretação mirabolante. As estrofes “Há um foguete/Rasgando o céu, cruzando o espaço/E um Jesus Cristo feito em aço/Crucificado outra vez” seriam uma apologia à heroína. “Eles diziam que BR-3 era a terceira veia, o Jesus Cristo feito em aço era a agulha”, se esbalda de rir. “A BR-3 é a estrada Rio-Belo Horizonte, e o Jesus em aço é uma estátua que está lá em Minas.”

Fosse o que fosse, aquele homem alto e bonito, jaqueta aberta a exibir o torso musculoso, coturno, cabelo eriçado, atitude de poder negro e gingado avassalador, soava ameaçador. Era preciso enquadrar o sujeito, despachado de Nova York num avião de carga, que chegava ao Brasil de cabelo descolorido, terno amarelo e sapato cavalo de aço. Um marciano entre os malotes. 

“Alguém lá me caguetou.” Era o fim da vida de cafetão e traficante. “Eu protegia a mulherada. A barra era pesada porque o cliente come e não quer pagar.” A temporada  americana “foi uma vivência muito boa” que deixou impressões fortes sobre o modo como os negros vivem em Nova York e no Brasil. “Aqui o problema é preconceito. Contra o preto, o careca, o gordo. Onde não entra um crioulo duro também não entra um branco duro.” Mas quando o intérprete que ganhou o FIC com performance histórica se casou com a atriz Arlete Salles, a sociedade reagiu de modo sórdido. “Foi um choque. Era difícil a aceitação de um casal assim nos anos 70. Deixavam bilhetes ofensivos no carro. Foram sete anos juntos, ela peitava tudo comigo. Gostei muito daquela mulher. Só notei que era loira quando me separei.”

Há tempos mais conhecido como ator do que cantor, Tornado se aborrece quando tem de explicar isso aos jovens. Recupera a alegria ao falar dos filhos Abraham Lincoln Tornado, ator, cantor e compositor que em shows se junta ao pai e ao grupo Funkessência, Aretha Franklin Pearl (homenagem às cantoras Aretha Franklin e Pearl Baby), Ray Arthur (“botei esse nome pra dar a mística do Rei Arthur”) e Luciano (“esse não fui eu que registrei”). 

Aos 84 anos, uma estrada percorrida maior que a BR-3, Tornado garante que não terá biografia: “Quando escreve o cara morre, dizia o Sebastião, e aconteceu com ele”, afirma ao citar Tim Maia. “Ele era parceiro. No show, quando cantamos suas músicas tenho a impressão de que Sebastião desce no palco.” No dia 18 de setembro, estará no Rock in Rio. Previsão meteorológica: tempestade tropical com raios, soul e suingue.

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