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Número 858,

Sociedade

Rio de Janeiro

“UPP não acabou com o tráfico, só trouxe falsa sensação de segurança"

por Marcelo Pellegrini — publicado 16/07/2015 02h40
A polícia divide espaço com traficantes no Complexo do Alemão, acusam moradores
Adriana Lorete
rio-de-janeiro

Souza reclama: “Para quem está na linha do fuzil, nunca foi diferente”

"Na favela não tem traficante, tem varejista. Os traficantes estão na Presidente Vargas, onde fica a sede da Polícia Militar do Rio de Janeiro.” Essa foi a resposta de Leonardo Souza, integrante do coletivo Ocupa Alemão, a um representante da PM, durante a audiência pública de abril em que a polícia pedia por mais apoio dos moradores à guerra contra o narcotráfico.

Fundado em 2012, dois anos após a implantação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora no complexo de favelas, o Ocupa Alemão defende a desmilitarização dos morros cariocas. O coletivo justifica seu posicionamento com base nos casos de abusos policiais na comunidade, de invasões a festas de aniversário a casos extremos como a morte de Mário Lucas, de 18 anos, assassinado por um policial dentro de sua casa, ou o menino Eduardo Ferreira, de 10 anos, morto com um tiro por um agente público, segundo a perícia, na porta de sua residência.

Exposto a um cotidiano de violência frequente, Souza é cético em relação à presença da polícia nas favelas. “A UPP nunca tirou o tráfico de drogas, só trouxe uma falsa sensação de segurança para a classe média.”

O vácuo deixado pelo Estado, sempre se afirmou, abriu espaço para um poder paralelo. Sua presença, diz o ativista, não amenizou o problema. “Antes da UPP, éramos obrigados a responder ao traficante. Hoje, se algo acontece, não posso chamar a polícia porque o traficante vai ver. Também não posso chamar o traficante porque a polícia me vigia. Não temos a quem reclamar”, afirma Souza.

Criadas em 2008, as UPPs são a principal aposta do governo fluminense para restabelecer o controle das favelas e combater o narcotráfico. Funcionam? Nem tanto, segundo as estatísticas. Dados da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro revelam que os roubos a residências cresceram 20% e os de estabelecimentos comerciais avançaram 28% na área do 16º Batalhão da Polícia Militar, que abrange os complexos da Penha e do Alemão, na comparação entre os primeiros três meses de 2014 e deste ano. A polícia defende-se com outros dados: 50% de redução em homicídios, entre 2011 e 2014, e aumento de 140% nas apreensões de armas na região.

Os indicadores mais recentes seriam a prova de que a presença policial não trouxe segurança, segundo o Ocupa Alemão. Ao contrário, antes da UPP, o complexo vivia relativa paz, segundo Rafael Balbo, também integrante do coletivo. Nesse período, todas as favelas estavam sob o domínio da facção criminosa Comando Vermelho.

Com as UPPs, o Comando Vermelho foi expulso e deu lugar a duas facções rivais: os Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando. “A polícia entra e escolhe qual facção quer aqui. Os policiais protegem o bandido lucrativo para eles e perseguem quem vai contra seus interesses”, acusa Balbo. “Com o complexo dividido entre duas facções, muitos moradores são impedidos de visitar parentes ou transitar em áreas rivais.”

Para ele, o maniqueísmo da disputa polícia versus traficantes, criado pelo governo e pela mídia, camufla a corrupção policial. “No Morro do Adeus, abriram uma boca na minha rua, em 2014. A polícia ficava a 5 metros, fazendo a proteção dos traficantes”, relata. “Neste ano mudou, porque eles não estavam conseguindo dar apoio aos moleques 24 horas por dia. Aí, prenderam o chefe e agora eles estão em tiroteio direto até se acertarem de novo.”

Souza concorda com a avaliação. Segundo ele, a guerra ao narcotráfico é uma desculpa para controlar militarmente áreas pobres e de maioria de população negra. “O tráfico de drogas ou armas não é problema do morro. Eu moro no Alemão desde que nasci e nunca encontrei uma fábrica de drogas ou de arma aqui. Essa é uma guerra contra pobres e negros.”

Moradores observam ainda seus escassos bens públicos servirem de trincheira. É o caso da Escola Estadual Caic Theophilo de Souza Pinto, há dois anos usada como base para a UPP Nova Brasília e com as paredes marcadas pelo confronto armado. A instituição apresenta desempenho escolar de 2,6 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, um ponto abaixo da média estadual. Por causa da violência, houve queda no número de alunos: 37% de redução em suas matrículas em comparação com 2010, ano em que a UPP foi instalada. De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora, a UPP Nova Brasília aguarda a conclusão da reforma da nova base para abandonar a escola.

Escola Estadual Caic Theophilo de Souza Pinto
As paredes da Escola Estadual Caic Theophilo de Souza Pinto ainda guardam as marcas do fogo cruzado

“Para quem está na linha do fuzil, o cenário nunca foi muito diferente”, afirma Souza. “A favela foi criada para ser um ‘não local’, para não existir. E a falta de políticas públicas após a ocupação confirma isso.”

“O que a gente quer é a auto-organização dos moradores. O Estado não entende as favelas e nunca as desejou. As favelas nasceram de mutirões. Nós, moradores, erguemos casas, escolas e creches, mas agora somos expulsos pela polícia e pela especulação imobiliária que veio com a ocupação”, acrescenta.

Em nota, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora afirma que nenhuma denúncia formal do coletivo foi encaminhada à polícia e os crimes policiais são investigados e punidos. Diz ainda que, de 2007 a maio de 2015, mais de 2 mil policiais civis e militares foram expulsos de suas corporações pelas mais variadas irregularidades. Além disso, “não haverá recuo no processo de pacificação nem a retirada de UPPs do Complexo do Alemão”

*Reportagem publicada originalmente na edição 858 de CartaCapital, com o título "Espremidos entre dois senhores"