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Número 858,

Política

Editorial

Sonho de inverno

por Mino Carta publicado 13/07/2015 04h39
Inspirado por Maquiavel e Palas Ateneia, um estadista enfrenta a crise para evitar o suicídio coletivo
DAGLI ORTI/De Agostini/Getty Images e Veneranda Biblioteca Ambrosiana
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Do conúbio da deusa da sabedoria com o codificador da realpolitik nasce a personagem desta ficção

A presidenta Dilma, permito-me imaginar, sabe que de nada adianta falar com a mídia nativa. Abre o espaço para as entrevistas presidenciais, mas nem por isso muda sua postura francamente golpista. Dilma ganha, porém, a oportunidade de dar o seu recado, e isso é melhor que o silêncio.

O pessoal da casa-grande não arrefece, mesmo porque não mira somente no governo, mas também na possível, eventual, candidatura de Lula em 2018. Diante da gravidade da situação, das manobras do pássaro incapaz de voar, dos atentados contra a deusa vendada e da insensatez geral, desta vez vou além dos meus aturdidos botões para consultar um ser estratosférico, nascido do conúbio entre Maquiavel e Palas Ateneia. Como haveria de agir um estadista em meio a essa conjuntura?

A partir desta linha, tomem quanto se segue como capítulo de pura ficção, e aos leitores peço perdão por minha ousadia. Aconselhado em sonho pela entidade acima mencionada, o estadista convoca ao Palácio o presidente do STF e os presidentes de Câmara e Senado. “Chamei-os para uma análise da situação – diz o estadista –, que espero ser definitiva. E, de saída, esclareço que me inspira um demiurgo nascido da união entre o mestre da realpolitik, matizada pela ironia indispensável ao melhor conhecimento da natureza humana, e a filha de Zeus, deusa da sabedoria, grega, obviamente.”

À frente dos convocados, talvez presas de alguma perplexidade, o estadista prossegue: “Não sei se os senhores se dão conta da profundidade da crise que o Brasil é obrigado a enfrentar, econômica, política e social. Falemos em primeiro lugar da econômica, premente pelas perspectivas que descortina, a começar pelo desemprego crescente, em um país onde a maioria tem emprego de baixa qualidade.

“A gente sabe o que 2008 acarretou e acarreta para o mundo todo. O Brasil não poderia passar incólume, como não passou, por exemplo, quando do primeiro choque do petróleo, ocasião em que um asno pomposo, o ditador Ernesto Geisel, nos definiu como uma ‘ilha de prosperidade’. Ou no estouro das bolhas financeiras durante o governo de FHC. Uma agravante foram nossos erros, sem dúvida, e o conjunto da obra precipita a necessidade de um ajuste fiscal, de verdade indispensável.

“Rigoroso, sim, o ajuste, inclusive para taxar os ricos e salvaguardar os pobres, e acabar com a alta dos juros, inominável contrassenso nas circunstâncias. O peso da corrupção nessa moldura é elevado, mas não é fatal, embora ofenda em demasia moral e eticamente. Parece-me, aliás, que dois dos presentes também figuram entre os visados pela Justiça. E a respeito vale dizer ainda que a corrupção, filha do espírito predador semeado pelos colonizadores, no Brasil é doença endêmica. Fernando Henrique, para citar fatos recentes, comandou algumas das grandes bandalheiras da história pátria, comprou votos de congressistas para se reeleger * e não faltaram em seus governos personagens tão suspeitas quanto outras de origem petista. Não dou nomes, porque os senhores sabem perfeitamente a quem me refiro, de um lado e de outro.

diferença é precipitada, sobretudo em São Paulo, por algo que em outros tempos e outros recantos se chamou luta de classe. Os graúdos nativos, com honrosas exceções, enxergam no PT, antes ainda que uma forma aguda e imperdoável de esquerdismo, o partido da ralé, da choldra, da malta infecta. O PT, a bem da verdade, em tempos idos pregou o certo e no poder praticou o errado. Ocorre que os graúdos contam com o apoio irrestrito da mídia, também aqui com honrosas exceções.

“A mídia é um entrave poderoso à realização da democracia, a qual somente acontece onde todos os segmentos da sociedade contam com canais midiáticos para sua informação e orientação. Neste país só existe a mídia do pensamento único, compacta no ataque, quase sempre desonesto embora hipócrita, quando não insano **, a quem combate o privilégio e defende a igualdade. Clamam pela liberdade de expressão, trata-se, porém, da liberdade de dizerem o que bem entendem, sem exclusão de omissões, invenções e mentiras. O poder atual errou gravemente ao não impor limites ao monopólio e ao oligopólio e ao subvencionar largamente o ódio que a mídia destila contra o governo.

“O que me move agora é saber se os senhores se dão conta das suas responsabilidades em relação a uma crise que, em primeiro lugar, ameaça a nossa frágil democracia e o destino do Brasil. O que os senhores pretendem: secundar a marcha lenta, contudo inexorável, para o abismo? Curvar-se à vontade suicida da oposição e da mídia? Por que, meus senhores, do processo em curso não sobra pedra sobre pedra.”

Silêncio dos ilustres ouvintes. “Pois bem, senhores – continua o estadista –, responsáveis pela democracia a risco: chegou o momento de entendermos a importância do nosso papel. Não deixarei, de todo modo, de lembrá-los da minha primazia, na qualidade de eleito para chefiar o governo e, faço questão de sublinhar, de representar o Estado. Cabe-me, em nome dos princípios que hão de nos conduzir, exigir a vossa lealdade em defesa dos valores e dos ideais ameaçados.”

Entreolham-se os convocados. Diz o estadista: “Dirijo-me ao presidente do STF: é admissível que a Suprema Corte não intervenha em relação às arbitrariedades cometidas pelo tribunal de primeira instância de Curitiba ao prender cidadãos com endereço certo e sabido em nome de acusações a serem provadas? Não é, tanto mais em um país em que figuras como Daniel Dantas, Carlos Cachoeira e Edemar Cid Ferreira estão soltas, a viver à larga. E aos presidentes da Câmara e Senado, ambos peemedebistas, donde aliados do PT para governar o Brasil, pergunto se é possível assumir posições bastante ambíguas diante dos propósitos devastadores da oposição, em busca de pretextos para promover um impeachment a contrariar a lei e a razão. Senhores, não podemos permitir, cada qual dentro da sua função, que a Operação Lava Jato paralise o País com a disposição transparente de levar à bancarrota o setor mais ativo da economia brasileira, insubstituível para o combate ao desemprego. Provadas finalmente as culpas, punam-se exemplarmente corruptos e corruptores. Salvem-se, porém, as empresas, das quais o País tanto precisa. As circunstâncias, à beira da tragédia, nos solicitam à demonstração da nossa fé na democracia e do Brasil.”

A minha ficção para por aqui. Ah, sim, há uma derradeira fala do estadista: “Aproveito a oportunidade para informá-los a respeito de uma decisão tomada hoje, doa a quem doer: acabo de demitir o diretor-geral da Polícia Federal, que se manifesta como se o golpe estivesse à vista, e vou chamar de volta o delegado Paulo Lacerda, que mostrou toda sua lealdade e competência tanto na chefia da PF quanto da Abin”. 

Notas de Rodapé

*Por ter comprado o voto de um senador, com o propósito de derrubar o segundo governo Prodi em 2008, Silvio Berlusconi foi condenado na quarta 8 a 3 anos de reclusão e 5 de interdição de qualquer atividade pública.

**Um comentarista-colunista das Organizações Globo afirma que a crise grega é culpa de Lula, que sugeriu ao premier Tsipras a solução do “não”.