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Número 858,

Cultura

Papinho Gourmet

É apenas um show

por Marcio Alemão publicado 19/07/2015 03h48
A atuação dos chefs de tevê nos reality shows e em seus restaurantes: bons de cozinha ou bons de mídia?
Band/ Divulgação
master-chef

Bons de cozinha ou bons de mídia?

–Opa, Alemão! Bom te encontrar.

–É sempre bom me encontrar.

– Principalmente, porque constato que esbanjas saúde e modéstia.  

– Mas o tempo anda escasso. 

– Sobre chefs de tevê e seus restaurantes.

– Já sei o que você vai falar.

– Então posso ir embora?

– Melhor. Nunca tenha nada de muito relevante a acrescentar às suspeitas de ninguém.

– A tal modéstia da segunda linha ganhou pitadas de falsidade.

– Fala de uma vez.

– Fui ao Arturito, o da Paola, aquela malvada do Master Chef

– Ela não é malvada. É exigente.

– Só no programa?

– Não mistura as coisas.

– Como não? O problema é que a turma que participa do programa não tem grana pra ir ao restaurante dela. Já imaginou se tivesse? Já imaginou na semana seguinte?

– Ia ser divertido. Mas ainda acho que você pediu mal.

– Já fui lá cinco vezes pra tirar teima. 

– Então pegou o chef num mau dia.

– Vale o candidato dizer isso no programa? Estou num mau dia, releve. E o simpático Erick? Por que ele vive abrindo e fechando restaurante?

– Inquieto.

– Tenta mais uma.

– Cansou.

– Outra melhor.

– Era o rei do foie gras. Mas chega desse papo. Professor de literatura não precisa ganhar o Jabuti pra ensinar. E não me pergunte sobre o tatuado, que nada sei sobre ele.

– Quem?

– Não tem mais um no programa?

– É. Acho que tem.

– Conselho aceita? É apenas um show. Não leve a sério.

– Mas daqui a pouco vai ter molho com nome deles, panela, grill.

– Você tem lido as coisas que escrevo? Quantas vezes já repeti que os restaurantes de Jamie Oliver pelo mundo são sempre muito mal avaliados? Ele é bom de mídia, péssimo na cozinha. 

– Alemão, você tá querendo fazer média porque conhece os caras, mas botou a cara na tevê, tá cuspindo regra do alto do salto, do sotaque, tá apontando o dedo, tá fazendo graça com o aprendiz? Então tem de segurar a onda no restaurante. Tem de ser bom, muito bom, o melhor, impecável, perfeito. Não pode haver desculpa. Fui lá, não comi bem, ou o que é ainda bem pior: comi mediocremente, deveria ter espaço pra falar: ei, volta pra lojinha que aquilo desandou!

– Ninguém te impede. Use as redes sociais, cartas para jornais, mas já te aviso: se quiser voltar lá, vai ter de esperar horas na fila. É assim que funciona.