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Número 858,

Internacional

Estados Unidos

Bernie Sanders, uma ameaça a Hillary

por Eduardo Graça — publicado 18/07/2015 03h34
Porque o senador socialista coloca em risco as pretensões eleitorais de Hillary Clinton
Alex Wong / Getty Images / AFP
Bernie-Sanders

Socialista, Sanders empolga a base democrata como fez Barack Obama há sete anos

Ninguém imaginava, mas a principal ameaça às pretensões eleitorais de Hillary Clinton nas hostes do Partido Democrata parte de um provecto senador de Vermont. Aos 73 anos, Bernie Sanders, único parlamentar declaradamente socialista, assusta a ex-primeira-dama e ex-secretária de Estado. As pesquisas mais recentes apontam sua impressionante ascensão entre os eleitores: em dois meses ele reduziu pela metade a diferença em relação a madame Clinton e empatou com a antiga colega no Capitólio no decisivo estado de New Hampshire. 

Cabelos brancos, corpo tenso em um terno preto ao menos um número acima do ideal, óculos simples de aro branco, sem gravata, o candidato a candidato celebrou o feito na primeira semana de julho em um comício com 10 mil espectadores no Veterans Memorial Coliseum, em Madison, no Wisconsin. A cidade não foi escolhida por acaso. É uma das joias da coroa da direita americana, principal palco da batalha entre o governador Scott Walker, apoiado pelo movimento ultraconservador Tea Party, e os sindicatos, por conta da plataforma de austeridade fiscal e Estado mínimo defendida pelo republicano, um dos 16 candidatos oficiais da oposição na disputa pela Casa Branca do próximo ano.

“Hoje fizemos história. Nenhum comício desta campanha reuniu tanta gente em um mesmo evento. Ontem, cheguei à cidade e as propagandas republicanas me identificaram como o extremista de Vermont. Extremista é quem nega o direito dos trabalhadores de barganhar na mesa por melhores condições de trabalho. É quem diz às mulheres que elas não são capazes de decidir o melhor para seus próprios corpos. É quem as trata como crianças ao negar o direito de acesso a contraceptivos. É quem corta os impostos de bilionários e se recusa a aumentar o salário mínimo”, discursou. 

Os gritos de “Bernie! Bernie! Bernie!” remeteram a outro candidato, negro, igualmente oriundo do Senado, sem projeção nacional, que em 2008 reuniu um número de militantes em torno de um projeto político capaz de derrotar os poderosos Clinton nas primárias democratas. Em seu comício em Madison, Sanders recebeu os mais intensos aplausos públicos da campanha até o momento ao afirmar que “é chegada a hora da criação de um movimento político que diga aos mais ricos de forma decisiva: vocês não podem ter tudo”.

As reações das cabeças coroadas do Partido Democrata revelam o temor de o senador enfraquecer aquela que poderá ser a primeira mulher a governar os Estados Unidos. De acordo com a revista semanal The Nation, uma ação da cúpula partidária impediu a maior central sindical do país de anunciar o apoio a Sanders e garantir um compromisso de neutralidade. O mago das duas campanhas presidenciais de Obama, David Axelrod, escreveu no Twitter, logo após a divulgação das pesquisas, que as plateias do senador lembram mais Howard Dean, outro político oriundo de Vermont, do que aquelas de Obama. Em 2004, Dean conseguiu galvanizar a esquerda do partido. “Seu impacto foi inegável, mas quem venceu as prévias foi John Kerry”, anotou Axelrod. O atual secretário de Estado, como se sabe, figura moderada, mas sem a capacidade de levantar as massas, acabou derrotado nas eleições gerais por George W. Bush.

Nem todos concordam. “O novo nesta campanha até agora é justamente a quantidade de eleitores dispostos a discutir as ideias propostas por Sanders, que, fora de Vermont, pareciam até ontem alienígenas ao status quo da sociedade americana”, diz a advogada Carole Echanis, simpatizante de Sanders desde que este se elegeu, em 1981, prefeito de Burlington, a cidade mais populosa do estado vizinho ao Canadá.

O analista político Nate Cohn, do New York Times, lembra que, além das pesquisas e dos comícios, Sanders demonstra poder de fogo nas arrecadações, com 15 milhões de dólares em seus primeiros três meses de campanha, ou um terço dos números apresentados por madame Clinton. Uma diferença: o senador recebeu doações de mais de 400 mil indivíduos, enquanto a ex-secretária de Estado se valeu do apoio dos mais ricos. Dados que alimentam a mensagem de Sanders de ser ele o único candidato anti-lobby no flanco democrata e bem à esquerda da concorrente em relação a Wall Street e à política externa. Também se lançaram na disputa entre os governistas, sem grande repercussão, os ex-governadores de Maryland e Rhode Island, Martin O’Malley e Lincoln Chafee, e o ex-senador Jim Webb, da Virgínia.

“Neste momento, ele tem números idênticos aos de Obama na campanha de 2008. Mas Obama tinha um discurso moderado fundamental para vencer Hillary em uma disputa apertadíssima. O que pesou foram os votos dos negros, o grupo mais conservador entre os democratas, especialmente em temas sociais. De lá para cá, por sua vez, Hillary ampliou a vantagem que já tinha há oito anos entre os democratas de origem latino-americana”, pondera Cohn.

De qualquer modo, Sanders conseguiu o feito de mover a candidatura Clinton para a esquerda. Interessada em assegurar o apoio das principais figuras da ala mais liberal do partido, cujas duas principais estrelas são a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, e o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, a ex-secretária de Estado tem defendido a ampliação de programas de combate à desigualdade social e de redução da pobreza nos EUA, temas caros ao senador. O receio da cúpula do partido governista é de que esse inesperado obstáculo à esquerda impeça a favorita da legenda de conquistar o apoio dos eleitores independentes na eleição geral, nem republicanos nem democratas, cruciais nos estados mais decisivos na disputa de 2016