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Número 858,

Política

Operação Lava Jato

Pedro Barusco, o fiel delator

por Fabio Serapião — publicado 20/07/2015 02h34
As revelações do ex-gerente da Petrobras alimentam as investigações
Antonio Cruz/ ABR
Barusco-lava-jato

Barusco aceitou devolver 97 milhões de dólares

Até o momento, a Operação Lava Jato bate recorde de delações premiadas, 17 ao todo. Nenhuma delas parece, no entanto, ter surtido tantos efeitos quanto as revelações de Pedro Barusco, ex-gerente-executivo de Engenharia da Petrobras. Ao detalhar a estrutura financeira usada para escoar o dinheiro amealhado em fraudes em cerca de 90 contratos da estatal e a relacionar o nome de quem pagava as propinas em cada empreiteira envolvida no escândalo, seus depoimentos tornaram-se, desde então, peças fundamentais das operações encabeçadas pela força-tarefa responsável pela investigação dos crimes.

Além disso, o ex-gerente firmou acordo para devolver aos cofres públicos 97 milhões de dólares, desviados, segundo o próprio delator, a partir de 1997, ainda no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, período em que o pagamento de propina teria começado. À força-tarefa Barusco declarou que ao longo do tempo o esquema teria se aperfeiçoado, e nos últimos anos corresponderia a entre 1% e 2% do valor total dos contratos. O dinheiro, afirma, seria dividido com Renato Duque, ex-diretor de Serviços da estatal, e João Vaccari Neto, tesoureiro do PT.

Na quinta-feira 2, as informações de Barusco voltaram a ser utilizadas pelo Ministério Público Federal para solicitar a prisão de Jorge Zelada, ex-diretor da Área Internacional da Petrobras. Indicado ao cargo pelo PMDB, Zelada teve seu nome envolvido pela primeira vez no escândalo quando Barusco o citou entre os recebedores de propina. As quantias, disse o delator, teriam sido entregues de duas maneiras: uma parte em dinheiro vivo seguia para o apartamento de Zelada no Rio de Janeiro, o restante era remetido para contas na Suíça. Descrevem em despachos os procuradores da Lava Jato: “Zelada recebeu vantagem indevida juntamente com Duque e Barusco na contratação das Plataformas P51, P52 e P56. No decorrer da investigação, comprovou-se que ele também aceitou suborno durante a época em que estava no cargo de diretor internacional”. 

Batizada de Conexão Mônaco, a 15ª fase da Lava Jato, acreditam os investigadores, conseguiu reunir a documentação necessária para comprovar as transações financeiras suspeitas no exterior e depoimentos que sustentariam a versão de Barusco a respeito da participação de Zelada. Do Principado de Mônaco, as autoridades brasileiras receberam os extratos das contas do indicado do PMDB naquele país. São 12 milhões de euros depositados em duas contas de sua titularidade. Da mesma forma como as aberturas das contas de Zelada permitirão aos investigadores chegar aos operadores responsáveis pelos pagamentos, no caso de Barusco o procedimento ampliou o escopo e permitiu à Lava Jato crescer exponencialmente.

Jorge-Zelada
Jorge Zelada. Indicado pelo PMDB, era o diretor da área internacional da Petrobras. Créditos:Brazil Photo Press

Quando começou a prestar seus depoimentos, no fim do ano passado, Barusco revelou às autoridades o valor recebido de todas as transações efetuadas nas 19 contas mantidas na Suíça. A primeira delas aberta ainda em 1997, no banco Republic. Esse material serviu como base para a realização da nona fase da Lava Jata, intitulada My Way, homenagem ao apelido dado por Barusco a Duque, então seu chefe. Cercada por menos holofotes do que as demais, essa fase é considerada essencial pela força-tarefa, por ter permitido o mapeamento dos responsáveis pelo repasse da propina em cada empresa, a apreensão de provas em suas residências e a quebra de sigilo das consultorias usadas para dissimular o envio do dinheiro das empreiteiras para os agentes públicos.

Foi nessa fase que entraram na mira das investigações, além de Vaccari, Shinko Nakandakari, Mário Góes, Atan Barbosa, Guilherme Esteves, Zwi Zcorniky, Luis Eduardo Barbosa, Augusto Amorim Costa, Cesar Roberto Oliveira, Milton Pascowitch e Bernardo Freiburghaus, dito doleiro da Construtora Odebrecht que vive na Suíça e é considerado foragido pela Justiça brasileira. Nakandakari, suposto operador da Galvão Engenharia, virou delator e contribuiu na prisão do presidente da empresa, Dário Galvão. Pascowitch teve seu acordo homologado no início de julho, como revelou CartaCapital, e confirmou ter pago propina ao ex-ministro José Dirceu e a Duque. Vaccari, Goés e Esteves foram presos pela força-tarefa, mas ainda não se sabe se aderiram ou pretendem aderir a acordos de delação.

Os depoimentos de Barusco também enfraquecem a versão defendida por algumas empresas e construtoras de que o pagamento de propinas era necessário para obter contratos com a Petrobras, espécie de achaque. Segundo ele, os acertos eram “uma iniciativa que surgiu de ambos os lados e se tornou sistemática a partir do segundo contrato da FPSO (plataforma de petróleo), firmado entre a SBM e a Petrobras no ano 2000”.

Esperam-se nos próximos meses novas operações montadas a partir de informações oferecidas por Barusco. Dos operadores por eles listados, muitos ainda não passaram pela carceragem da Polícia Federal no Paraná. Com as novas delações de Pascowitch e Nakandakari, mais detalhes e nomes tendem a engordar o escopo de alvos e transações suspeitas, apostam os investigadores. O escândalo, percebe-se, está longe de ser totalmente desvendado.